DEU NO JORNAL

Guilherme Fiuza

Novo episódio polêmico de Janja: primeira-dama diz que foi a primeira a trabalhar efetivamente

Janja disse que, antes dela, o Brasil nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse. A declaração foi dada numa entrevista ao portal UOL. A esposa de Lula parecia bem segura do que dizia — tanto que fez questão de se classificar como a primeira esposa de chefe de Estado a trabalhar “efetivamente”.

Ou seja: trabalho de verdade, na história das primeiras-damas brasileiras, só ocorreu com Janja da Silva (segundo ela própria).

A afirmação contundente não gerou polêmica na entrevista. Janja chegou a ser perguntada sobre sua agenda de trabalho ou em que consistia essa atividade considerada por ela pioneira para o posto. Respondeu que vai “quase todo dia” ao Palácio, citou parcerias e programas em que atua junto a outros países e ficou tudo bem.

O centro da argumentação da primeira-dama brasileira era uma autodefesa contra os que a consideram “gastadeira”. As despesas em viagens internacionais com hospedagens em hotéis de luxo e comitivas numerosas não foram inventadas pelos críticos. Mas Janja afirmou que sempre procura primeiro a estadia nas embaixadas. Não deixa de ser um consolo.

A questão principal, porém, é menos inocente do que essa polêmica ou disse-me-disse sobre shoppings, hotéis e cartões. A primeira-dama brasileira afirma — e fez questão de enfatizar na entrevista ao UOL — que as críticas ao seu nível de gastos são “misoginia”. Considerando que está em tramitação um projeto de lei sobre a matéria, criminalizando os atos misóginos, e, a prevalecer o juízo de Janja sobre o assunto, muito em breve quem eventualmente chamá-la de “gastadeira” estará em maus lençóis.

Ela mostrou ao mundo sua preocupação com o assunto ao lado de ninguém menos que o presidente da China, Xi Jinping. Lula e Janja pediram ajuda ao líder máximo do regime de partido único (que controla o ambiente digital em seu país com mão de ferro) para a regulação das mídias sociais no Brasil. Sem dúvida alguma, no regime chinês ninguém deve se aventurar a chamar uma autoridade ou figura palaciana de “gastadeira”.

Talvez o Brasil já esteja a meio caminho desse padrão. A declaração de que nenhuma primeira-dama antes de Janja “trabalhou efetivamente” não comoveu os meios de comunicação, nem gerou ao menos a saudável sequência de contrapontos — como qualquer assunto no mínimo polêmico merece numa democracia.

O insulto a D. Sarah Kubitschek, com seu proverbial legado em várias formas de assistência social, saiu de graça. A Rede Sarah de hospitais deve ter sido batizada dessa forma por acaso. Se não foi trabalho, deve ter sido numerologia. O famoso programa Comunidade Solidária, elaborado e implementado com eficiência e discrição pela então primeira-dama Ruth Cardoso, vai ver também não é mais considerado trabalho na historiografia moderna. Quem sabe não foi um golpe de sorte?

Parabéns a todos os entusiastas e apoiadores, tácitos ou explícitos, desse discurso. Esqueçam a história e a liberdade de crítica. O poder é a verdade. Desse jeito a gente chega lá.

2 pensou em “PARA JANJA, AS OUTRAS PRIMEIRAS-DAMAS NÃO TRABALHARAM

  1. Legado de Sarah Kubitschek (1914–1996)
    Sarah Kubitschek de Oliveira, esposa de Juscelino Kubitschek (presidente de 1956 a 1961), é considerada uma das primeiras-damas mais atuantes da história republicana brasileira. Seu trabalho foi marcadamente focado em assistência social, saúde pública e reabilitação, com ênfase em ações concretas e institucionais, e não apenas simbólicas. Seu legado permanece vivo principalmente através da Rede Sarah, um dos maiores sistemas de reabilitação da América Latina.

    Principais contribuiçõesFundação das Pioneiras Sociais (1956)
    Formalizada quando se tornou primeira-dama do Brasil.
    Organização civil declarada de utilidade pública, que mobilizava voluntárias (principalmente mulheres da elite) para ações assistenciais.
    Atuou em educação, saúde, amparo a crianças, mães e famílias vulneráveis.
    Representou uma expansão nacional do trabalho que Sarah já desenvolvia em Minas Gerais (como primeira-dama do estado entre 1951–1955) e anteriormente em Belo Horizonte.

    Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação O grande marco de seu legado.
    Começou com a criação do primeiro centro de reabilitação em Brasília (durante a construção da nova capital).
    Evoluiu para uma rede de hospitais especializados em reabilitação físico-motora, ortopedia, neurologia, tratamento de lesões medulares, queimados, etc.
    Hoje a Rede Sarah é referência internacional em reabilitação, pesquisa e atendimento de alta qualidade pelo SUS, com unidades em várias regiões do Brasil. É frequentemente citada como exemplo de instituição pública eficiente e humanizada.

    Foco em Saúde da Mulher e da Criança
    Programas de atendimento pré-natal, puericultura e combate à mortalidade infantil.
    Ênfase na prevenção e reabilitação, em vez de apenas tratamento curativo.

    Estilo de atuaçãoSarah combinava filantropia tradicional (típica de sua época e classe social) com estruturação institucional. Não se limitava a eventos sociais ou visitas: criou organizações permanentes com impacto de longo prazo.
    Tinha forte apoio do marido (JK), que via o papel da primeira-dama como complementar ao projeto desenvolvimentista do governo.
    Seu trabalho era marcado por discrição relativa, elegância e eficiência operacional — características valorizadas por observadores conservadores e moderados.

    Avaliação do legadoPositiva e duradoura:
    Diferente de muitas primeiras-damas cujo trabalho se dissolve após o mandato, o de Sarah gerou instituições sólidas que sobreviveram a mudanças políticas e governos. A Rede Sarah é o principal símbolo disso.
    Contexto histórico: Atuou em uma era de otimismo desenvolvimentista (os “50 anos em 5”).
    Seu trabalho social serviu como contraponto humanitário ao foco em infraestrutura (rodovias, Brasília).

  2. A comparação da Canja é com a Muda; que dividia o Gabiru com várias amantes, ela incluída.

    Neste aspecto ela está certa, pois a Muda, atuava só intra muros e era discreta até nos gastos.

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