ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

Tenho acompanhado nesses últimos dias os tsunamis de lama, merda e safadeza que tomou conta do país, e, com a minha cupidez caeté, estou lambendo os beiços, atiçando a minha fogueira irracional e torcendo para que um pedaço de toitiço sobre para eu colocar no espeto e saciar a minha fome anticivilizacional neste quadrante do planeta. E, chego a uma conclusão aterradora: a república brasileira morreu. Virou um cadáver insepulto fedendo, se decompondo em plena praça pública.

Não digo que a democracia brasileira morreu. Esta está morta há muito tempo. Aliás, quase não dá para precisar quando a democracia morreu e qual a sua causa mortis. Apenas se pode constatar a sua morte a partir da fedentina de seu cadáver. Desde a dita redemocratização, o Estado brasileiro foi organizado como um grande balcão de negócios feito para poucos, perpetuando oligarquias políticas que, desde o golpe de 15 de novembro se assenhorearam do poder e nunca mais o largou.

E, nesses cento e pouco anos, com contrações e distensões, o arremedo de democracia brasileira, afastou o povo das decisões políticas, construiu um arcabouço burocrático que criou uma casta dicotômica: a classe burocrática que se adonou do Estado, e o resto, cuja única função é sustentar o falacioso estado democrático.

No entanto, é necessário não confundir democracia com república. A China é uma república, a Nicarágua é uma república. A Coreia do Norte é uma república, Cuba é uma república, porém, estão longe, mas muito longe de serem democracias. A república, do latim, res pública, ou coisas do povo, na sua tradução mais lata, é sistema de governo que, em tese deveria se sustentar baseada na vontade da sociedade, no ordenamento jurídico definido pela sociedade expressa nas leis, na sua constituição, no direito natural e positivo, e o Estado seria apenas a expressão da vontade da sociedade, organizado para, temporariamente, através de representantes, refletir o bem comum e as determinações dos seus mandantes: o povo.

A República brasileira morreu. E aqui o termo que eu uso para morte é nekhrós, – olha Violante, caeté também sabe grego -, morte no sentido literal, desprovido de vida, sem o animus vital. E, além de morta, a república brasileira virou um cadáver insepulto, decompondo-se de maneira rápida e violenta para narizes e bocas para quem quiser ver.

Ouço um número de analistas políticos falando em salvar o que resta da democracia brasileira, mas não tocam na questão fundamental que eu vejo. Não há que salvar algo que já está morto. Da mesma forma, esses mesmos “analistas” não tocam na pergunta fundamental que deveria ser feita: Tem como salvar uma república que morreu e já está em adiantado estado de putrefação? Respondo: não. Não tem como devolver a vida a um sistema que já está entrando em estado enfisematoso. Na tanatologia, esse estado é quando o cadáver começa a inchar, a emitir gases putrefatos e a liquefazer os tecidos.

Esse é o estado da república brasileira. Está morta. Está putrefata. Está começando a eliminar necrochorume altamente contaminante. E, morreu pela nossa leniência com o errado, pela nossa moral elástica, pela nossa incapacidade e discernir o que certo e o que é errado. O que estamos vendo na dita “crise” entre os poderes não é causa da morte da república. É apenas consequência. Vocês, meus caros caetés, podem até discordar de meu pessimismo, e da minha constatação, mas é uma consequência lógica do sequestro do Estado pelas oligarquias políticas que desde 1899 vem se adonando do país. Uma hora, ou outra, as tentativas de manter o embalsamamento desse cadáver iria dar com a cara na parede. Esse momento chegou.

Eu não acredito que haja uma resposta a essa inação. Cadáver não reage. Cadáver não se posiciona. Há apenas uma aceleração do processo de putrefação que pode ser percebida pela cumplicidade dos poderes ditos republicanos, com a ilegalidade, com o crime e com a safadeza.

Há esperanças? Não acredito nessa possibilidade de se ressuscitar esse cadáver e coloca-lo em pé. Não vejo possibilidade de se animar esse cadáver. Seria apenas um zumbi autofágico. A república brasileira, no atual estágio de putrefação de morte, apenas precipita o país para um abismo estarrecedor que mata qualquer oportunidade de salvação. E, também, não acredito na possibilidade de renovação com eleições. Será apenas mudar a roupa do cadáver, em sepultá-lo.

Confesso que não tenho competência de propor solução alguma, mas apenas constatar que a república que nasceu em 1899, através de um golpe militar que excluiu o povo, morreu no século XXI, e aqueles que sempre parasitaram nela, estão renitentes em enterrar esse cadáver fedorento, mesmo que, para continuarem a se beneficiar, destruam a nação como um todo.

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