JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Cajueiro “carregado” de cajus

A Natureza é pródiga. É algo divino, e, felizmente, nada tem a ver com a vontade dos homens. Assim, quando termina o inverno e se inicia a primavera, em meados de agosto e setembro, no sertão, na caatinga ou em qualquer parte do planeta, tem início a floração dos cajueiros. A árvore que, às vezes, por mais de um mês frutifica com a castanha e o caju. No Ceará, nunca atrasa. Ainda que não aconteça o inverno.

Durante anos, criança ainda, imaginava que o fruto do cajueiro era o caju. Depois, com os avós e pessoas mais antigas, fui cientificado que, o fruto do cajueiro não é o caju. É a castanha. Prova disso é que, se alguém semear um caju, o cajueiro nunca vai nascer. Mas, em local adequado, plante a castanha e o resultado virá.

Início da torração da castanha

A castanha tem início na fase embrionária. No Ceará, rotulamos esse embrião com o nome de “maturi”, que provavelmente tem origem indígena. O “maturi” nada mais é que a castanha verde, repito, em fase embrionária.

Durante dias, o “maturi” se desenvolve e dá sustentação ao caju, com várias espécies e coloração (amarela, róseo ou vermelha).

De forma artesanal, castanha e caju servem de alimento, muito rico em Vitamina C – nos anos da década de 50, um empreendedor desenvolveu a Fazenda Jandaia que, no Ceará, criou o suco de caju (da polpa) e “descobriu” mais uma utilidade do fruto e da polpa. Antes disso, indígenas já usavam o conjunto como fonte alimentícia. Uma mistura do suco, de forma não industrializada, com a castanha assada. A essa mistura deram o nome de “mocororó”. Durante anos, no período da safra de cajus e castanhas, o “mocororó” funcionou como único alimento de muitos.

Castanha assada sendo descascada

Floração iniciada, “maturis” desenvolvidos, cajus maduros e, claro, castanhas secas.

Mas, percebia-se a ausência de um dos componentes daqueles momentos especiais: a criançada. As férias escolares estavam distantes, e, 7 de setembro, Dia de Finados e 15 de novembro não tinham os “feriadões” criados, como atualmente, num país que precisava se desenvolver. A solução dos pais e/ou avós, era juntar as castanhas para assá-las nas férias escolares das crianças.

Finalmente chegava o mês de dezembro. Com ele, as férias escolares. A safra anual dos cajus terminara, mas as castanhas, os verdadeiros frutos do cajueiro foram juntadas para a festa da chegada.

Alguns, nas sombras das árvores, improvisavam o jogo do “quila” ou do “castelo” – a uma distância regulamentada era colocada isoladamente uma castanha pequena, de onde os jogadores tentavam acertá-la e derrubá-la. O prêmio: o amontoado de castanhas que se formava ao redor do alvo.

Afastado dali, algum adulto continuava assando as castanhas.

Quem nunca comeu, procure comer peixe salgado (no Maranhão, dá-se o nome de “peixe salpresado”) temperado com castanha de caju assada e socada no pilão.

Uma festa que justificava a fala de minha Avó: “Quando você ia para os cajus, eu já vinha com as castanhas”, assadas e descascadas.

Castanhas de caju assadas e descascadas

2 pensou em ““QUANDO TU IAS PARA OS CAJUS, EU JÁ VINHA COM AS CASTANHAS”: RAIMUNDA BURETAMA

  1. Oh meu irmão, fiz muito em minha juventude, andava por debaixo dos cajueiros atrás dos frutos caídos para aproveitar às castanhas. Saudades!!!

  2. Luiz; QUEM FOI MENINO ou jovem que passou dias na roça, entendeu bem o que escrevi. Quebrar a castanha assada….. tinha coisa melhor? Tinha naaaada!

Deixe um comentário para José de Oliveira Ramos Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *