CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O “Douglas” aguardando embarque do TAP. Recife, janeiro de 1953

Quando aos 12 anos pisei num palco pela primeira vez, na Escola Dom Bosco, no Recife, jamais imaginei que três anos mais tarde eu embarcaria por via aérea para uma excursão ao Rio de Janeiro, com o TAP – Teatro de Amadores de Pernambuco.

Na escola, bem menino ainda, fui o anão “Dengoso” na peça “Branca de Neve e os Sete Anões”. Quando, porém, papai começou a organizar shows do chamado teatro de revista num palco improvisado no Atlético Clube de Amadores, fiz par com Zayra Pimentel no musical: “A Dança das Palmeiras”, criado pelo clarinetista Jair Pimentel com textos de Arthur Santos.

A escola de teatro do Atlético se desenvolveu a partir de abril de 1951 e encenou peças importantes, a segunda delas: “As Árvores”, do teatrólogo catendense Aristóteles Soares. Os cronistas especializados: Isaac Gondim Filho e Jaime Souto aplaudiram o trabalho, publicando elogiosos comentários no Jornal do Commercio e Diário de Pernambuco.

Numa dessas exibições, estando na plateia, Dr. Valdemar e Oliveira apreciou o tema e propôs levar um dos atores do GTA – Grupo Teatral de Amadores, para encená-la no Teatro Santa Isabel, com a equipe do TAP. Fui o escolhido. A peça foi reescrita e rebatizada com título de “Sangue Velho”, recebeu cenografia do pintor Mário Nunes e durante quatro semanas lotou o Teatro Santa Isabel.

Dr. Valdemar de Oliveira acertou com meus pais que todas as noites me levaria após os ensaios. Combinaram que se o TAP tivesse que excursionar ao Rio de Janeiro ele me levaria na equipe.

Nessa fase embora menino de 15 anos, enfrentei o histórico palco do Santa Isabel dirigido por Ziembinsky. Foram várias récitas. “Sangue Velho” fez tanto sucesso que acabou escalada para a excursão ao Rio de Janeiro.

Em princípios de janeiro de 1953 os técnicos Alceu Domingues Esteves e Aluísio Pereira foram despachados para a missão das montagem e voaram com os cenários das peças: “A Casa de Bernarda Alba”, “Esquina Perigosa”, “A Primeira Legião”, “Arsênico e Alfazema” e “Sangue Velho”.

Uma curiosidade: Alceu tinha a responsabilidade de continuar fazendo chover e trovejar no palco do Teatro Regina, do Rio, como o fizera várias vezes no Santa Isabel. Com uma folha de zinco que era balançada bem depressa ele imitava o trovão, e através de uma bomba d’água provocava chuva real, o que alucinava os espectadores quando a água desaparecia num esgoto instalado no palco. Uma coisa inédita para aquele tempo.

Homem de Imprensa, cronista diário, Dr. Valdemar soube atrair muitas pessoas para o Aeroporto Internacional do Ibura, no Recife, a fim de assistir à partida da equipe, que contava com mais de 20 atores do TAP. Embaixo do “Curtiss Commando” da Aerovias Brasil, um potente bimotor, tiramos uma fotografia e embarcamos.

Meu grande alumbramento seria voar. Recebi os abraços de meus pais, ficando eles, entretanto, com a preocupação de minha ida ao Rio para passar quinze dias sem o acompanhamento paterno.

Ao me acomodar perto da janelinha, a primeira coisa estranha: a poltrona, que como as demais, eram muito inclinadas. Naquela época a bequilha dos aviões era traseira, deixando a aeronave com o nariz para cima.

O “Douglas” estava cheio de artistas de teatro porque era um vôo fretado:: Adelmar de Oliveira, Alderico Costa, Alredo de Oliveira, Antônio Brito, Ceci Cantinho Lobo, Cremilda Ebla, Dinorá Rosa Borges de Oliveira (Diná), Edissa Bankovsky, Francisca Campelo de Oliveira, Maria Eugênia Sá Rosa Borges, Janice Cantinho Lobo, José Maria Marques, Margarida Cardoso, Maria do Carmo Costa Xavier, Otávio da Rosa Borges, Paulo Marcondes, Reinaldo Rosa Borges de Oliveira, Tereza Farias Guye, Vicentina Freitas do Amaral, Valter de Oliveira, Valdemar de Oliveira, Carlos Eduardo Carvalho dos Santos e Clóvis de Almeida.

Recebemos algodão para colocar nos ouvidos, a fim de diminuir o ruído dos motores, que ainda eram à explosão. Voaríamos abaixo das nuvens e em poucos momentos, entre elas, o que nos permitia ver a geografia dos lugares por onde voávamos. O “Douglas” foi saindo do chão e logo passamos a sobrevoar o mar de Piedade e depois fomos na reta de Alagoas.

Outro alumbramento: o pouso em Salvador para reabastecimento e almoço. O chão se aproximando e eu grudado na janela para não perder um lance. Um pequeno sopapo dos pneus do “Curtiss Comando” no solo, o taxiamento e a parada dos dois motores. Descemos a escadinha e logo aos primeiros momentos um flash. Só a partir daquele instante me senti artista de fato. Estávamos diante dos jornalistas. Passamos a ser gente importante.
Apresentações, abraços, novos amigos. A Bahia em peso para saudar o TAP. Uma enorme mesa com as bandeiras do Brasil e da Aerovias nos esperava. Um banquete. A primeira festa de glorificação da equipe do teatro pernambucano, que foi recebida por representantes do governo da Bahia, membros da classe teatral e a Imprensa.

Um sacrista de um garçom me ofereceu sopa e indagou-me se seria “quente” ou “fria”. Claro que preferi “quente”. Mas quando dei a primeira colherada logo percebi que havia caído numa “pegadinha”. Era pimenta só. Adelmar mandou trocar o prato e repreendeu o garçom. Ainda vi risos discretos. Meu primeiro contato com a Bahia foi apimentado!

Novamente no avião. Teríamos mais duas horas próximos das nuvens. Quando começamos a sobrevoar o interior do Rio de Janeiro, exatamente em cima de Campos dos Goitacazes, comecei a ver uns quadros verdes lá embaixo e fui perguntar ao Dr. Valdemar. Ele me explicou bem direitinho que eram campos cultivados e indicou, pelos nomes, alguns acidentes geográficos: rios, lagos e restingas. Uma aula.

O bravo bimotor chega, enfim, ao sobrevoo pela Baia de Guanabara e vai perdendo altura descendo em pleno mar – aquela situação estranha – até alcançar a pista do Aeroporto Santos Dumont. Muita emoção para quem voava pela primeira vez!

No saguão, muita gente partindo e chegando, pois vários aviões haviam descido e subiriam logo mais. Na pista vi um “Super Constelation” da Varig. Uma observação da criança que eu era: quatro motores! Pra que tantos, se nós chegamos até aqui com dois?

O Administrador do Grande Hotel OK, onde o grupo se hospedaria, se apresenta e anuncia que há vários carros de aluguel à nossa disposição. A partir daí me deslumbrei para sempre com o Rio de Janeiro, então Capital da República.

“Sangue Velho” no Teatro Regina: Valter, Carlos Eduardo e Reinaldo

O resto fica para o próximo ato.

2 pensou em “PERNAMBUCO EXPORTA VALORES

  1. Viajei na sua viagem. E que viagem! Na parte teatral a emoção de representar Pernambuco como descreve foi enorme e importantíssima para sua vida e demais colegas de palco. Tano é que permanece viva até hoje com você. Já a emoção de voar, pela primeira vez, deve relembrar até hoje os “vácuos” normais nos aviões da década de 50, quando os “saquinhos” para vômitos era imprescindível. Para mim, você experimentou a emoção que nos é mais positiva. A alegria, poia a alegria está diretamente associada ao prazer e à felicidade.

  2. Caro Deco,

    Você, novamente, empolga os que escrevem porque se manifesta.

    Fico lisonjeado por saber que lhe agradou as memórias que também guarda de momentos outros, bem vividos e bem guardados, só despertados quando lê alguma coisa parecida.

    Historiografar é mergulhar em mundos submersos, nossos e dos leitores. É acima de tudo, vasculhar fatos que devem voltar à tona para que as novas gerações possam conhecê-los.

    Acima e mais nada, é comprovar o que me disse Fernando de Castro Lobo, pai do nosso magnífico cantor e compositor Edu lobo:

    “Recordar não é querer que o tempo volte, mas avaliar as horas de ontem com o tempo de hoje e achar graça no contraste das comparações”.

    Mais uma vez grato por seus comentários e desejando-lhe um Feliz Final de Semana,

    Carlos Eduardo

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