Aziz Nacib Ab’Saber nasceu em São Luiz do Paraitinga, SP, em 24/10/1924. Geógrafo, professor e pensador do meio ambiente é considerado uma referência em questões sobre os impactos ambientais decorrentes das atividades humanas. Foi laureado com as mais altas honrarias científicas nas áreas ecológicas e arqueológicas.
Filho de uma brasileira e um mascate libanês, foi criado num sítio e pouco depois se mudou para São Paulo. Aos 17 anos ingressou na USP-Universidade de São Paulo, no curso de Geografia e História, e passou a trabalhar como jardineiro da USP, enquanto se formava. Trabalhou durante anos como professor do ensino básico; lecionou na PUC/SP-Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e retornou à USP, onde tornou-se professor emérito. Como pesquisador, iniciou na área de geomorfologia, mas logo passou a incorporar diversos conceitos de áreas correlatas.
Assim, trabalhou em pesquisas científicas com contribuições relevantes nas áreas da ecologia, biologia evolutiva, fitogeografia, geologia, arqueologia, além da geografia. Dentre suas contribuições, encontram-se a descoberta de petróleo na Bacia Potiguar e a criação dos parques de preservação da Serra do Mar e do Japi. A variedade de seus estudos incluem os domínios morfoclimáticos, ecossistemas e paleoclimas sul-americanos, e foi um dos elaboradores da “Teoria dos Refúgios Florestais”.
Atuou também na preservação do patrimônio histórico cultural -tombamento do Teatro Oficina- e teorias da educação, afim de incluir currículos setoriais em grades do ensino público. Em 2006 recebeu o título de Doutor Honoris Causa da UNESP-Universidade Estadual Paulista pelo conjunto da obra. Apesar da idade avançada, envolveu-se em controvérsias políticas referentes à questão ambiental, como a discussão do novo Código Florestal Brasileiro, alterando as áreas de preservação obrigatória em propriedades particulares e sugeriu a criação de um Código da Biodiversidade para implementar a proteção a espécies da flora e da fauna brasileiras.
Defendeu, com veemência, um papel mais ativo dos cientistas, com a ciência aplicada a serviço dos movimentos sociais, levando-o ao cargo de consultor ambiental do PT-Partido dos Trabalhadores e atuar como presidente da SBPC-Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência no período 1993-1995, seguido de presidente de honra e conselheiro. Sua última crítica referia-se ao chamado aquecimento global. Não negava o aquecimento mas afirmava que a contribuição antrópica para o fenômeno ainda não era suficientemente conhecida. Afirmava que algumas das previsões de impactos desconsideravam fatores relevantes, podendo incorrer em diagnósticos imprecisos.
Apontava a onda de calor do verão (no hemisfério sul) 2009-2010 como exemplo de como a interpretação dos fenômenos climáticos é, por vezes, distorcida. Enquanto muitos argumentam que o aquecimento global foi o responsável por isso, Ab’Saber recordava que este fora o pico de atividade do El Niño, que se repete a cada doze anos (ou treze anos ou, ainda, a cada 26 anos) e que, portanto, um pico de calor era esperado. No entanto, o geógrafo reconhecia a urgência de medidas agressivas de redução dos gases do efeito estufa e uma ação incisiva do governo brasileiro para interromper totalmente o desmatamento na Amazônia.
Foi autor do mapa de domínios morfoclimáticos, que procura destacar a modelagem do relevo e dos seus constituinte, as rochas e os solos, além das variações climáticas e ecológicas, que assim geram o bioma. Dividiu o Brasil em 6 grandes regiões: amazônica, caatingas, cerrados, mares de morros, araucárias e pradarias, além de determinar a categoria de “faixas de transição”, sobre as áreas limites entre biomas que possuem características de dois biomas distintos devido à proximidade geográficas dos biomas.
Foi homenageado em vida como Membro Honorário da Sociedade de Arqueologia Brasileira; recebeu a Grã-Cruz em Ciências da Terra pela Ordem Nacional do Mérito Científico; Prêmio Internacional de Ecologia de 1998 e Prêmio Unesco para Ciência e Meio Ambiente, em 2001; professor honorário do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP). Em 2008 seu nome foi dado ao Complexo Integrado de Ciência e Cultura de São José do Rio Preto.
Pouco antes de falecer, em 16/3/2012, enviou à Reitoria da USP os arquivos de sua obra completa, em DVD, com a seguinte dedicatória: “Tenho o grande prazer de enviar para os amigos e colegas da Universidade o presente DVD que contém um conjunto de trabalhos geográficos e de planejamento elaborados entre 1946-2010. Tratando-se de estudos predominantemente geográficos, eu gostaria que tal DVD seja levado ao conhecimento dos especialistas em geografia física e humana da universidade”.
Eu estava terminando meu mestrado na USP quando ele faleceu. Ele era muito querido na universidade, contribuiu demais.
Lembro de uma bibliotecária me contar que todos os dias ele ficava estudando até o fechamento da biblioteca.