JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Vicente Ferreira Pastinha, mais conhecido por Mestre Pastinha, nasceu em 5/4/1889, em Salvador, BA. Mestre da Capoeira, considerado um dos precursores desta luta/jogo de origem africana, desenvolvida na Bahia pelos negros escravizados na época colonial.

Filho de uma ex-escravizada baiana e um comerciante espanhol, conheceu a capoeira ainda criança, quando essa prática era proibida no Código Penal, sujeita a pena de prisão por 2 dias a 6 meses, tendo o período dobrado no caso dos “chefes ou cabeças”. Aprendeu a jogar (ou lutar, ou dançar) com o velho Benedito, um negro liberto que viu-o apanhar algumas vezes de um garoto maior que ele.

“Quando eu tinha uns dez anos um outro menino mais forte do que eu tornou-se meu rival. Era só eu sair para a rua e a gente se pegava em briga. Só sei que acabava apanhando dele, sempre. Então eu ia chorar escondido de vergonha e de tristeza. Um dia, da janela de sua casa, um velho africano assistiu uma briga da gente. Vem cá, meu filho, ele me disse, vendo que eu chorava de raiva depois de apanhar. Você não pode com ele, sabe, porque ele é maior e tem mais idade. O tempo que você perde empinando raia vem aqui no meu cazuá que vou lhe ensinar coisa de muita valia. O aprenizado durou alguns dias e ele me dizia: não provoque, menino, vai botando devagarinho ele sabedor do que você sabe (…). Na última vez que o menino me atacou fiz ele sabedor com um só golpe do que eu era capaz. E acabou-se meu rival, o menino ficou até meu amigo de admiração e respeito.”

Estudou no Liceu de Artes e Ofícios e entrou na escola de aprendizes de marinheiros, em 1902, onde praticou esgrima (com espada e florete); aprendeu a tocar violão e ensinava capoeira a seus amigos. Em 1910, aos 21 anos, pediu baixa da Marinha e tornou-se professor da capoeira, apesar da proibição em Lei. Mais tarde, em 1952, fundou o CECA-Centro Esportivo Capoeira Angola na Praça do Pelourinho, frequentado por diversos mestres, como Valdemar da Paixão, Noronha, Maré, Divino, Traíra, Curió, Albertino e Gildo, mantendo a tradição dos angoleiros.

Em 1964, lançou o livro Capoeira Angola, com prefácio de Jorge Amado, defendendo a natureza não violenta do jogo e afirmando que a capoeira conferia dignidade, honradez e decência aos seus praticantes. Foi uma expressiva contribuição à cultura afro-brasileira, que motivou o Mestre a realizar o sonho de conhecer a África. Em 1966, foi representar o Brasil, apresentando a Capoeira Angola, no “1º Festival Mundial das Artes Negras”, em Dacar, capital do Senegal.

A partir daí a capoeira ganhou expressão e foi disseminada pelo País e pelo mundo. Sua história de vida e os ensinamentos, junto com a de outros mestres da Capoeira Angola que tenham sido seus alunos ou não, motivou outras pessoas a praticar a capoeira e foi um fator importante para que essa expressão se disseminasse pelo País e pelo mundo, tornando-se um dos símbolos da cultura brasileira.

Sua expressividade levou o IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional a registrar a Roda de Capoeira como patrimônio cultural imaterial dos brasileiros, em 2008. Em seguida, foi inscrita no “Livro de Registro das Formas de Expressão” e no “Livro de Registro dos Saberes”, respectivamente. 6 anos depois, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura-Unesco conferiu à Roda de Capoeira o título de “Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade”. Mestre Pastinha faleceu em 13/11/1981, aos 92 anos, e deixou um expressivo legado ao patrimônio da cultura popular brasileira.

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