MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Aqui em Curitiba existe o hábito de perguntar às pessoas “O que você é?”. E nenhum curitibano responde “sou curitibano”. Está subentendido que a pergunta refere-se aos ancestrais da pessoa; assim a resposta pode ser alemão, italiano, português, libanês, ucraíno, polaco, japonês, russo, ou qualquer outra descendência. Eu, por exemplo, respondo que sou metade italiano e metade ucraíno, já que meu pai nasceu na serra gaúcha e é 100% descendente de imigrantes italianos, e minha mãe, curitibana, é neta de imigrantes ucraínos. Aliás, ela é a única da família que casou com alguém de etnia diferente, porque as duas irmãs dela casaram com ucraínos. Com a família do meu pai lá no Rio Grande do Sul, eu me criei no meio de ucraínos, ouvindo minha avó me chamar de malenkyy e kotunyo.

Se eu postasse o parágrafo acima em uma rede social, em questão de minutos apareceria alguém, provavelmente aqui de Curitiba mesmo, dizendo que eu não devo usar a palavra “ucraíno”, que é pejorativa, mas sim “ucraniano”. É uma idéia bastante difundida, mas é uma grande bobagem.

O gentílico de quem é da Ucrânia sempre foi “ucraíno”. É a palavra usada em Portugal e também é o termo usado em espanhol, só que sem o acento. Na língua de lá, “eu sou ucraíno” é Я українець, que se transcreve como “Ya ukrayinets” e se lê mais ou menos como “ya ucraíne”, com o ts final quase mudo.

“Ucraniano”, por outro lado, é o que os gramáticos chamam de galicismo: é uma imitação do francês ukrainien, que antigamente era usado por quem queria parecer chique. Aliás, ocorre o mesmo com os vizinhos polacos: hoje em dia se diz que “polaco” é feio e que o certo é “polonês”, outro galicismo.

E a história do “pejorativo”, de onde veio? Veio de uma moda dos tempos modernos que poderíamos chamar de “coitadismo”, misturada com o velho costume do ser humano de querer mandar nos outros. Hoje em dia não pega bem fazer isso pela força; ao invés disso, usa-se uma mistura de culpa e vaidade, proclamando que determinadas idéias, costumes ou palavras são “erradas” e condenáveis, enquanto outras são “corretas” e devem ser incentivadas. Em um mundo carente de auto-estima, essas diretrizes são obedecidas com alegria por quem precisa alimentar o ego. Daí favela vira comunidade, deficiente vira pessoa portadora de necessidades especiais e cachorro vira-lata vira cão comunitário.

Nessa linha, alguém resolveu achar que “ucraíno” e “polaco” não devem ser usados porque supostamente eram usados por pessoas que menosprezavam imigrantes, e quem adota essa linha de raciocínio acha que resolve-se um problema mudando o seu nome.

Sim, é verdade que imigrantes sempre foram maltratados por determinadas camadas da sociedade, tanto aqui como no resto do mundo. E nesse caso específico, até mesmo entre os dois grupos citados: quem acha que existe uma grande rivalidade entre corinthianos e palmeirenses é porque nunca viu um ucraíno e um polaco juntos. E também podemos notar que esse preconceito se estende a todos os imigrantes, e que palavras como “italiano”, “alemão” e “português” já foram usadas pejorativamente da mesma forma. Se ninguém na internet as declarou “proibidas”, talvez seja só porque não acharam um galicismo para colocar no lugar.

Rivalidades e maledicências à parte, nunca conheci um ucraíno que reclamasse de ser chamado de ucraíno. Estavam muito ocupados com coisas mais importantes, como trabalhar. E seu exemplo deveria ser seguido pelos frequentadores de redes sociais que parecem não ter nada melhor para fazer do que ficar reclamando daquilo que os outros falam, pensam ou fazem.

6 pensou em “PEJORATIVO

  1. Caríssimo Marcelo.

    Seu artigo empolga e ensina.

    É página magistral e até muito além, porque é didática.

    Há tempo, em nosso jornal, publiquei crônica sobre Ucranianos Brasileiros, referindo-me à contribuição de algumas famílias da terra dos seus antecedentes, no desenvolvimento cultural, industrial e científico do Brasil, realçando apenas dois membros que cheguei a conhecer durante reunião fortúita no Rio de Janeiro: o médico e teatrólogo Dr. Pedro Bloch e seu irmão, Adolfo, criador da rede Manchete de Televisão.

    Vou pesquisar para ver se lhe mando, daqui há mais alguns dias, e vou retransmitir seu magnífico escrito para os meus 52 Correspondentes do zap.

    Cordialmente,
    Carlos Eduardo Carvalho dos Santos

  2. Marcelo amigo.

    Conforme lhe falei, dou-lhe a pista para rever m. crônica ilustrada com fotos:

    CARLOS EDUARDO SANTOS – CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

    UCRANIANOS BRASILEIROS
    Publicado em 12 de março de 2022
    Kiev, a encantadora capital da Ucrânia Fui encontrar alguns dados sobre Kiev em notas da historiadora Eliria Buso, com as quais, enriqueço esta crônica e agradeço. No século IX, invasores vikings, os varegos, se mesclaram aos eslavos e fundaram o …

    • Obrigado, Carlos. Eis alguns outros ucraínos conhecidos no Brasil:
      Nas artes:
      – Os irmãos Andrucha e Ricardo Waddington, ambos cineastas e produtores
      – O apresentador Luciano Huck, bem como sua mulher Angélica
      – A poetisa Helena Kolody
      – O ator Jonas Bloch, que é sobrinho-neto do Adolpho Bloch que você citou, e a filha dele Débora
      Nas ciências, vale destacar o médico e indigenista Noel Nutels
      No mundo empresarial, José Mindlin, Jeroslau Pauliki e David Feffer.

      Como curiosidade, o primeiro aparelho de TV brasileiro foi fabricado em 1951 pela Invictus, fundada pelo imigrante ucraíno Bernardo Kocubej.

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