MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

Imaginem a cena — uma calçada, uma farmácia, uma barra de ferro encostada no vidro, talvez enferrujada, quem sabe com um bilhete amarelecido colado por cima: “cuidado”. Eu, numa atitude puramente blague, dou um chute distraído; a barra tomba com um som metálico, ninguém se machuca, nenhum vidro se estilhaça. Mas não se enganem: no novo teatro social, esse simples ato já tem enredo preparado. Em minutos surgirá um herói improvável — com crachá, cartão de visita e uma página no Instagram — fundando uma ONG para “proteger barras de ferro contra agressões físicas”, angariando doações, patrocínios e manchetes. Haverá demanda coletiva, petição online e uma cobertura midiática com especialistas em metálicos feridos. Se o final não for trágico, será pelo menos ridículo.

Vivemos numa era que transformou a sensibilidade em pólvora e o aborrecimento em programa de auditório. É verdade: a humanidade sempre teve exageros — inquisidores, moralistas, censores de várias épocas — mas o que nos distingue, hoje, é a industrialização do espanto. Tudo vira causa, cada tropeço é uma proclamação, e a indignação tem cronograma: nasce, explode, viraliza e se esvai, enquanto os problemas que realmente importam — educação, saúde, infraestrutura, a loteria de oportunidades — continuam algemados no porão.

O extremismo que desejo apontar não é uma única doutrina; é o hábito de transformar a defesa de um valor legítimo numa liturgia dogmática incapaz de ouvir. Defendem-se causas nobres com gestos exagerados e palavreados de tribunal; a medida do engajamento vira a intensidade do ataque, não a qualidade da proposta. Quando a fragilidade do argumento é grande, a voz é mais alta; quando o conhecimento falta, o insulto vem de prontidão. Assim, o diálogo morre asfixiado pela histeria preventiva.

Há uma comicidade triste nisso tudo. Lembro de Swift e de sua ironia — ele demonstraria que muitas das nossas paixões públicas são carapaças vazias que estalam ao menor toque. Machado de Assis sorriria, com aquele esgar de quem não se engana, e apontaria as contradições: a mesma pessoa que exige tolerância para suas causas é impaciente com opiniões divergentes; pede abertura para seu grupo e fechamento para os demais. A hipocrisia, quando vestida de virtude, torna-se a mais ruidosa das falsificações.

É claro que não estou propondo a apologia do descuido ou do desrespeito. Nada disso. Há limites que valem ser preservados — a dignidade das pessoas, a segurança, o direito à integridade física e moral. O que combato é o autoritarismo do sentimento, a tirania do microtema. Quando a indignação se organiza como aparato repressivo, ela sufoca a curiosidade, a contradição e a comédia — e sem comédia não há humanidade, apenas tribunais de exceção vestidos de moral pública.

O exagero institucionaliza o absurdo. Quantas regras foram criadas para não ferir sensibilidades que, ao final, só servem para empurrar o riso para debaixo do sofá? A censura autorreforçada — aquela em que alguém se autocensura por medo de represália social — é mais mortal que qualquer decreto oficial. As palavras ficam com muletas; as ideias, com freio de mão puxado. E assim a cultura empobrece: menos risco, menos invenção, menos ousadia. O espírito crítico enfraquece, substituído por mantras prontos e slogans reciclados.

Outra faceta perversa: a mercantilização da ofensa. Surgem empresas de escândalo, consultorias de outraged management, cursos para criar narrativas de vitimismo e monetizar o sofrimento. A economia da indignação transforma dor em capital simbólico. Já vimos movimentos genuínos capturados por interesses que nada têm de nobres; é a velha lógica do oportunismo: onde há barulho, há lucro. E o silêncio, mais uma vez, paga o maior preço — pois o que não dá likes desaparece.

Dói admitir que a polarização é fruto também de preguiça intelectual. É mais simples rotular, inserir em categorias binárias e empunhar a bandeira. Não digo que todas as convicções sejam iguais — longe disso —, mas rejeito o pendor de reduzir debates complexos a duelos de insultos. A grandeza do pensamento público consiste em suportar contradições e, sobretudo, em transformar adversários em interlocutores, não em inimigos a serem anulados.

Portanto, a proposta — modesta e atrevida — é a de readotar alguma moderação. Que tal reaprender a rir? Rir de si, do exagero, da própria severidade. Que tal cultivar a paciência para ouvir o argumento antes de preparar o linchamento moral? Que tal libertar a política do espetáculo e devolver ao argumento o lugar de honra? Não é um convite ao cinismo, mas à sobriedade. É recuperar o efeito civilizador do humor: ele diminui a tensão, permite a autocrítica e revela, muitas vezes, a estupidez com ternura.

O exagero não será extirpado por decretos; só desaparecerá com a prática cotidiana de diálogo, ironia e humildade. Quando aprendermos que as causas nobres não pedem cânticos de sacrifício, mas planejamento e esforço, talvez voltemos também a encontrar sentido no debate público. Até lá, continuaremos a ver ONGs que defendem barras de ferro, colunas de comentaristas que alimentam incêndios morais e leitores que, entre um like e outro, preferem o espetáculo à substância.

Se esta carta — mordaz, ferina, bem-humorada — provocar um espasmo nos devotos do ultraje, tanto melhor: que o espasmo vire reflexão. E se provocar riso, ótimo: o riso é um antídoto poderoso contra a tirania do excesso. O verdadeiro extremismo a combater é aquele que reduz o humano à caricatura e transforma o diálogo em arena. Contra isso, ergamos a arma mais subversiva que existe: a capacidade de pensar, e de rir enquanto pensamos.

E se, por acaso, alguém decidir fundar uma associação para defender as barras de ferro, que ao menos tenha bom gosto para o logotipo. Afinal, até o absurdo merece um pouco de estética.

4 pensou em “OS ABSURDOS DOS EXTREMISMOS

  1. Pois é, compadre Maurino.
    Chegasse, chegando!

    Por conta dessa geração “molenga/ nutella, é que os supermercados estão vendendo banana sem casca e na embalagem de ovos vem escrito: contém galinha.

    Ferro, neles…

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