Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pendões ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,
Mares onde não cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lanças nuas em rútilos lampejos;
Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!
E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)
Este soneto é da época do amor ao Alferes, que viajava parte do mundo, navegando de porto em porto (quanto ciúme), enquanto Florbela era a única que tinha na alma Portugal.
“Lanças nuas em rútilos lampejos”. Um jeito sutil de descrever uma farra sexual.
Esta é a diferença da Florbela para o pornográfico Bocage.