Leandro Ruschel
A semana no Brasil foi marcada pela ebulição do escândalo Master. A revelação, pela Polícia Federal, de mensagens comprometedores no celular do dono do Banco Master envolvendo o ministro Toffoli, relator do próprio caso, produziu aquilo que parecia impossível até poucos dias atrás: o afastamento do ministro da relatoria.
Não se trata apenas de intimidade indevida com o investigado. Há relatos de recebimento de valores, reconhecidos pelo próprio ministro como parte de uma transação envolvendo um resort no Paraná. A justificativa apresentada foi técnica: ele seria apenas sócio não-administrador, enquanto familiares seriam os administradores formais. Mas as circunstâncias da operação, a estrutura societária obscura e a pressão política subsequente tornam a narrativa insustentável.
A nota do Supremo afirmando inexistência de impropriedade, ao mesmo tempo em que aceita a saída do relator, é sintoma de algo maior. Qualquer observador minimamente atento percebe que não havia condições objetivas de permanência.
Mas o ponto central não é a transação. O ponto central é o que o episódio revela.
Durante sete anos, desde a criação do chamado inquérito das fake news — um verdadeiro ato institucional moderno — consolidou-se um arranjo de poder fechado, baseado na repressão sistemática à oposição e na autoblindagem institucional. A legitimidade foi substituída pelo medo. A crítica passou a ser enquadrada como ataque à democracia.
O caso Toffoli demonstra que esse arranjo já não está totalmente coeso.
O fato de a Polícia Federal levar o conteúdo ao presidente do Supremo e a imprensa noticiar os detalhes comprometedores indica que o pacto de proteção absoluta sofreu fissuras. Há um racha interno. E isso altera completamente o cenário político.
Regimes se sustentam por legitimidade ou por repressão. Quando a Lava Jato expôs a corrupção sistêmica, a legitimidade ruiu. A resposta foi o aprofundamento da repressão, criando um regime de exceção para salvar o establishment. Agora, com a crise interna exposta, abre-se uma encruzilhada.
Há duas possibilidades:
– Ou ocorre uma reconfiguração do arranjo, com a queda de personagens centrais e a tentativa de reconstruir legitimidade;
– Ou, na ausência de legitimidade, opta-se pelo aprofundamento da repressão.
E essa é a verdadeira gravidade do momento.
A situação é mais frágil do que aparenta. Não há players claros com capacidade de conduzir uma transição organizada. Há tentativas de estabilização artificial, inclusive por parte de setores do mercado que afirmam que “não é o fim do mundo”. Mas regimes sustentados apenas por medo não se mantêm indefinidamente.
O sistema está vulnerável.
A questão é se essa vulnerabilidade abrirá espaço para reconstrução institucional ou para uma ruptura mais profunda.