JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

João Cruz Costa nasceu em São Paulo, SP, em 13/2/1904. Filósofo, ensaísta, professor, sociólogo e biógrafo. Foi aluno “número 1” da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP em 1934, onde mais tarde tornou-se catedrático. Sua produção intelectual tem como base “estabelecer relações entre o pensamento e a realidade social, política e econômica do País através de sua história”. O título do seu livro mais conhecido: Contribuição à História das Ideias no Brasil (Ed. José Olympio, (1956) é uma síntese perfeita do seu objetivo e foi traduzido para vários idiomas.

Filho de mãe descendente de italianos e pai português, enveredou pela área da medicina, estudando na Alemanha e no Brasil. Porém, verificou que não era sua vocação: “Comecei estudando medicina, revelando assim um interesse prático pelo homem, se não por ele, por sua saúde. Eu fizera aqui uns vagos estudos de filosofia para satisfazer as exigências dos preparatórios… Fui depois para a França em 1923 e entrei no curso preparatório da Faculdade de Medicina de Paris. Um dia, num grupo de brasileiros, encontrei o prof. Georges Dumas, que era grande amigo do Brasil, que me perguntou qual a especialização que eu iria fazer na medicina. A minha resposta foi: a psiquiatria. O velho Dumas, que era médico e agrégé de Filosofia, aconselhou-me então que fizesse estudos de filosofia e convidou-me para assistir às suas divertidas aulas aos domingos, no Asyle de St’Anne.”

Foi aí que tomou gosto pela área e ingressou na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP-Universidade de São Paulo. Licenciado em 1937, manteve contatos com os professores da Missão Francesa, na USP, especialmente com o prof. Jean Maugue, do qual tornou-se assistente. Em seguida defendeu tese de doutoramento: Crítica das ideias políticas tomistas de Suarez, na USP em 1940. Na década seguinte, prestou concurso para assumir a cátedra de filosofia e tomou posse em 1951.

Em 1958, teve problemas com o então governador Jânio Quadros, devido a uma entrevista aos Diários Associados, onde chamou de levianas as palavras do governador, que havia se dirigido de maneira ríspida ao Diretor da FFCL Eurípedes Simões de Paula. Por isso, recebeu uma pena de repreensão e o caso teve repercussão, indo parar na capa do jornal Folha da Manhã. Ele levou o caso para o STF-Supremo Tribunal Federal, que deferiu seu pedido, cancelando a punição. O governador acatou a decisão e o professor publicou um sarcástico comentário na Folha da Manhã: “Sempre foi hábito do sr. governador ser breve, como testemunham seus famosos bilhetes. Desta vez, entretanto, houve por bem s.exa. estender-se em longos reparos à decisão do Egrégio Supremo Tribunal que, por unanimidade, o compeliu a cancelar o ato que me levara a apelar para aquela alta Corte de Justiça.”.

Em janeiro de 1964 foi obrigado a depor no DOPS sobre a manifestação de apoio ao registro do Partido Comunista do Brasil assinado por um grupo de intelectuais. No ano seguinte foi denunciado pelos colegas da USP e foi afastado do cargo de professor. Teve que se refugiar na França onde passou a lecionar. Sua preocupação era viabilizar um pensamento nacional autônomo, com destaque ao advento do positivismo como momento de maior transformação da história brasileira.

Desempenhou funções relevantes, como a de conselheiro da Biblioteca do Congresso em Washington, convidado pelo governo dos EUA em 1948); membro da Comissão de História das Ideias do Instituto Pan-americano de Geografia e História; correspondente da Cátedra Alejandro Korn, de Buenos Aires; condecorado com o título de doutor honoris causa da Universidade de RennesI. Foi duas vezes homenageado pelo governo francês, como Cavaleiro da Legião de Honra e Palmas Acadêmicas no grau de cavaleiro.

Em seus últimos anos, ficou amargurado com a ditadura instalada no País e o clima de delação entre alguns colegas “dedo-duros” da faculdade. Faleceu em 10/10/1978 e segundo seu amigo, o prof. José Arthur Gianotti: “Cruz Costa cumpriu seu ciclo de vida; sua irreverência; sua ironia; sua forma de ser brasileiro estão vivas entre nós. Para ele só restava uma vida vegetal , que sempre recusou”. Sua biblioteca, com mais de 9 mil livros, foi doada à Faculdade de Filosofia da USP.

Sua produção intelectual conta uma dúzia de livros sobre diversas áreas, especialmente sobre o desenvolvimento da filosofia no Brasil, “procurando estabelecer relações entre o pensamento e a realidade social, política e econômica do País através de sua história e indicando com isso a diversidade dos seus conhecimentos. Divulgava-os pela docência e artigos em linguagem simples por meio de importantes jornais da época: O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Jornal de São Paulo, Minerva de Buenos Aires e Jornadas do México.

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