“Estou com medo do trovão!” Foi meu grito apavorado, após ouvir estrondos, na tarde de um domingo de sol, quando miinha mãe se encontrava deitada no seu quarto, de resguardo do filho caçula, Bernardo, com uma semana de nascido. Essa foi a minha reação de criança. Tremi de medo. Corri chorando para junto dela, que tinha Bernardo nos braços. Era o dia 17 de maio de 1955.
Poucos minutos depois, as comadres de mamãe e alguns amigos de meu pai, começaram a entrar na nossa casa, meio agitados, para contar ao meu pai, em voz baixa, a tragédia que tinha acontecido. Antes fossem mil trovões!
Minha mãe tinha uma afilhada querida, chamada NIDINHA, filha de Seu João Menezes e Dona Nenzinha, e casada com Romildo. NIDINHA estava com um mês de resguardo de um lindo menino, chamado Djair. Na tarde desse domingo, a jovem mãe resolveu caminhar um pouco, levando o filhinho nos braços. Ao seu lado, ia sua irmã Salete, de 9 anos, que segurava a sacola com pertences do bebê e uma sombrinha.
Passando pela fábrica de fogos do sogro, Seu PASSINHO, localizada na então Rua Djalma Dutra, hoje Rua do Fogo, NIDINHA parou para mostrar Djair ao avô. Só deu tempo mesmo de se sentar. Na mesma hora, houve a pavorosa explosão da fábrica, levando todos pelos ares, inclusive 6 empregados que se encontravam fazendo fogos. Nidinha morreu na hora. Seu sogro, o dono da fábrica, teve as pernas decepadas pelo tronco. Salete sofreu sérias queimaduras e o bebê, como por milagre, foi projetado a vários metros de distância, sendo encontrado em cima de uns pés de garrancheira, vivo, mas bastante queimado.
Foi providenciado um trem para transportar os feridos para Natal, num total de 16 pessoas, incluindo o dono da fábrica, que faleceu a caminho. Dizem que, mesmo sem as pernas, Seu Passinho não parou de se preocupar um só instante com os queimados, até dar o último suspiro.
Uma nuvem negra de fumaça cobriu o céu de Nova-Cruz. A cidade escureceu de tristeza. O luto se abateu sobre a cidade.
Não houve como evitar que Dona Lia, minha mãe, do quarto onde se encontrava com Bernardo nos cueiros, escutasse as conversas sobre o incêndio. Ficou em estado de choque, ao saber da morte da afilhada NIDINHA.
O bebê queimado precisava mamar. Somente ela dispunha do leite que lhe atenuaria o sofrimento e contribuiria para lhe salvar a vida. O instinto materno falou alto e ela pediu que lhe trouxessem Djair para mamar no seu seio.
Foi um dia de juízo.
O trauma sofrido por Dona Lia teve sérias consequências. Poucos dias depois do sinistro, foi acometida de uma grave tromboflebite na perna direita, tendo que ser transportada para Natal, onde permaneceu acamada durante 30 dias, em tratamento médico especializado.
Djair cresceu saudável, mas, até ficar rapaz, uma vez por outra, aparecia em seu corpo pequenos tumores infectados, que escondiam vestígios de felpas de madeira. Mora hoje, na Paraíba.
Salete Menezes, minha querida amiga, escapou por um triz. Hoje é casada, tem dois filhos lindos, e mora em Recife (PE).
Essa triste recordação ainda me apavora, nas noites de chuva e trovoada.