MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Você sabe o que acontece ao se misturar um oxidante com um metal alcalino? Quem estudou química sabe a resposta, e provavelmente dirá que não é uma boa idéia. Mas note o seguinte: a química não é contra nem a favor dos oxidantes, nem a favor ou contra os metais alcalinos. Ela simplesmente descreve as consequências, e cada um é livre para decidir o que fazer.

A economia também é uma ciência, e como ciência não é contra nem a favor do livre mercado, do capitalismo, do socialismo ou do que quer que seja. O que a economia faz é mostrar as consequências de cada escolha, baseando-se em conceitos lógicos (que vêm da teoria) e empíricos (que vêm da observacão prática).

Um conceito lógico: se determinada coisa é finita e ao mesmo tempo é disponível de graça, em algum momento esta coisa vai acabar e alguém vai ficar sem. Em economês, diz-se que a demanda superou a oferta. Para evitar isso, a sociedade criou o Mecanismo de Preços.

Vamos imaginar um açougueiro: cada boi que ele recebe do frigorífico tem uma certa quantidade de picanha e uma certa quantidade de fígado; não dá para mudar isso. Se o açougueiro vender picanha e fígado pelo mesmo preço, provavelmente a picanha vai acabar muito antes, e o figado vai “encalhar”. A solução? Aumentar o preço da picanha e diminuir o preço do fígado. Isto fará com que algumas pessoas deixem de comprar picanha e comprem fígado: entre o mais gostoso e o mais barato, cada um decide o que é melhor para si.

Ou seja: para cada produto existe um preço que equilibra oferta e demanda. Se o preço for menor que este preço de equilíbrio, a demanda vai aumentar e vai faltar produto. Se o preço for maior que o preço de equilíbrio, a demanda vai diminuir e vai sobrar produto na prateleira.

Claro que no mundo real é mais complicado: há produtos que podem ser guardados e há produtos perecíveis (como a picanha). Há produtos cuja produção pode aumentar rapidamente, outros não (criar um boi demora tempo). Há produtos cujo consumo é totalmente voluntário e há produtos que as pessoas compram mesmo que o preço não seja o que elas gostariam (remédios, por exemplo). Há produtos que o consumidor quer “na hora” e aqueles que são encomendados com antecedência. Tudo isso afeta o equilíbrio oferta-demanda, que na verdade é um equilíbrio que está sempre mudando, e principalmente a velocidade com que o ajuste acontece: o preço da picanha oscila mais rápido que o preço dos smartphones e mais devagar que o preço do tomate e da alface.

Vamos ver agora a questão da redução da oferta: num ano, o tempo ajudou, o pasto estava bom e os bois engordaram bastante. Vai ter mais picanha e mais fígado, e o preço vai baixar. Duvida? Pense comigo: se um açougueiro não baixar, corre o risco de perder a freguesia para outro que baixou. Ahh, vão todos combinar para não baixar o preço? Possível, mas improvável: basta um não concordar para furar o esquema. Por outro lado, eles podem pedir para o governo tabelar o preço, aí fica bom para todos eles – e o povo, por alguma razão que eu não consigo entender, sempre acha certo quando o governo se mete na economia.

Só que no outro ano, o inverno foi brabo e acabou com o pasto; depois, não choveu. Os bois não tinham o que comer e não engordaram. Vai ter menos picanha. Solução de mercado: o preço sobe, e com isso “convence” algumas pessoas a trocarem a picanha por fígado, ou frango, ou macarrão. O que interessa é que a quantidade de gente que compra picanha diminua até igualar com a quantidade existente. Solução anti-mercado: o preço fica igual, a demanda também, e alguém vai ficar de mãos abanando.

As pessoas que acham que a lei da oferta e procura pode ser revogada costumam gaguejar neste ponto: Existem 200 pessoas no bairro que querem comprar um quilo de picanha, mas o açougue só tem 100 kg. O que o açougueiro faz? Vende para quem chegou primeiro? Guarda para os melhores fregueses? Decide quem merece mais? Faz um sorteio? Cria cotas por gênero e cor da pele? Distribui carnês de racionamento? Nada disso vai mudar o fato de que não há picanha para todo mundo. Isso sem falar na possibilidade de alguém notar que está faltando picanha, comprar tudo e guardar no freezer em casa.

Sobre o caso extremo de um furacão ou de uma greve dos caminhoneiros: A economia não trata de questões morais. Não é função da economia julgar se é correto ou não aumentar o preço em uma situação assim. O que a economia faz é mostrar as coisas como elas são: se a oferta foi reduzida, uma parte das pessoas vai ficar sem aquilo que quer. Para escolher quem vai comprar e quem não vai, qualquer critério será considerado justo por uns e injusto por outros. Um argumento a favor do critério do preço é que desestimula a formação de estoques desnecessários: na greve dos caminhoneiros muita gente que não precisava foi ao posto encher o tanque, e portanto alguém que precisava ficou sem. (Para quem acha que o governo deve “fazer alguma coisa”, eu só digo que achar que o governo sempre faz o certo é uma questão de fé, e fé não se discute)

Para concluir a história: fugir da lei da oferta e procura inevitavelmente causa a)desabastecimento ou b)produto encalhado. Isto não impede que os governos tentem fazer isso o tempo todo, e que muita gente apóie, achando que “desta vez vamos fazer certo”. Só resta lembrar a famosa frase de Einstein, que considera insanidade fazer a mesma coisa repetidas vezes e esperar resultados diferentes.

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