Aqui em Curitiba existe o hábito de perguntar às pessoas “O que você é?”. E nenhum curitibano responde “sou curitibano”. Está subentendido que a pergunta refere-se aos ancestrais da pessoa; assim a resposta pode ser alemão, italiano, português, libanês, ucraíno, polaco, japonês, russo, ou qualquer outra descendência. Eu, por exemplo, respondo que sou metade italiano e metade ucraíno, já que meu pai nasceu na serra gaúcha e é 100% descendente de imigrantes italianos, e minha mãe, curitibana, é neta de imigrantes ucraínos. Aliás, ela é a única da família que casou com alguém de etnia diferente, porque as duas irmãs dela casaram com ucraínos. Com a família do meu pai lá no Rio Grande do Sul, eu me criei no meio de ucraínos, ouvindo minha avó me chamar de malenkyy e kotunyo.
Se eu postasse o parágrafo acima em uma rede social, em questão de minutos apareceria alguém, provavelmente aqui de Curitiba mesmo, dizendo que eu não devo usar a palavra “ucraíno”, que é pejorativa, mas sim “ucraniano”. É uma idéia bastante difundida, mas é uma grande bobagem.
O gentílico de quem é da Ucrânia sempre foi “ucraíno”. É a palavra usada em Portugal e também é o termo usado em espanhol, só que sem o acento. Na língua de lá, “eu sou ucraíno” é Я українець, que se transcreve como “Ya ukrayinets” e se lê mais ou menos como “ya ucraíne”, com o ts final quase mudo.
“Ucraniano”, por outro lado, é o que os gramáticos chamam de galicismo: é uma imitação do francês ukrainien, que antigamente era usado por quem queria parecer chique. Aliás, ocorre o mesmo com os vizinhos polacos: hoje em dia se diz que “polaco” é feio e que o certo é “polonês”, outro galicismo.
E a história do “pejorativo”, de onde veio? Veio de uma moda dos tempos modernos que poderíamos chamar de “coitadismo”, misturada com o velho costume do ser humano de querer mandar nos outros. Hoje em dia não pega bem fazer isso pela força; ao invés disso, usa-se uma mistura de culpa e vaidade, proclamando que determinadas idéias, costumes ou palavras são “erradas” e condenáveis, enquanto outras são “corretas” e devem ser incentivadas. Em um mundo carente de auto-estima, essas diretrizes são obedecidas com alegria por quem precisa alimentar o ego. Daí favela vira comunidade, deficiente vira pessoa portadora de necessidades especiais e cachorro vira-lata vira cão comunitário.
Nessa linha, alguém resolveu achar que “ucraíno” e “polaco” não devem ser usados porque supostamente eram usados por pessoas que menosprezavam imigrantes, e quem adota essa linha de raciocínio acha que resolve-se um problema mudando o seu nome.
Sim, é verdade que imigrantes sempre foram maltratados por determinadas camadas da sociedade, tanto aqui como no resto do mundo. E nesse caso específico, até mesmo entre os dois grupos citados: quem acha que existe uma grande rivalidade entre corinthianos e palmeirenses é porque nunca viu um ucraíno e um polaco juntos. E também podemos notar que esse preconceito se estende a todos os imigrantes, e que palavras como “italiano”, “alemão” e “português” já foram usadas pejorativamente da mesma forma. Se ninguém na internet as declarou “proibidas”, talvez seja só porque não acharam um galicismo para colocar no lugar.
Rivalidades e maledicências à parte, nunca conheci um ucraíno que reclamasse de ser chamado de ucraíno. Estavam muito ocupados com coisas mais importantes, como trabalhar. E seu exemplo deveria ser seguido pelos frequentadores de redes sociais que parecem não ter nada melhor para fazer do que ficar reclamando daquilo que os outros falam, pensam ou fazem.
Caríssimo Marcelo.
Seu artigo empolga e ensina.
É página magistral e até muito além, porque é didática.
Há tempo, em nosso jornal, publiquei crônica sobre Ucranianos Brasileiros, referindo-me à contribuição de algumas famílias da terra dos seus antecedentes, no desenvolvimento cultural, industrial e científico do Brasil, realçando apenas dois membros que cheguei a conhecer durante reunião fortúita no Rio de Janeiro: o médico e teatrólogo Dr. Pedro Bloch e seu irmão, Adolfo, criador da rede Manchete de Televisão.
Vou pesquisar para ver se lhe mando, daqui há mais alguns dias, e vou retransmitir seu magnífico escrito para os meus 52 Correspondentes do zap.
Cordialmente,
Carlos Eduardo Carvalho dos Santos
Parabéns! Excelente artigo!
Obrigado, Sonia.
Marcelo amigo.
Conforme lhe falei, dou-lhe a pista para rever m. crônica ilustrada com fotos:
CARLOS EDUARDO SANTOS – CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA
UCRANIANOS BRASILEIROS
Publicado em 12 de março de 2022
Kiev, a encantadora capital da Ucrânia Fui encontrar alguns dados sobre Kiev em notas da historiadora Eliria Buso, com as quais, enriqueço esta crônica e agradeço. No século IX, invasores vikings, os varegos, se mesclaram aos eslavos e fundaram o …
https://luizberto.com/ucranianos-brasileiros/
Obrigado, Carlos. Eis alguns outros ucraínos conhecidos no Brasil:
Nas artes:
– Os irmãos Andrucha e Ricardo Waddington, ambos cineastas e produtores
– O apresentador Luciano Huck, bem como sua mulher Angélica
– A poetisa Helena Kolody
– O ator Jonas Bloch, que é sobrinho-neto do Adolpho Bloch que você citou, e a filha dele Débora
Nas ciências, vale destacar o médico e indigenista Noel Nutels
No mundo empresarial, José Mindlin, Jeroslau Pauliki e David Feffer.
Como curiosidade, o primeiro aparelho de TV brasileiro foi fabricado em 1951 pela Invictus, fundada pelo imigrante ucraíno Bernardo Kocubej.