PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A minha mocidade há muito pus
No tranquilo convento da tristeza;
Lá passa dias, noites, sempre presa,
Olhos fechados, magras mãos em cruz…

Lá fora, a Noite, Satanás, seduz!
Desdobra-se em requintes de Beleza…
E como um beijo ardente a Natureza…
A minha cela é como um rio de luz…

Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada!
Empalidece mais! E, resignada,
Prende os teus braços a uma cruz maior!

Gela ainda a mortalha que te encerra!
Enche a boca de cinzas e de terra
Ó minha mocidade toda em flor!

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

Um comentário em “RENÚNCIA – Florbela Espanca

  1. Florbela, que morreu muito deprimida aos 35 anos, fala de sua mocidade, como um cadáver que ficou em um caixão onde não deve sair, pois Satanás, como o dono da noite e da tentação com requintes de beleza a levar-lhe à perdição.

    Extremamente talentosa e em depressão profunda. Ficaram os versos extraordinários.

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