A chamada pelo berrante
A chuva fina que caíra por boa parte da noite, mesmo que neblina, dizia com odes poéticos, o que seria o amanhecer do dia seguinte. Vaqueiros, e talvez a boiada, conheciam bem o que aquela chuva significava.
A cena é rotineira onde se cria vacas e bois em rebanho. Quem viu por viver, sabe disso.
Pois, a madrugada chegou, trazendo aquele clima do conviver entre o homem e o boi que, inocente e desavisado, caminha para o abate – alguns bem que tentam fugir para o brejo. Mas, a sina será cumprida e, no outro dia acontece a transformação em costelas, alcatras, chambaris, rabadas, maminhas e filés – isso sem contar os pés , o bucho e as tripas que viram paneladas e mocotós, de acordo com cada região.
A claridade do dia, parecendo que fora combinado, aciona o berrante. Soprado com maestria mais que força, os bois que ainda dormitam se juntam numa manada a caminho do abate. Vã inocência.
O berrante chamou e juntou vaqueiros e bois
Assim como o ser humano, o animal, também tem o seu “anjo da guarda”. Bobagem pensar que Deus esquece os seres vivos da Terra. Pois é verdade que, vez por outra, através do que denominamos “percepção” – e, no caso de algumas espécies, o “faro e a audição” mais apuradas. É comum, algum boi – ou novilha – ser “avisado que está a caminho do abate, e não para o brejo, onde amainaria o calor matinal. E consegue fugir, tão logo escuta o ajuntador som do berrante. Embrenha-se mato à dentro, sem perceber que é um ato que nunca dá bom resultado.
O Vaqueiro vai atrás. Gibão de couro (do que outrora foi boi ou vaca), chapéu do mesmo material e um cavalo baio acostumado a correr entre espinhos, garranchos até que a presa desgarrada seja alcançada – laçada, para melhor definir.
Novilha em fuga sendo alcançada
Silêncio quebrado por um novo som do berrante. Na linguagem dos vaqueiros, a senha e o sinal denuncia a volta da novilha ao rebanho. Como sempre, vence o Vaqueiro, que contou com a ajuda do cão vira-latas acostumado a prestar aquele adjitoro nas fazendas.
O laço do Vaqueiro sinaliza o domínio – tanto quanto, o boné, o chapéu, a camisa com a propaganda, ou, um prato de comida significa o voto de quem nunca se alfabetiza e continua fazendo a assepsia com o sabugo.
Por meses, dias e horas o eleitor ouve também o som enganador do berrante – e desse som, poucos conseguem se livrar. Mesmo com montariua diferente, o “candidato” laça. Laça, soma ao rebanho e conduz ao abate.
Novilha alcançada e laçada
OBSERVAÇÃO: Tentei produzir uma parábola e me penitencio por não ter conseguido. A intenção era mostrar (ou tentar mostrar) o domínio que um Vaqueiro tem sobre o seu rebanho, que ao ouvir o som estridente, se reúne em manadas e caminha para o abate, em silêncio e cabisbaixo sem nunca reagir.
Provavelmente por falta de conhecimento (rotulado como analfabetismo), alguns bezerros e novilhas tentam fugir. Em vão. O Vaqueiro sempre conseguirá alcança-lo e o enfiará em meio a manada grande – virará picanha, chambaril ou alcatra.
Haverá necessidade de muito derramamento de sangue (sugestão e vaticínio de João Baptista de Oliveira Figueiredo) entre os garranchos e espinhos da mata seca da caatinga para que, um dia, a novilha ou o bezerro consigam fugir.




José Ramos, suas crônicas são simplesmente belas. Você escreve com o coração.
Valter, obrigado parceiro. Quem viveu, conviveu e escreve, tem a facilidade de sentar no banquinho e contar histórias e inventar estórias.