FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

Com a devida permissão de José Antônio Gomes Brasil, um internauta-pesquisador, reproduzimos, abaixo, uma parábola muito divulgada em dinâmicas comunitárias:

A um rabino muito justo foi permitido que visitasse o purgatório e o paraíso. Primeiramente, foi levado ao purgatório, de onde provinham os gritos mais horrendos dos rostos mais angustiados que já vira. Ali, todos estavam sentados numa grande mesa, sobre ela se espraiando iguarias de todos os tipos, as mais deliciosas possíveis, servidas por prataria e louça de primeiríssima qualidade. Não entendendo por que sofriam tanto, o rabino prestou mais atenção e viu que os cotovelos deles estavam invertidos de tal forma que não podiam dobrar os braços e levar aquelas delícias à boca.

O rabino foi levado ao paraíso, de onde partiam as mais deliciosas gargalhadas e onde reinava um esfuziante clima de festa. Porém, para sua surpresa, o rabino encontrou todos sentados à mesma mesa que vira no purgatório, contendo as mesmas iguarias, tudo igual, inclusive seus cotovelos invertidos, a diferença se verificando em apenas um detalhe: cada um levava a comida à boca do outro.

Lamentavelmente, no mundo contemporâneo, alguns personagens comportam-se diferentemente de um mínimo ético exigido. São denominados de vampiros aqueles que apenas sugam, sem nada retribuir. Na literatura empresarial atual, existe até uma tipologia em contínua expansão. Os mais conhecidos são:

Vampiro não social: viciado em agitação; pouco se importando com as normas sociais, adora farra e tudo o mais que seja estimulante. Não tem muito a retribuir.

Vampiro histriônico: vive para receber atenção e aprovação. Fazer bonito sempre, tudo o mais sendo detalhes. Perito em guardar para si suas motivações. O comportamento dele se destina a enganar a si mesmo mais que aos outros.

Vampiro narcisista: de ego enorme, costuma ser pequeno em todo o resto. Nunca pensa nas outras pessoas. A quase totalidade é inculta, sem uma mínima binoculização.

Vampiro obsessivo-compulsivo: viciado em segurança. Não se alegra em magoar os outros, mas não deixará de fazer se ameaçado seu instinto controlador.

Vampiro paranóico: tem por meta saber a Verdade, banindo toda ambiguidade de sua vida. Vive de acordo com normas concretas que acredita gravadas em pedra. Está sempre alerta para os indícios de desvios dos seus ultrapassados mandamentos pétreos.

Depois das eleições, lembremo-nos do acontecido numa enfermaria de um hospital público de nomeada. Conto o caso como o caso aconteceu:

Certa feita, dois homens seriamente doentes foram internados numa mesma enfermaria de um grande hospital regional. O cômodo era bastante pequeno e nele havia apenas uma janela que dava para o exterior da edificação. Um dos pacientes tinha, como parte integrante do seu tratamento, permissão para sentar-se na cama por uma hora durante as tardes. Sua cama se situava bem próximo da tal janela. O outro paciente, contudo, por força de recomendação médica, passava todo o seu tempo deitado de barriga para cima, restando-lhe tão somente o direito de ficar olhando para o teto do compartimento.

Todas as tardes, quando o homem, cuja cama ficava perto da janela, era colocado em posição sentada, ele passava o tempo descrevendo para o companheiro o que via lá fora. Segundo ele, da janela se descortinava um lindo parque, onde havia um lago com patos e cisnes, todos eles beneficiados pelos nacos de pão atirados pelas crianças que passeavam em seus barquinhos de madeira, devidamente supervisionados pelos seus pais ou babás. Na relva, situada ao redor do lago, jovens namorados, de mãos dadas, trocavam juras de amor por entre árvores e flores, inúmeros jogos de bola se desenrolavam ao longo dos espaços destinados à prática de esportes. Ao fundo, por detrás das últimas fileiras de arbustos, avistava-se o belo contorno dos prédios da cidade, com suas antenas parabólicas revelando a chegada de um novo milênio.

O homem que estava deitado ouvia atentamente o companheiro descrever tudo isso, saboreando com avidez o que estava sendo descrito nos mínimos detalhes. Escutou atentamente sobre como uma criança quase caiu no lago e sobre como as garotas estavam bonitas em seus vestidos de verão, cabelos bem cortados, corpos bem delineados e sorrisos de alegria, irradiando felicidade por todos os poros. As descrições do narrador faziam-no sentir como se estivesse realmente observando o que acontecia lá fora, tamanha a riqueza dos detalhes recebidos.

Numa tarde de maio, no homem sempre deitado ocorreu um pensamento: por que o paciente que ficava perto da janela deveria sozinho ter todo o prazer de ver o que estava acontecendo lá fora? E por que ele não poderia ter também a chance de contemplar o que estava acontecendo no mundo exterior? Sentiu-se um tanto envergonhado pelo sentimento de inveja, mas quanto mais tentava não pensar assim, mais queria que ocorresse uma reviravolta da situação. E faria qualquer coisa para que isso acontecesse.

Numa noite, o homem da janela, subitamente, acordou sufocado. Debatendo-se desesperadamente, suas mãos procuraram inutilmente o botão que alertaria a enfermeira. Ao lado, indiferente ao drama, seu companheiro de ambiente hospitalar não moveu uma palha sequer em defesa do infeliz, mesmo quando a respiração dele parou por completo.

Pela manhã, o corpo do falecido foi levado para o necrotério, para os preparativos do sepultamento. Tão logo o defunto saiu da enfermaria, o outro perguntou se poderia ser colocado na cama perto da janela. Sendo prontamente atendido, viu-se devidamente aconchegado sob boas cobertas.

Sentindo-se só, apoiou-se sobre os cotovelos, esticando-se ao máximo para ver também o mundo do lado de fora da janela. E viu apenas um muro, igualzinho aos demais.

Principiando mortalmente a se desesperar, o novo inquilino da janela percebeu que a Vida é, sempre foi e será, aquilo que nós a tornamos. E também desencarnou-se.

2 pensou em “REFLEXÕES PÓS-ELEITORAIS

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