JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Francisco Alves Mendes Filho nasceu em 15/12/1944, em Xapuri, AC. Seringueiro, sindicalista e ambientalista, considerado líder e mártir na luta pela preservação da Floresta Amazônica.

Filho de Maria Rita Mendes e Francisco Alves Mendes, migrante cearense, foi alfabetizado pelo pai aos 19 anos e iniciou na vida sindical aos 30, como secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. Em seguida foi passou a liderar os seringueiros na luta contra o desmatamento da floresta. Uma luta pacífica onde os trabalhadores protegiam as árvores com seus próprios corpos. Participou, também, de ações em defesa da posse da terra pelos habitantes nativos.

Em 1977 participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri e pouco depois foi eleito vereador pelo MDB. A partir daí passou a receber ameaças dos fazendeiros. Ainda em 1977, tornou-se correspondente do jornal O Varadouro, distribuindo-o entre os seringueiros. Em 1980, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores-PT, sendo uma das principais lideranças no Acre e participou de comícios ao lado de Lula na região.

No mesmo ano foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional como subversivo, mas foi absolvido por falta de provas. Em 1981 assumiu a direção do Sindicato de Xapuri, do qual foi presidente até sua morte. Em 1985 liderou o 1º Encontro Nacional dos Seringueiros, durante o qual foi criado o Conselho Nacional dos Seringueiros, que se tornou a principal referência da categoria. Sob sua liderança a luta dos seringueiros adquiriu repercussão nacional e internacional e a proposta de criação da “União dos Povos da Floresta” na defesa dos seringueiros, castanheiros, pescadores, quebradeiras de coco e populações ribeirinhas, através da criação de reservas extrativistas.

Na ocasião deu-se uma aliança com os índios, levando o governo a criar reservas florestais para a colheita não-predatória de matérias-primas como o látex e a castanha do pará. Em 1986, junto com alguns companheiros, concorreram ao cargo de deputado estadual, mas não foram eleitos. Em 1987 recebeu a visita de membros da ONU-Organização das Nações Unidas, quando denunciou alguns projetos financiados por bancos estrangeiros que estavam devastando a floresta e promovendo a expulsão dos seringueiros.

As denúncias foram levadas ao Senado dos EUA e à um dos bancos financiadores, o BID-Banco Interamericano de Desenvolvimento. Os financiamentos foram suspensos e ele foi acusado pelos fazendeiros e políticos locais de “prejudicar o progresso da região”. Recebeu alguns prêmios internacionais, incluindo o “Global 500”, da ONU, por sua luta em defesa do meio ambiente. Em 1988 participou da implantação das primeiras reservas extrativistas do Estado do Acre e a partir daí passou a receber ameaças dos membros da recém criada União Democrática Ruralista-UDR. Na sequência percorreu o País, participando de seminários e palestras, onde denunciava as intimidações sofridas pelos seringueiros. Após a desapropriação do Seringal Cachoeira, de Darly Alves da Silva, agravaram-se as ameaças de morte. Tais ameaças foram amplamente divulgadas e ele comunicou o fato às autoridades policiais e governamentais solicitando proteção.

Enquanto se tornava conhecido, ganhando notoriedade nacional e internacional, passou a contar com escolta policial para garantir sua segurança em aparições públicas. Tais fatos ampliaram a ira dos proprietários de terras até 22/12/1988, quando foi assassinado nos fundos de sua casa com tiros disparados por Darci Alves, cumprindo ordens do pai Darly Alves, grileiro de terras. Dias antes o Jornal do Brasil se recusou a publicar uma entrevista, onde ele denunciava as ameaças de morte. A alegação da recusa baseou-se no fato de que as ameaças politizavam demais a questão ambiental.

Porém, diante da consumação das ameaças, o Jornal do Brasil publicou a entrevista no 1º caderno da edição 25/12/1988, seguida de um editorial na primeira página. Mais de 30 entidades se manifestaram, exigindo uma punição dos criminosos. Em dezembro de 1990, a justiça condenou Darly e, seu filho Darcy a 19 anos de prisão, um fato inédito na justiça brasileira. Passados mais de 30 anos, Darcy Alves Pereira assumiu a diretoria do Partido Liberal, em Medicilândia, PA. No mesmo dia foi destituído do cargo pelo presidente do PL Valdemar Costa Neto, alegando que não sabia que ele foi o assassino de Chico Mendes.

Em 1990 foi criada a Reserva Extrativista Chico Mendes, alcançando diversas cidades e 970 mil km. de floresta e um milhão de hectares. A Reserva tem como objetivo salvar a floresta e permitir a proteção dos produtores locais e dos povos indígenas. Em seguida sua esposa e filha criaram a ONG Instituto Chico Mendes afim de desenvolver projetos socioambientais no Acre. Ele foi homenageado em diversas ocasiões, como a criação do prêmio “Medalha Chico Mendes de Resistência”, em 1989, concedido anualmente a pessoas ou grupos ligados a luta pelos direitos humanos. Em 2007 foi criado o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade-ICMBio, responsável pela gestão do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza. Em 2011 ele ganhou uma estátua com sua “cabeça de retrato”, exposta no parque Ibirapuera, em São Paulo.

Seu nome aguarda a inscrição no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria” e em 2012 foi eleito o 28º “maior brasileiro de todos os tempos”, em votação realizada pelo Sistema Brasileiro de Televisão-SBT. Integra o “Calendário de Santos” da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, como testemunha profética, tendo sua festa litúrgica comemorada em 22 de dezembro. Em 2013, uma nova espécie de pássaro — Zimmerius chicomendesi — foi nomeada em sua homenagem. Diversos documentários sobre sua trajetória encontram-se à disposição no canal Youtube. Uma extensa reportagem foi publicada na forma de livro por Zuenir Ventura – Chico Mendes: crime e castigo – lançado pela editora Companhia das Letras, em 2003.

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