ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

Dizem que Thêmis é a deusa da justiça, simbolizada pela mulher de olhos vendados segurando uma balança em uma das mãos e uma espada em outra. Essa interpretação equivocada levou-me a uma pesquisa mais profunda, já que essa imagem representa a deusa Dice, filha de Thêmis, na mitologia grega e que, na mitologia romana se chamava “Iustitia”. Thêmis, na verdade é a deusa do equilíbrio e que vigia os juramentos dos homens e dos deuses. Criada pelas tias, as Moiras (Cloto, Láquesis e Átropos), sentava-se ao lado de Zeus e com ele teve uma filha chamada Dice, a quem foi dada presidir a correção e a prática da justiça entre os homens e os deuses. Daí porque Dice se apresenta como uma mulher com os olhos vendados, segurando na mão esquerda uma balança, que só satisfaz a deusa quando está em perfeito equilíbrio e na outra mão uma espada, pronta a ser brandida para punir aquele que viola esse equilíbrio.

Mas eu fiz todo esse novelo de maçaroca para desabafar sobre um assunto que ainda não me desceu nos gorgomilhos. É um sapão daqueles bem cabeludos que ainda está entalado na minha garganta. Ano passado, mais especificamente em julho de 2019 procurei a justiça de pequenas causas que, aqui no glorioso Mato Grosso do Sul, se gaba de ser rápida e eficaz. Na primeira audiência, marcada setenta e cinco dias após a entrada do processo fui à audiência e lá recebi a notícia de que a justiça ainda não conseguira intimar a outra parte. Pensei com meus botões: me ferrei.

Bem, chegamos em 2020 e num belo dia de férias recebo uma carta marcando uma segunda audiência para o dia 30 de janeiro, quase seis meses após eu dar entrada no processo. Fui. Apenas para saber que o conciliador só iria se reunir conosco no mês de maio deste ano. Ali mesmo mandei, tanto a outra parte quanto a justiça irem coçar as virilhas. E isso em um processo cujo valor não passa de dois mil reais. Não tanto pelo valor, mas sim pelo descaso do prestador do serviço que me tomou dinheiro na boa-fé e se mostrou um canalha do mesmo quilate de um Zé Dirceu, de um Palocci da vida.

A oficial de justiça que me atendeu me disse que se eu não fosse, iria ser cobrado pelos serviços e pelos “emolumementos” judiciais – emolumentos judiciais é só um nome parido do cruzamento de cruz-credo com assombração para tomar o nosso dinheiro -. Pois escrevi em bom Português: Não Pago! E também escrevi que perdi a confiança na justiça brasileira e seu linguajar empolado, em suas mamatas e privilégios que não é dado a nenhum cidadão pagador de imposto.

Desde então eu tomei birra de tudo quanto assunto que se refere à justiça brasileira. Ao contrário da deusa Dice, a nossa justiça enxerga bem, e enxerga até demais. Sua espada está cega, sua balança está quebrada, suas vestes estão rasgadas e sua nudez aparecendo. Nossos juízes se enchem de benesses, de auxílios, de recompensas. E eu me pergunto: Para que? Se, quando um cidadão comum bate às suas portas clamando por JUSTIÇA, ela é a primeira a olhar para o cidadão e zombar de sua cara?

Choca ao cidadão honesto, que vive de salário mínimo, ver o salário de um magistrado. Aqui no glorioso Mato Grosso do Sul, terra de gente brava e corajosa, há desembargadores que recebem, ao final do mês até 250 mil reais entre salários, gratificações e auxílios. Vejam a lista de auxílios: moradia, escola, creche, alimentação, toga, transporte, diárias quando viajam. Além disso ainda há o salário base e as férias. Aliás, nunca vi povo tirar tantas férias como juízes, além de promotores e procuradores. E esses cidadãos ainda têm a cara de pau mais vagabunda em falar que precisam de aumento porque seus vencimentos não fazem frente às suas despesas.

Então eu me pego perguntando: e o trabalhador que “veve” de salário mínimo. E com esse dinheiro ele tem que comer, se vestir, pagar energia, água e esgoto, transporte, remédio, dar assistência aos filhos, esposa, ou esposo, pagar aluguel, quando for o caso, e não tem auxílio, assistência, ou mesmo gratificações a mais. Será que esse cidadão é tapado, ou na nossa dita justiça só tem escroque, pilantra e safado? Exceções à parte, conheço alguns magistrados que são os famosos “pé-de-boi” – aqui no Mato Grosso do Sul esse vocábulo significa o famoso burro de carga, ou aquele que enfrenta qualquer trabalho com rapidez, eficiência e eficácia – mas estes são minorias. E volto a me perguntar. Esses cidadãos querem salário para quê? Porque o salário deles vira troco de cachaça diante dos valores recebidos entre gratificações, auxílios, e indenizações. Se a Carta Magna – olha ela aí de novo – diz que o salário do trabalhador, e até onde eu sei juiz, promotor e procurador, também são trabalhadores, é para ele fazer frente a essas despesas do cotidiano, porque a sociedade mantém uma rede de privilégios que são ofensivos aos cidadãos e não se traduzem em serviços que levam ao equilíbrio das bandejas da balança de Dice.

Há uma música no cancioneiro nacional que diz “a justiça é cega, mas enxerga quando quer”. Na verdade, nossa justiça nunca foi justa. Sempre esteve ao lado de quem oferecesse a ela os privilégios que são pagos pelos desdentados e descamisados, como dizia antigo ex-presidente e que se tornou melhor amigo de ex-presidiário. Depois dessa minha experiência com a justiça brasileira deixei de acreditar nela. Deixei de respeitar as suas atribuições. Sei que posso ser até preso por isso, mas verei essa prisão como a resistência política de um cidadão que se cansou de ser espoliado por um sistema injusto que se enche de privilégios, vira as costas para a sociedade e debocha dos mais simples.

Todavia, há uma luz nesse túnel interminável. Mesmo Dice estando com as vestes rasgadas, a balança quebrada e a espada cega no Brasil, as suas tias (Cloto, Láquesis e Átropos) são as titânides responsáveis por fiar, urdir e cortar o fio da vida do ser humano. É uma lição que serve a todos nós. Dos mais miseráveis trapos humanos que o sistema brasileiro esmaga, tritura e joga fora, até aos mais encastelados ministros, desembargadores, promotores e procuradores que em sua altivez exigem ser chamados de Excelência, e negam ao cidadão o mais simples dos direitos: ter orgulho de suas instituições judiciais.

4 pensou em “OLHOS ABERTOS

  1. Deu sorte. Pior seria se tivesse caído no STF. Só pela citação dia nomes de Zé Dirceu e Palocci você iria passar de demandante a demandado.

  2. Prezado amigo,

    Seja bem vindo ao imenso grupo dos engabelados por esse bando de filhos de uma puta gonorrenta chamada (ironicamente) de Justiça Brasileira.

    Essa merda toda, e carésima, só serve para amamentar abundantemente, e às nossas custas, multidões de juízes, desembargadores, procuradores, auditores, corregedores, controladores, ouvidores…Todos de nada com coisa nenhuma.

    Por mim, QUANDO (agora é só uma questão de tempo) os militares tomarem as rédeas desta latrina chamada Brasil de novo, deveríamos fazer como Mao Zedong fez na China: mandá-los todos irem plantar batatas no alto sertão do Nordeste, a fim de darem valor àquilo que comem.

  3. Devem ser as trocentas varas de que o Goiano fala. Todas para ……………………………………………….pescar.

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