FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

Baseio minha caminhada terrestre, numa definição feita pelo notável cineasta italiano Roberto Rosselini: “Perceber o mal onde ele existe é, na minha opinião, uma forma de otimismo.” Considero-me um otimista não abestalhado, dotado de bom humor, que gosta muito de ler, de contar anedotas, cristão espiritista, um Gonçalves apaixonado pela família, e que gosta de escrever, inclusive cartas para afilhados que estão se iniciando nas vidas pessoal e profissional. Abaixo, explicito uma delas, enviada para uma afilhada muito estimada, hoje casada, mãe de filhos sadios, bem situada e datada.
Querida afilhada:

Apesar de todos os meus pesares e os de um mundo cada vez mais interdependente, vale a pena continuar vivendo, porque você busca eticamente existir muito além dos seus comemorados dezoito anos, para alegria dos seus pais, parentes e amigos. Sua tenacidade em persistir pelejando com dignidade por um lugar ao sol, envaidece todos os seus derredores, mormente aqueles que lhe estão mais próximos, beneficiários primeiros da sua contagiante alegria, descontroladamente fértil em algumas oportunidades. Seu propósito de bem conduzir o seu caminhar bio-profissiográfico proporciona aos seus admiradores, inclusos os mais velhos que nem eu, a convicção de vê-la otimamente inserida nos propósitos da Criação.

Recordo-me com nitidez dos primeiros instantes de quando a conhecei, acontecidos numa comemoração à beira-mar, chope à vontade, você adolescente toda de negro, de caráter e humor contagiantes. Uma luz diferente que iluminava todo o ambiente.

Reservei para este seu aniversário, querida Mirtes, algumas reflexões por mim trabalhadas nos últimos tempos, advindas de contatos vários, acontecidos depois do regime de escuro. E decodifico-as, abaixo, em respeito à sua faixa etária, biológica tão somente, com certeza. Elas poderão servir de balizamentos futuros, mesmo num contexto que se metamorfoseia com espantosa velocidade, proporcionando diferenciadas assimilações a cada inflexão.

1. Respeite-se sempre. A sua melhor amiga é a sua criticidade, consciência revestida de muita cidadania e criatividade intelectualmente nunca esmaecidas.

2. Imagine-se permanentemente sobrepairando sobre as mediocridades do cotidiano, até mesmo dos que se imaginam tampas de foguete, repletos de vaidades.

3. Desenvolva sua espiritualidade, nunca se imaginando superior a ELE, percebendo-se uma inconclusa vocacionada para o todo, d’ELE sendo também parcela, desde sempre.

4. Experimente tudo e fique com o que é melhor, mesmo que sem lenço nem documento, sobrenome, salário e saldo bancário.

5. Ame com intensidade todas as coisas, separando o joio do trigo, desprezando o julgamento dos medíocres, encapuzados e encapsulados, manifestando sua afetividade, sem imaginar-se vigiada, tampouco oprimida.

6. Veja-se sempre bonita, ainda que diante das intempéries naturais da Vida, nunca se olvidando que pouco adianta ter corpo de cadillac se a alma é de jipe.

7. Reserve momentos para seu lazer, o trabalho merecendo toda atenção em horários específicos e bem dosados.

8. Nunca enfrente seus momentos “down” sozinha, mesmo sentindo-se, momentaneamente, a última das criaturas.

9. Diferencie, sem pestanejar, tecnologia de tecnocracia, moderno de modernoso, serenidade de passividade, objetividade de descortesia, amor de casamento.
10. Viva para servir, posto que tem muita gente necessitando da sua inteligência e da sua inventividade solidária.

Cá do meu canto, Mirtes, continuarei ao seu lado, como nunca, torcendo pelas suas vitórias, pelos seus novos caminhares, pelos seus níveis afetivos conquistados. Tenho conversado muito, telepaticamente, com a sua mãe. E ela tem demonstrado um orgulho danado de você, não lhe poupando aplausos em momento algum. Para alegria de todos nós, seus orgulhosos admiradores.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *