DEU NO JORNAL

Guilherme Macalossi

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Antes de ser assassinado com uma picareta cravada na cabeça, Leon Trotsky foi removido de muitos registros fotográficos da Revolução Soviética. O ditador Josef Stalin, que havia vencido a disputa pelo controle do Partido Comunista, tratou de purgar seus inimigos internos de modo a consolidar o domínio político que conquistara. Além dos assassinatos, também ordenou que seus ex-camaradas fossem apagados da história. Algumas dessas adulterações são notórias, como a da imagem de Vladimir Lênin discursando em frente ao Teatro Bolshoi em 1920. No registro original, Trotsky está nos degraus de acesso ao palanque. Após o “filtro político”, ele já não aparece, apesar de se tratar da mesma foto.

A tentativa de moldar a história é um recurso de déspotas, de populistas, de impostores e de demagogos menores interessados em adaptar, inventar ou omitir fatos ocorridos para esconder o que consideram ser inconveniente. Vez ou outra, aparece alguém tentando fazer isso. Semana passada, na Folha de São Paulo, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega tratou de passar uma borracha no calendário. Ele participou da série “Pensamentos econômicos de pré-candidatos” representando o grupo de economistas que assessoram Lula. Seu texto repercutiu menos pelo que disse e mais pelo que escondeu.

Mantega fez uma longa crítica à condução de Paulo Guedes, que descreveu como um “neoliberalismo anacrônico, que não é mais praticado em nenhum país importante do mundo”. Discorreu sobre todos os anos desde que o PT chegou ao poder até 2021, com a exceção de 2015. E a razão é muito simples: foi o ano que finalmente, apesar de todos os esforços de maquiagem fiscal, se constatou o desastre incomensurável da chamada “nova matriz econômica”, urdida por Mantega, Dilma Rousseff, Arno Augustin, Nelson Barbosa e outros expoentes do lulopetismo. Naquele ano a queda do PIB foi de -3,6%. Guido Mantega já não era mais Ministro da Fazenda, mas quem poderá negar que o resultado foi fruto direto de seu trabalho? A tentativa de Gleisi Hoffmann de responsabilizar Joaquim Levy, que serviu como Ministro da Fazenda em 2015, é desonesta e hedionda.

Em 2014 o Brasil já havia crescido em um nível raquítico: 0,1%. Não era mera desaceleração, e sim sinal de que a política econômica do PT havia contratado uma crise gigantesca, que vinha sendo convenientemente adiada para depois das eleições. E ela não demorou a explodir, reverberando também em 2016, quando praticamente repetimos o tombo do ano anterior: -3,3%. Em dois anos o país retraiu 7%. Nem mesmo a pandemia de Covid-19 conseguiu ser pior.

O governo a que Guido Mantega serviu nos legou encolhimento recorde no PIB, 13 milhões de desempregados e descontrole da inflação (10,67% em 2015 e 6,29% em 2016). É puro nonsense ler um texto em que esse senhor discorre em tom crítico sobre os atuais indicadores negativos do país como se tivesse lições a dar. Há em curso uma tentativa de reabilita-lo como formulador econômico brilhante, e isso envolve falsificar o passado. O período entre 2015 e 2016 serve para lembrar o que essa gente fez quando esteve no poder. O lulopetismo, entretanto, quer fazer desse período o Trotsky na escadaria de nosso calendário histórico.

1 pensou em “QUEREM APAGAR A RUÍNA ECONÔMICA

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