JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Começo essa conversa com uma história real que se deu na Rua Maria Ramos (Olinda). José (o interessado pediu para omitir seu nome) tentava viver noites calmas na casa que acabara de construir. Ocorre que vizinha, dona Mirian, era amante de gatos. Alimentando, regularmente, 20 deles.

Aqui, vênia para lembrar felinos que viviam na casa do mestre Edson Nery e ficavam enroscados em nossas pernas, quando íamos lá. Ou o amigo Fernando Pessoa que, inspirado em Bocage, escreveu poema (sem título, sem data) sobre eles, dizendo “Gato que brincas na rua/ Como se fosse na cama/ Invejo a sorte que é tua/ Porque nem sorte se chama”.

Recordo por fim os “Fortes gatos suaves”, como a eles se referia (em Flores do mal) um dos precursores do simbolismo, Charles Baudelaire. Curioso é que seu livro, assim que lançado, foi considerado “imoral”. Não era. Mas essa é outra história, com outros personagens, e fica para outro dia.

Certo é que, tão logo construída, passaram os gatos de dona Mirian a fazer Assembleia Geral no telhado da casa – uma placa de concreto, como o dessas casas modernosas – do referido José. E tão grande era o barulho da gatalhada que não dava para ninguém dormir.

Dona Miriam parada, não era problema dela. Assim pensava. E assim dizia, quando reclamavam. Foi quando os pedreiros Chico Muafa (de Passira) e Cleber (de Currais Novos) decidiram ajudar seu amigo e chegaram com a solução.

Em tigelas de plástico, puseram Sardinhas Coqueiro, molho de tomate e cuscuz, tudo misturado com cimento. Enquanto, nas outras, água. Espalharam no telhado, antes de chegarem os gatos. Resultado, no dia seguinte, morreram 19 deles (escapou só um que, adoentado, ficou preso em casa pela dona). Como se tivessem uma parede de concreto armado nas suas barrigas duras, coitados. Bem duras. E daí?, amigo leitor. Daí que crimes, se ocorridos, já prescreveram. José vendeu a casa e não mora mais por lá. Enquanto dona Miriam, ignora-se o que aconteceu com ela.

O episódio lembra nosso Brasil. Onde os escândalos se sucedem e fica tudo por isso mesmo. Como o Petrolão, que pôs muita gente ilustre na cadeia – tesoureiros de partidos, políticos (muito) influentes, ricos empresários. Até que o Supremo anulou tudo, com base em tecnicabilidades (muito) discutíveis. Difícil de entender esse tipo de proceder, uma espécie de prêmio para a corrupção. Devolvidos todos às ruas, proclamam agora terem sido “inocentados”. Só mesmo rindo…

Depois os aposentados, coitados, miseravelmente assaltados. Até um funcionário de nossa casa, Bigode; que sem sucesso reclamou dessa expropriação, por 9 meses, no INSS. Nem CPI o Sistema permitiu. Nenhum dirigente de Sindicato está sendo investigado. Nem parentes de políticos ilustres. A conta? Pagamos nós, com nossos impostos.

Depois o Master. Não morreu, ainda, só por conta do bravo ministro André Mendonça. Mas tudo conspira contra ele. Os poderosos do Brasil estão em ação, para encerrar o caso. Ministros do Supremo (alguns) à frente, claro. Assim, e por confiar no passado, Vorcaro nunca fará Colaboração Premiada. Confia no passado e espera ser solto, em breve, para se juntar a sua turma boa.

Voltando a nossa historinha, para encerrar. Se culpado houve, creio ser quem deveria cuidar dos gatos. E pena, mereciam melhor destino. Eles e hoje, permitam os leitores, todos nós brasileiros.

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