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Guilherme Fiuza

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Desfile da escola Acadêmicos de Niterói no carnaval do Rio de Janeiro, homenageando Lula

Os desfiles de carnaval são livres para criticar ou homenagear quem quiserem. Em relação a figuras políticas, e mais especificamente a mandatários, é claro que a abordagem elogiosa agrega um componente de constrangimento. O povo sente o cheiro da bajulação ao poderoso — e não gosta. Mesmo assim, ainda se pode dizer que é parte da democracia. E da folia.

Os aspectos do uso de verba pública e da propaganda política não permitida têm que ser observados. Se as autoridades entendem que essas regras não estão sendo infringidas, ainda que haja polêmica, é do jogo. Sempre se poderá continuar argumentando sobre o teor correto ou não das decisões sobre essas matérias. E eventuais equívocos poderão ser apontados no futuro — ainda que, no presente, possa se materializar uma injustiça.

O problema não é o futuro. É o passado. As sociedades são mais ou menos evoluídas também de acordo com a relação que estabelecem com o seu passado. E apagar as diferenças entre as glórias e as tragédias pode não fazer bem a uma nação.

Glorificar uma figura histórica e seus feitos pode ser bom. E se houver malfeitos? Entram também no desfile? Fica a dúvida.

Aliás, havendo dúvida, os autores da homenagem poderiam pelo menos colocar, entre alas e alegorias, alguns pontos de interrogação. Por exemplo: se irregularidades foram consideradas nulas por questões processuais, mas os fatos desabonadores em si não tiverem sido negados, poderiam entrar no desfile com um adereço de reticências.

Numa hipótese em que o homenageado e integrantes do seu grupo político tivessem estado em triangulações com empresas públicas e empreiteiras, ainda que os processos tivessem sido anulados, caberia alguma menção no enredo. Talvez um carro alegórico imitando uma refinaria e alguns artistas amigos do rei desfilando de olhos vendados — para simbolizar o passado obscurecido.

Ou, se algum familiar do grande herói estivesse frequentando investigações sobre algum escândalo milionário, envolvendo parceiros políticos habituais do clã, o carnavalesco poderia inserir na escola também algum elemento sutil — só para não acharem que faltou verba para completar o desfile. Nesse caso, entre os estandartes de interrogação e reticências, poderia entrar uma ala de velhinhos humildes, com aliados do poder apalpando seus bolsos — numa coreografia tradicional desse tipo de enredo.

Fica a sugestão para futuras homenagens históricas. Até para que todos os artistas, jornalistas, políticos e figuras da elite em geral, envolvidas na homenagem, não venham a ter nenhum constrangimento futuro por haverem sambado na cara do povo com um enredo incompleto.

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