Mais de meia-noite, pitaqueiro com insônia conversa com ele mesmo enquanto o sono não vêm:
– E aí, não acredita mesmo em eleição?
– Política é um monte de estrume. Sei que a maioria das pessoas conseguem acreditar que um monte de estrume tem um dos lados que é limpinho e cheiroso, mas não é o meu caso.
– Mas está se falando abertamente que os eleitores estão se decidindo muito mais pela rejeição do que pelas propostas. Estão votando CONTRA alguém mais do que A FAVOR de alguém. Não é um argumento?
– Se meu bairro está cheio de assaltantes, apoiar uma das facções vai diminuir os assaltos? Ou, para usar uma comparação mais chula, se minha casa está infestada de baratas eu devo escolher um grupo de baratas e dar comida a elas acreditando que elas vão expulsar as outras e minha casa vai ficar mais limpa?
– Então todos os políticos são iguais?
– Não. Mas para mim a questão não é saber quem é melhor ou quem é pior. A questão é que mudar o político não vai mudar o sistema, e portanto não vai resolver o que eu gostaria que fosse resolvido, que é justamente o governo parar de achar que pode mandar em tudo na nossa vida. É por isso que eu não acredito em “votar no menos pior”.
– E por que tanta gente acredita nisso?
– Porque foram educados desde criancinhas para isso. O mundo sempre se dividiu entre os que preferem mandar e os que preferem obedecer. Os que preferem mandar brigam entre si por mais poder mas se unem sempre que é necessário para manter o restante das pessoas satisfeito e pacífico. Para isso se usa todo tipo de retórica e se constroem narrativas e cenários maravilhosamente sedutores e completamente fictícios.
– Você se acha mais inteligente do que essa maioria, então?
– Muito pelo contrário, eles provavelmente são mais felizes que eu. Não é questão de se achar mais ou menos inteligente. Eu simplesmente aceito que sou muito mais cético do que a maioria. Por isso, eu enxergo eleições e democracias como instrumentos para o grupo dos que mandam continuarem mandando cada vez mais.
– A democracia é considerada algo bom e desejável.
– Toda a retórica da democracia se baseia em buscar a felicidade coletiva. Eu não acredito em soluções coletivas. Acredito em responsabilidade individual: “Não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem a você” – respeitando isso, cada um pode ser feliz da maneira que quiser. Quem acredita em eleições acredita que as mesmas idéias devem ser impostas a todo mundo, e que todo mundo tem uma espécie de “obrigação moral” de gostar daquilo que a maioria gosta. O Brasil de hoje prova que isso não funciona.
– Como assim?
– As pesquisas que a imprensa divulga sem parar mostram claramente que os eleitores estão divididos em duas partes praticamente iguais. E cada membro de uma das partes acredita que quem está na outra parte é burro, alienado, mau-caráter, merecedor de todos os xingamentos. Uma sociedade onde cada metade odeia a outra metade é claramente uma sociedade que falhou. Ou, em outras palavras, uma sociedade onde as pessoas acreditam que é normal e até virtuoso ter ódio de outras pessoas é uma sociedade doente.