MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

Eram umas sete da manhã quando pus água no fogo para fazer meu café matinal. Ao abrir a janela da cozinha, deparei-me com meu gato tomando banho de sol, em uma pose esquisita, daquelas que só os gatos conseguem fazer.

Aliás, ao dizer “meu gato”, cometo uma imprecisão. Evangivaldo não é meu, nem de ninguém. É completamente livre e apenas escolheu nossa casa como ponto de apoio.

Suas primeiras aparições por aqui têm entre cinco e seis anos. Chegava de mansinho, atrás de alguma sobra de comida ou de filhotes de pássaros nas árvores do jardim. Desde que o Max, nosso shihtzu, virou estrelinha, há pouco mais de um ano, Evangivaldo ficou mais à vontade. Cochila nas cadeiras da varanda, toma sol deitado na grama e até se aproxima da porta da cozinha quando os sons da casa anunciam o jantar.

Mas nunca entra. Também não permite que nenhum de nós se aproxime dele a menos de três metros. Talvez guarde alguma lembrança não muito agradável de humanos que chegaram perto demais.

Vivemos assim, sob um acordo não escrito. Ele aceita nossa comida e nosso abrigo, mas não abre mão do próprio espaço.

Ontem, no fim da tarde, abrigou-se sob um guarda-chuva aberto na varanda. Pareceu-me a síntese do pacto: proteção, sim; clausura, jamais.

E nós? Recebemos alguma compensação por acolher Evangivaldo?

Sem dúvida. Ele nos ensina que é possível conviver sem renunciar à independência, sobretudo quando ela foi conquistada a duras penas. De quebra, ainda nos lembra, de vez em quando, o valor de um bom alongamento e do sol da manhã.

Mas, enquanto escrevo essas linhas, questiono-me se a pergunta sobre acolhimento e recompensa não estaria mal formulada. Talvez seja um equívoco supor que nós o acolhemos. Bem pode ser o contrário: é ele quem nos acolhe, ao conceder à nossa casa e à nossa família, o privilégio da sua presença.

Afinal, é ele quem escolhe quando vir, quanto demorar e quando ir. Sabemos que Evangivaldo não é nosso gato, mas talvez ele nos considere seus humanos.

E, pensando bem, há relações humanas nas quais faríamos bem em aplicar a regra dos três metros.

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