CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

Modelos de violão de repentistas, com três cordas

Com a manchete: Repente Torna-se Patrimônio Imaterial, mas Repentistas são Ilustres Desconhecidos nas Grandes Cidades do Nordeste, o talentoso jornalista e pesquisador musical José Teles, paraibano de nascença, mas recifense por paixão, há muito morando em Boa Viagem, que antes tinha a água mais doce do que a água dos cocos de Sancho Panza, mais deliciosa do que a água que passarinho não bebe fornecida pelo Bar do Poeta da Sete de Setembro, mais cobiçada do que o Pau do Índio dos Quatro Cantos de Olinda, questionou há dias por que a Imprensa do Nordeste não deu importância ao encantamento do sanfoneiro Bastinho Calixto.

E voltou à carga questionando por que só agora o Repente foi difundido pelo lphan e tornado público via boletim interno da Fundarpe como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Para que serve a Fundarpe mesmo?

O texto de José Teles está transcrito a seguir:

“Repente é registrado pelo Iphan como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil”, anuncia o boletim da Fundarpe. Confesso que me surpreendi. Pensava que o repente já havia recebido a honraria há muito tempo, pela importância e influência na cultura do país (muito na música popular brasileira). O título vai encontrar a cantoria de viola como uma manifestação quase underground. Há muito tempo não acontece festival de cantoria no Recife. As cantorias de pé de parede, bem mais interessantes, rolam pela periferia, e muito mal divulgadas, pelos próprios cantadores, e quem promove.

Houve época em que o governo do estado produzia um festival de cantadores que passava por São Paulo e Rio. Fiz a cobertura de uma dessas edições, depois foram sumindo, acho que o último a que assisti foi no Teatro de Santa Isabel, produzido pela empresa de Geraldo Freire, salvo engano.

Durante dez anos, a jornalista Roberta Clarissa apresentou o programa A Voz do Sertão, um dos mais longevos do gênero no Recife. Foi ao ar parte na Rádio Universitária AM, parte na Rádio Folha FM, mas saiu do ar tem uns oito anos, ou mais. Os repentistas Edmilson Ferreira e Antônio Lisboa, em 2019, iniciaram um programa de cantoria de viola na Rádio Folha, o Quinta do Repente, que ia ao ar, às quintas-feiras, a partir das 17h. Escrevi “ia ao ar”, porque não sei se continuam.

Quando se fala em poesia oral quase sempre é cordel. Turista compra cordel, e tira fotos no em Olinda ou na praia de Boa Viagem com dupla de repentistas de improviso decorado, achando que foi apresentado a poesia oral viva do Nordeste, enquanto os grandes cantadores vivem à margem das produções culturais oficiais, e de produtores privados.

As novas gerações, pelo menos da capital, sabem alguma coisa da poesia do Pajeú por artistas jovens, como os do grupo Em Canto e Poesia, cujo integrantes vêm de uma nobre linhagem de cantadores, Antonio Marinho, os irmãos Batista, Lourival, Dimas e Otacílio, e Jó Patriota,

Por que não cantadores em desafios nos domingos do Bairro do Recife, na pracinha do Arsenal? Por que os poucos bares freqüentáveis ali nos arredores da Malakof não ousam promover cantorias de pé de parede, ao menos, uma vez por mês?

Não sei em que o título do Iphan, na prática, vai interferir na cantoria de viola. Independente dele, o repente vai se renovando, enquanto a geração de Ivanildo Vila Nova que continua na viola aos 76 anos, envelheceu, e nos últimos anos sofreu baixas de três grandes mestres, Valdir Teles, Louro Branco e João Paraibano. Novos valores vão surgindo no repente, mesmo que alguns se bandeiem para o forró fuleiragem, que é onde se ganha dinheiro, ao contrário da embolada, que está praticamente extinta.

6 pensou em “PATRIMÔNIO IMATERIAL

  1. Caro Cícero

    Muito grato pelos esclarecimentos encorpados pelo texto do José Teles. Quando soube hoje que o repente foi declarado patrimônio imaterial, levei o maior susto. Mas, como!? Não era?
    Se o frevo já é há algum tempo, só agora que o repente recebe esse título?

    Agora, com seu texto sei um pouco mais sobre essa cantoria e sei também um pouco mais porque vem sendo botado pra escanteio.

    De novo, gratíssimo pelo esclarecimento

  2. Mas, como? Não era?

    Só agora o Repente foi difundido pelo lphan e tornado público via boletim interno da Fundarpe como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

    Eita Brasil, tão “desleixado” com a cultura da terra, do homem sertanejo, do caboclo, dos jecas tatus espalhados por todos os rincões…

    Que Ciço traga sempre à luz essa gente brasileira que fica na sombra. Onde estava a tal Lei Rouanet, sempre tão amiga dos amigos dos amigos do rei…

    • Questionamento irretocável, pertinente e inoportuno, querido Sancho Panza!

      As feridas abertas à Cultura, à Economia, à Administração Pública, à Segurança, à Saúde, à Educação, enfim, ao desenvolvimento econômico pelo petralhismo enquanto o MARGINAL LulaLadrão esteve à frende do comando do Brasil como Chefe da Nação, é IRREPARÁVEL!

      Lula foi o chefe-mor do narcotráfico, e o resto é conversa fiada para boi dormir!

      TUDO QUE PRESTAVA NO BRASIL FOI JOGADO NO ESGOTO PÚBLICO PELO PT E SEUS QUADRILHEIROS.

    • Querido articulista e bibliográfico, Brito.

      A definição de Fundarpe correta deveria ser: Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, órgão executor da Política Cultural do Estado, em todas as suas dimensões e expressões, que está sendo desenvolvida em bases democráticas. … Faz parte da Administração Indireta do Estado e está vinculada à Secretaria de Cultura.

      Mas tudo isso não passa de falaça. Na verdade a Fundarpe é uma cabide de emprego onde o dinheiro banca a luxúria nababesca dos que mandam no Estado.

      Não serve pra porra nenhuma.

  3. Genialidade na arte de improvisar:

    Não se encontra isso em lugar nenhum do mundo!

    Abaixo, o poema O Casamento dos Velhos, de Louro Branco

    Tem certas coisas no mundo
    Que eu morro e num acredito
    Mas essa eu conto de certo
    Dum casamento bonito
    De um viúvo e uma viúva
    Bodoquinha Papaúva
    E Tributino Sibito

    O véio de oitenta ano
    Virado num estopô
    A véia setenta e nove
    Maluca por um amor
    Os dois atrás de esquentar
    Começaram a namorar
    Porque um doido ajeitou

    Um dia o véio comprou
    Um corpete pra bodoquinha
    Quando a véia foi vestir
    Nem deu certo, coitadinha
    De raiva quase se lasca
    Que o corpete tinha as casca
    Mas os miolo num tinha

    No dia três de abril
    Vêi o tocador Zé Bento
    Mataram trinta preá
    Selaram oitenta jumento
    Tributino e Bodoquinha
    Sairam de manhazinha
    Pra cuidar do casamento

    O veião saiu vexado
    Foi se arranchar na cidade
    Mandaram chamar depressa
    Naquela oportunidade
    O veião chegou de choto
    Inda deu catorze arroto
    Que quase embebeda o padre

    O padre ai perguntô:
    Seu Tributino, o que pensa,
    Quer receber Bodoquinha
    Sua esposa, pela crença?
    O veião dixe: eu aceito
    Tô tão vexado dum jeito
    Chega tô sem paciência

    E preguntô a Bodoquinha:
    Se aceitar esclareça
    A véia lhe arrespondeu
    Dando um jeitim na cabeça
    Aceito de coração
    Tô cum tanta precisão
    Tô doida que já anoiteça

    Casaram, foram pra casa
    Comeram de fazer medo
    Conversaram duas horas
    Uns assuntos duns segredo
    E Bodoquinha dixe: agora,
    Meu pessoá, vão embora
    Que eu quero drumi mais cedo

    O véi vestiu um pijama
    Ficou vê uma raposa
    A véia de camisola
    Dixe: óia aqui sua esposa
    Cuma é, vai ou num vai?
    O veião dixe: ai, ai, ai
    Já tá me dando umas coisa

    A véia dixe me arroche
    Cuma se novo nóis fosse
    O véio dixe: ê minha véia
    Acabou-se o que era doce
    A véia dixe: é assim?
    Então se vai dar certim
    Que aqui também apagou-se

    Inda tomaram uns remédio
    Mas num deu jeito ao enguiço
    De noite a véia dizia:
    Mas meu véi, que diabo é isso?
    Vamo vendê essa cama
    Nóis sempre demo na lama
    Ninguém precisa mais disso

    A véia dixe: isso é triste
    Mas esse assunto eu esbarro
    Eu já bati o motor
    Meu véi estrompou o carro
    Ê, meu veião Tributino
    Nóis dois só tem um menino
    Se a gente fizer de barro.

  4. Parabéns pela excelente postagem, prezado cronista Cícero Tavares!

    Manifestação artística que faz parte da identidade da região Nordeste, o Repente, somente agora, 11.11.2021, foi reconhecido como patrimônio cultural do Brasil, durante reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
    O pedido de registro foi formalizado em 2013, pela Associação dos Cantadores Repentistas e Escritores Populares do DF e Entorno.

    O Repente nasceu na Serra do Teixeira, na Paraíba, se expandiu para o vale do Pajeú, em Pernambuco, e para o Vale do Seridó, no Rio Grande do Norte,
    De acordo com o Iphan, há registros da prática do Repente ou Cantoria, desde meados do século XIX.

    No início do século XX, a manifestação teve papel na difusão do rádio na região.

    A maior parte dos repentistas tinha origem rural, vivendo no interior e cantando para plateias camponesas. Essa realidade se transformou na década de 1950, com os cantadores se fixando nas cidades, à procura de ferramentas que auxiliassem a atuação deles.

    Uma ótima semana!

Deixe uma resposta