Antes da Copa do Mundo de 1958, a CBD contratou o psicólogo João Carvalhaes para submeter os atletas a testes de “avaliação de inteligência e equilíbrio psicológico”. Pelé marcou 68 de 123 pontos, o que motivou Carvalhaes a recomendar a comissão técnica que não o levasse, por ser “obviamente infantil” e não possuir senso de responsabilidade suficiente para um jogo coletivo. A recomendação não foi seguida, e Pelé integrou o elenco que iria para a Suécia. Sobre o ocorrido, ele comentou, décadas depois, que não se sentia “muito responsável” com 17 anos, e que só pensava “em jogar” e que tudo “era uma festa” e emendou que jogadores mais experientes da equipe, como Didi, Nílton Santos e Gilmar, “carregavam o peso”.
Em 29/6/1958, se tornou o jogador mais jovem a disputar a final da Copa do Mundo aos 17 anos e 249 dias. Marcou 2 gols na etapa final e o Brasil venceu a Suécia por 5–2. Seu 1º gol no canto da rede, foi escolhido como um dos melhores da história das Copas. Quando a partida terminou, Pelé desmaiou em campo e foi reanimado por Garrincha. Já recuperado, ficou emocionado e chorando, enquanto era parabenizado pelos companheiros de equipe. A imprensa proclamou Pelé a maior revelação da Copa.
Em 1959, foi convocado para servir no Exército. Benedito Ruy Barbosa, seu biógrafo, acredita que a convocação tenha se dado de forma proposital, “para chamar a atenção para o Exército e para as Forças Armadas”. Pelé disputou várias partidas com a Seleção Brasileira do Exército, e foi campeão sul-americano, marcando o gol decisivo no jogo final contra a Seleção Militar da Argentina. Com a camisa do Exército, Pelé atuou em 10 partidas, marcando 14 gols. Em 2010, em comemoração ao seu 70º aniversário, o Exército Brasileiro homenageou o atleta, com a inauguração do “Espaço Pelé” no Museu do Desporto do Exército.
No Torneio Rio-São Paulo marcou um de seus gols mais famosos contra o Fluminense, no Maracanã: recebeu a bola na entrada de sua própria área, e correu todo o campo driblando 6 adversários e o goleiro, antes de chutar para o gol. Uma placa foi encomendada citando “o gol mais bonito da história do Maracanã” dando origem à expressão “gol de placa”, que virou sinônimo de gol espetacular. Seu desempenho nos jogos despertou o interesse dos times italianos Internationale, Juventus e Milan, com a oferta de 600 milhões de liras pelo jogador. Um valor recorde para a época, que girava em torno dos 250 milhões de lira.
O assédio desses clubes pela sua contratação incomodou o então presidente Jânio Quadros, que mandou um bilhete à João Mendonça Falcão, presidente do Conselho Nacional de Desportos, afirmando que lhe preocupava “a reiterada contratação de futebolistas brasileiros por clubes estrangeiros, concluindo que aguardava providências de Falcão. Sua pretensão era declarar Pelé um “tesouro nacional”, e com isso impedir sua ida ao exterior. O ato do Presidente foi objeto de críticas na época, que apontavam a inconstitucionalidade de se privar Pelé de seus direitos constitucionais.
Um dos momentos marcantes de sua carreira foi o milésimo gol em 19/11/1969, no jogo contra o Vasco da Gama, seu time do coração. Foi um gol de pênalti e ele foi cercado jornalistas e dirigentes do Santos. Pegou a bola, beijando-a e oferecendo o gol às crianças, pessoas pobres e velhinhos cegos. O jogo foi suspenso por 20 minutos, e Pelé deu uma volta olímpica no estádio, com uma camisa do Vasco com número “1000” nas costas. Em sua crônica semanal, Carlos Drummond de Andrade deixou registrado: “O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé”.
Seguiram-se diversos jogos todos bem sucedidos. Porém, em 1974 convocou uma auditoria para conhecer sua situação financeira e descobriu que não ia bem, particularmente com a empresa Fiolax, uma fábrica de peças de borracha, da qual foi sócio e devia milhões de dólares. “Eu devia milhões, estava determinado a pagar minhas dívidas e eu sabia que jogar futebol era de longe a melhor coisas que eu podia fazer”. Em seguida surge o time norte-americano New York Cosmos disposto a contratá-lo. As tratativas para isso duraram algum tempo, pois o governo brasileiro mantinha uma certa resistência.
Com a intenção de convencer Pelé e o governo brasileiro, o secretário de estado ds EUA, Henry Kissinger, chegou a enviar telegrama ao chanceler brasileiro pedindo ajuda para convencer Pelé, alegando que a contratação contribuiria para estreitar as relações entre os países. Desse modo Pelé aceitou a proposta e o Cosmos anunciou oficialmente sua contratação em 10/6/1975. Em seguida Pelé se encontrou com o presidente Gerald Ford, na Casa Branca. A expectativa era que Pelé poderia “estimular o futebol profissional bem como o interesse geral no esporte dentro do país”.
Em seu livro Pelé: A importância do futebol, ele afirma que o acordado era 1 milhão de dólares por sete anos. As cifras apontadas pela imprensa variavam entre 2,8 milhões, 4,5 milhões e até 7 milhões de dólares por 3 anos de contrato, mas o New York Times anunciou que o contrato era de 7 milhões, mas 2 milhões eram de impostos. Ou seja, o Rei Pelé ganhou 5 milhões de dólares e foi apontado como o atleta mais bem pago do mundo. A estréia se deu em 15/6/1975, num empate em 2–2 contra o Dallas Tornado. A partida atraiu imensa atenção por todo os EUA e foi transmitida para 30 países pela rede CBS. Pelé fez um gol e por diversas vezes permitiu que seus companheiros ficassem cara a cara com o goleiro adversário. Em 1/10/1977, encerrou sua carreira em uma partida de exibição entre o Cosmos e o Santos, em Nova Iorque no Estádio dos Giants. Em seu discurso de despedida, Pelé pediu que a multidão repetisse com ele 3 vezes a palavra love. O ato serviu de inspiração a Caetano Veloso para compor a canção “Love Love Love”.
Em 1992, ele foi nomeado embaixador da ONU de ecologia e meio ambiente. Além disso, apoiou várias causas de caridade, como Action for Brazil’s Children, Gols Pela Vida, Aldeias Infantis SOS, The Littlest Lamb, Prince’s Rainforests Project entre outras. 2 anos depois foi foi nomeado Embaixador da Boa Vontade da UNESCO. O presidente Fernando Henrique Cardoso o nomeou para o cargo de Ministro do Esporte, em 1995. Neste esse período, ele propôs uma legislação para reduzir a corrupção no futebol brasileiro, que ficou conhecida como “Lei Pelé” e deixou o cargo em 2001.
Anos depois abraçou a causa da caridade participando da Cúpula Olímpica da Fome, em 2012, organizada pelo ministro britânico David Cameron. Em 2014 foi inaugurado o Museu Pelé, em Santos e em 2016 leiloou mais de 1,6 mil itens de uma coleção que acumulou ao longo de décadas e arrecadou 3,6 milhões de libras para caridade. Em 2018 fundou sua própria organização de caridade, a Fundação Pelé, para capacitar crianças carentes e desprivilegiadas de todo o mundo.
Em agosto de 2021, foi diagnosticado com câncer no cólon. Em dezembro de 2022, foi divulgado que o tratamento quimioterápico não era responsivo e foi substituído por um tratamento paliativo. Após um mês internado num hospital em São Paulo, faleceu em 29/12/2022, aos 82 anos, e foi sepultado no Memorial Necrópole Ecumênica, em Santos.
No vídeo abaixo, o gol mais bonito que Pelé não fez na semifinal da Copa do Mundo de 1970
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Bom dia Domingos; algumas informações para complementar sua coluna sobre o Mito do Pelé;
Primeiro, que não foi só o Pelé a ser reprovado em teste psicológico.
Garrincha também foi reprovado em testes psicotécnicos aplicados durante a preparação para a Copa do Mundo de 1958, na Suécia, pelo psicólogo da seleção, João Carvalhaes. O jogador obteve uma pontuação de 38 de 123 pontos no teste que exigia desenhar uma figura humana, sendo considerado infantil e mentalmente incapaz de suportar a pressão de um Mundial, o que levou Carvalhaes a recomendar que ele não fosse convocado.
Também sobre o Gol de placa, temos que dar crédito ao autor da ideia.
Em 5 de março de 1961, após Pelé realizar uma jogada individual contra o Fluminense, Beting, que trabalhava no jornal O Esporte, decidiu criar uma placa de bronze com a inscrição: “Neste estádio, Pelé marcou no dia 5 de março de 1961 o tento mais bonito da história do Maracanã”.
Como eu disse na semana passada, tinha o Pelé, gênio do futebol, maior atleta do século XX e tinha o Édson Arantes do Nascimento, sujeito que não soube administrar adequadamente a marca e o dom que Deus lhe deu de presente. Teve que ir aos EUA pois 15 anos depois de jogar futebol no Santos, estava falido.
Abraço
Obs. O Beting do gol de placa é o Joelmir, um dos melhores jornalistas que este Brasil já teve e que merece uma coluna sua, Domingos.
Grande João Francisco
Grato pelos excelentes acréscimos na concisa biografia de Pelé
Abraços
Brito
Como se vê, se fossemos nos guiar pela opinião de psicólogo, a seleção brasileira estaria na pior. Não haveria Garrincha nem Pelé.
O Pelé das crônicas memoriais, agora abraça o Pelé dos gramados. Coisa boa. Viva os dois. Há braços.
Excelente a biografia do excepcional PELÉ em apenas dois domingos no JBF. Tendo em vista ser um verdadeiro desafio de síntese. Mas, não impossível conforme pude ler. Pois o texto conseguiu, praticamente, abranger os principais detalhes que realmente moldaram a trajetória de PELÉ no futebol mundial. Parabéns!
Grato Deco
Continue prestigiando nosso memorial com sua visita