Jober Rocha
Há momentos na história de um país em que o abismo deixa de ser apenas uma metáfora – torna-se uma esquina. O Brasil, hoje, parece estar parado bem nela, entre o precipício e o empurrão que pode significar a queda ou, quem sabe, o salto necessário para não se deixar engolir pela própria paralisia.
A economia, antes celebrada como o motor da nossa promessa de grandeza, patina. O que era “o país do futuro” tornou-se o país da dívida impagável, da carga tributária obscena, do desemprego velado sob a forma de subempregos humilhantes. Enquanto o Estado engole mais da metade do que se produz, oferece cada vez menos em contrapartida: escolas precárias, hospitais em ruínas, estradas que se dissolvem sob a primeira chuva forte.
As Forças Armadas, que deveriam simbolizar a soberania e a dissuasão, sobrevivem com sucatas. Blindados que não blindam, aviões que não voam, marinheiros em navios que não navegam. Uma obsolescência que, na prática, faz do Brasil um gigante de papel, incapaz de proteger suas próprias fronteiras, seu território marítimo, suas riquezas estratégicas.
O INSS, que deveria garantir dignidade a quem trabalhou a vida inteira, agoniza. As filas são intermináveis, os processos emperram, enquanto escândalos se acumulam: pensões desviadas, benefícios saqueados por quadrilhas que operam sob as barbas de uma burocracia indiferente. Para o aposentado, resta a humilhação de ter descontado por décadas e, ao final, mendigar por migalhas.
A Constituição, por sua vez, virou um monumento de palavras bonitas – muitas delas mortas, abandonadas. É rasgada pela censura institucionalizada: um Supremo Tribunal Federal que, outrora guardião das liberdades, agora redefine o que pode ser dito, pensado ou publicado, transformando discordância em crime. O Estado, que deveria ser laico e democrático, flerta com regimes autoritários mundo afora, bajula ditaduras de esquerda, silencia sobre prisões políticas, enquanto posa de paladino dos direitos humanos em discursos internacionais.
O agronegócio, que ainda sustenta o PIB, paga as contas, gera empregos e alimenta o mundo, virou alvo de cerco. Invasões de terras, destruição de pesquisa genética, bloqueio de estradas, tudo sob o olhar complacente de um governo que incentiva movimentos que, na prática, buscam minar o setor mais eficiente da economia nacional. É como serrar o único galho em que ainda estamos sentados.
Diante desse quadro quase apocalíptico, fica a pergunta inevitável: Quem dará o empurrão que falta? Quem despertará uma nação que assiste, anestesiada, à própria implosão? Quem redescobrirá o valor da República, a força de uma democracia real, não de fachada, a urgência de uma liderança que não seja cúmplice dos saqueadores?
Certamente, não se trata de messianismo. O salvador da pátria não existe, ou, quando surge, costuma piorar a tragédia. O empurrão que falta dificilmente virá de dentro do sistema político apodrecido, tão viciado em suas chantagens, cargos e negociatas. Também não surgirá de uma elite econômica acuada, que prefere emigrar o capital em silêncio a enfrentar o monstro que ajudou a criar.
O empurrão, se vier, nascerá de múltiplas frentes: da sociedade civil que ainda resiste, de movimentos suprapartidários que ousem exigir respeito à Constituição, da classe média que finalmente entenda que a omissão custa mais caro do que qualquer imposto. Das redes produtivas, do agro que se organiza para se defender com inteligência, da indústria que se recusa a ser engolida pela burocracia. E, por que não, das Forças Armadas que, mesmo sucateadas, ainda são depositárias de um simbolismo de ordem que o povo, no fundo, não quer perder.
Não se trata de golpe – ninguém quer tanques nas ruas, mas também não se tolera a tirania disfarçada de “defesa da democracia”. Quer-se uma força que lembre aos governantes que seu poder não é absoluto, que há limites constitucionais, que há uma nação inteira acima de suas ambições. O empurrão que falta, no fim das contas, é o mais difícil de todos: o da consciência coletiva. A de que o país só irá se redemocratizar, de fato, quando cada cidadão entender que democracia não é apertar um botão na urna de quatro em quatro anos, mas fiscalizar, exigir, questionar, boicotar o que destrói e apoiar o que constrói.
Que surjam novos líderes progressistas, não no sentido de slogans vazios, mas progressistas de verdade: que avancem a educação, que modernizem a economia, que defendam a liberdade de expressão, respeitem o setor produtivo, preservem o ambiente sem destruir quem planta. E que estes líderes não se esqueçam de onde vieram: de bairros sem saneamento, de famílias saqueadas pela inflação, de aposentados humilhados, de jovens sem perspectiva de futuro.
É desse barro, e não das poltronas estofadas de Brasília, que nascerá o empurrão que falta. Se é que ainda há tempo.
Seja como for, a grandiosa revolução humana de uma única pessoa irá um dia impulsionar a mudança total do destino de um país e, além disso, será capaz de transformar o destino de toda a humanidade.
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