O cancelamento do debate entre os candidatos à presidência, promovido pela Rede Globo, escancarou um cenário que há muito tem sido alertado dos seus riscos: a intromissão do aintensidade. O judiciário, simplesmente, manda. Mas, manda apenas naquilo que interessa aos seus interesses.
Que o presidente não quisesse participar do debate, é problema e estratégia dele e dos dirigentes do seu partido e de sua campanha. Agora, a Globo receber uma notificação do Tribunal Superior Eleitoral proibindo apresentar o púlpito vazio e proibindo dos demais candidatos formularem perguntas para o candidato ausente, é uma medida arbitrária e sem qualquer aplicabilidade num regime que se diz democrático.
Regras assinadas previamente por todos os representantes dos partidos foram desrespeitadas a pedido da coligação que tem o PT. Como se não bastasse a sandice da ministra do TSE, Gilmar Mendes autorizou, a pedido de Paulinho da Força, a participação de Renan Santos. Qual o problema? O problema é que a lei define que somente candidatos com, pelo menos 5 deputados, podem participar de debates e o partido de Renan Santos tem apenas 1 deputado.
Apesar desses fatos absurdos, os simpatizantes do atual presidente, foram às redes sociais alardear que “Flávio também desistiu”. Usar isso como argumento é minimizar o problema. Não se trata de quem irá participar ou não, mas de medidas tomadas por ministros que violam dispositivos legais. A ideia que passa sobre tais desmandos é que a lei pode ser violada por ministros, mas quando um cidadão comum comete uma infração, as penas da lei se transformam em espadas cortantes e afiadas.
Causou-me surpresa como isso foi noticiado pela Globo. Primeiro a cara de Cesar Tralli dando a notícia de forma indignada e lembrando as regras do debate, a legislação vigente e a insegurança jurídica que se formou na emissora. A Globo que sempre foi simpatizante ao governo atua. Que teve Bonner dizendo na entrevista a Lula em 2022 chegou a dizer “o sr. não deve nada à justiça”, que teve repórteres que se converteram em militantes, não criticando nenhum abuso praticado pelo governo ou pelo próprio judiciário. Após a divulgação da conversa de Vorcaro feita pela repórter Malu Gaspar, parece que abriram os olhos para tudo que o STF vem fazendo. Até para o Glenn Greenwald, o STF é uma ameaça à democracia brasileira.
O risco Brasil não termina com o mandato do presidente, mas se perpetua pelo tempo no qual os ministros indicados permanecerão no STF. Quatro ou cinco novos ministros estão tomando decisões sobre as nossas vidas, decidindo o que devemos ou não publicar, ler, expressar. Não custa lembrar que Alexandre de Morais será o novo presidente do STF e que este mesmo STE que fez a Globo cancelar o debate é o mesmo que proibiu Deltan Dallagnol de fazer campanha no Paraná.
Esse caso se configura como outra aberração. Primeiro a cassação de Dallagnol relatada por Benedito Gonçalves foi uma missa dada – como ele próprio disse – para atender a sede de vingança de Lula. Deltan não tinha processo administrativo que o impedisse de se candidatar a qualquer cargo, mas a Benedito entendeu que ele poderia ter um processo e por isso estava saindo do ministério público. São os ajustes na lei feitos apenas para atender demandas particulares, muito particulares.
Eu não tenho mais esperança nesse país. Não consigo entender como esse nordeste sofrido continua elegendo pessoas que lhe mantém na miséria, – Luiz Gonzaga na música Vozes da Seca, cantava: “dar esmola a um homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão” – e apesar disso, o nordestino continua recebendo esmolas para colocar no poder pessoas sem escrúpulos. O que eu espero é que tudo não comece a se acabar com a abertura das urnas. Que a gente consiga ter Daniela Marques cuidando da nossa economia.