MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Não há quem não fique contente com um privilégio. Pagamos impostos altíssimos, recebemos de volta serviços públicos péssimos, arriscamos a vida cada vez que saímos de casa. Mas todo mundo, do mais rico ao mais pobre, tem um privilégio para chamar de seu.

Os ricos gozam de empréstimos subsidiados do BNDES, reserva de mercado garantida para suas empresas, um judiciário manipulável para ajudar a resolver os seus problemas. Quem é pobre, por outro lado, tem o direito de viver às custas do bolsa família e de não pagar água, luz ou IPTU porque mora em uma “comunidade”. Quem paga pelos privilégios dos dois é a classe média, mas essa também ganha uns benefícios para esquecer que está sendo espoliada. No fim das contas, a soma de tudo resulta sempre negativa. Todos sairiam ganhando se o país se tornasse mais sério, mas ninguém admite perder as vantagens e todos fingem não ver os custos.

Um exemplo rápido: o Brasil é o único país do mundo civilizado que proíbe carros movidos à diesel. A ironia é que nós os fabricamos, mas só para exportar para nossos vizinhos. Por aqui, os mais pobres são obrigados a usar gasolina, que rende menos e custa mais. Usar diesel fica para os que têm dinheiro para andar de Amarok, Hilux, Pajero, para não falar dos SUV´s da Porsche, Jaguar, Lamborghini, Audi e outros que o cidadão comum nem sabe o nome. E além de poder usar o combustível melhor e mais barato, ainda ganham um subsídio no IPVA, porque não seria justo um BMW ou Mercedes pagar a mesma alíquota de um Fiat ou Volkswagen (no meu estado, pick-ups de luxo e suvs pagam 1,5%, enquanto um Gol paga 3,5% – mais que o dobro).

No passado, havia a desculpa de que no refino de petróleo faltava diesel e sobrava gasolina, que era exportada a preço baixo. Essa desculpa já não existe. Hoje, importamos tanto um quanto outro, a preços parecidos (0,72 dólares o diesel, 0,68 dólares a gasolina). Se a proporção de consumo mudar, basta importar menos de um e mais do outro. Com o detalhe que, no final, todo mundo leva vantagem. Um carro médio que faz 8 ou 9 km/litro com gasolina passa dos 15 com diesel. O dono do carro gasta menos, o país gasta menos divisas importando, e menos dióxido de carbono é jogado na atmosfera.

Só que isso não acontece. Ao invés disso, nosso ministro fala coisas como “Mas sobre a gasolina, afinal de contas, se estamos em transição para uma economia verde, se estamos em transição para a OCDE, para uma economia digital, será que deveríamos subsidiar a gasolina?”, enquanto o brasileiro fica se perguntando o que o Celta dele tem a ver com economia digital ou com a OCDE. O fato é que mudam os governos, mas as distorções só aumentam, e o pobre dono do Celta vai ver o diesel que abastece o Range Rover do vizinho ser ainda mais subsidiado pela gasolina que ele é obrigado a usar. Citando novamente o ministro: “Quando se fala em redução de imposto federal [..] é justamente para reduzir a incidência de impostos sobre os mais frágeis.”

“Frágeis”. Morro de pena dos “frágeis” brasileiros que gastam trezentos ou quatrocentos mil reais em uma “cabine-dupla” com IPI e IPVA reduzido e diesel subsidiado pelos mais pobres.

Peço perdão por ser repetitivo e encerrar com a mesma frase da semana passada, mas será que mais uma vez todo o resto do mundo está errado e só nós estamos certos?

6 pensou em “PRIVILÉGIOS

  1. Tenho abordado este tema repetidamente: tenho parentes em Portugal e na Grã Bretanha e por lá todo carro é a diesel.
    Outro ponto que abordo sempre, é o do IPVA que é cobrado sobre o valor do veículo e tem prazo de validade.
    Trocando em miúdos: você compra um automóvel mais moderno, mais econômico, mais seguro e menos poluente e paga um imposto elevado; seu vizinho tem Opala 95, gastador e poluidor e paga zero do imposto.
    Em Portugal, por exemplo o “IPVA” está dentro do preço do combustível: não usa as estradas, não consome combustível, não paga tributo. Tem um carro gastador, paga mais. Usa muito as rodovias, paga mais. Finalmente, independentemente da idade do veículo, paga o tributo.

    • Pois é, Osnaldo. Sempre achei esquisita essa coisa de IPVA. O sujeito que roda o dia inteiro e o que só sai de casa uma vez por semana pagam a mesma coisa. Parece que por aaqui existe uma rejeição enorme à idéia do “cada um paga o seu”. As coisas sempre são pagas por quem não têm nada a ver com o assunto.

      Nos EUA, pelo que sei, também não existe IPVA nem pedágio. Todo o dinheiro para conservação das rodovias vem da venda de combustível.

      • Verdade. Trabalhei três anos nos EUA e tinha um Honda Civic da empresa à minha disposição.
        Anualmente você recebe pelo correio a plaqueta do licenciamento anual e paga um valor bem baixo pela renovação.
        À época havia uma divisão política sobre a Rodovia 836, de muito tráfego. Uma proposta era construir um elevado sobre ela e outra de aumentar o número de faixas.
        Como lá é sério, têm que dizer a fonte do dinheiro, era exatamente o que você está dizendo: aumentar a taxação sobre o combustível em x centavos de dólar.

  2. Bom dia, vizinha. Pelo que dizem meus amigos que gostam de passear de mochila pela Serra da Graciosa, uma luz no fim do túnel geralmente é uma locomotiva da ex-RFFSA (agora Rumo) vindo em nossa direção.

  3. Bertoluci,

    Brilhante como quase sempre (ninguém é perfeito, pois).

    Tudo muito bom, tudo muito bem… Só engasguei com o trecho que diz: Quem paga pelos privilégios dos dois é a classe média, mas essa também ganha uns benefícios para esquecer que está sendo espoliada.

    Parei, pensei, repensei e novamente fiz um “flashback” em busca dos “uns benefícios” que Sancho (da classe média) teria recebido durante sua vida. Como sou branco, nano-empresário cocoleiro/bananeiro, hétero, anti-vermelhos, católico, conservador e demais palavrões que usam contra gente de minha laia, não me vi enquadrado em nenhum benefício.

    Peço encarecidamente ao cronista “econômico” e brilhante desta escrota gazeta que me dê alguma luz para eu saber em qual quesito tenho algum benefício vindo de algo ou de algum governante nos âmbitos federal, estadual e/ou municipal.

    Desde já agradeço a colaboração para eu poder agradecer ao ENTE que está a me ajudar nesta jornada terrena, pois só tenho encontrado “drummonds” a me colocar gigantescas pedras no caminho.

    Abraçação sanchiano.

  4. Primeiro exemplo que me vêm na cabeça: ao menos na minha cidade, o asfalto dos bairros de classe média é melhor, enquanto os pobres têm só uma camadinha de piche jogada em cima da terra, quando têm. Para manter essa separação, as prefeituras fazem planejamentos bastante meticulosos nas regras de construção para garantir que seja inviável para um pobre morar nos bairros da classe média – assim como é inviável para a classe média morar nos bairros dos ricos.

    Mas claro que a classe média é sempre a que mais perde, você e eu, como integrantes dessa classe, sabemos bem disso.

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