JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Angico transformado em Senadinho

O forte aroma da floração primaveril do angico tangido pelo vento era um convite para alguns sentarem à sua sombra e usufruírem do local, usando como assentos os cambitos e as cangalhas.

Era ali, também, que o jumento “Feliciano” e o burro “Dourado” descansavam e aproveitavam para ruminar suas rações de capim misturadas ao milho e colocadas à disposição.

Uma gamela com água, também aproveitada pelas galinhas transformava o desenho imaginário do local numa fazenda. E não era uma fazenda. Era a casa de Raimundim de Maria de Horácio – onde também morava uma reca de meninos, todos “descobertos” no calor dos galanteios das duradouras noites de lua cheia.

Era ali usufruindo da sombra do angico, que se reunia o “senadinho” do lugar. Era onde se sabia de tudo e, também, onde se resolvia tudo. Desde o início da colheita do feijão ou do milho de cada roça cooperativada, até o plantio da maniva, ou carpina interativa e coletiva da vazante – quiabo, melancia, batata doce e alguns pés de abóbora.

Debaixo daquele angico era também onde se abatia, limpava, cortava e vendia o porco, o bode, o carneiro ou o boi para o consumo da comunidade. Lavagem e limpeza de vísceras não eram permitidas para evitar a proliferação de moscas, ratos e outros insetos roedores. Enfim, aquele angico tinha o mesmo papel que hoje tem o shopping ou a Associação Comercial de cada cidade.

Nas tardes de sábado o local era preparado para receber um encerado de caminhão, enquanto a sanfona de Seu Tôquim animava e promovia gratuitamente o melhor forró pé-de-serra dos arredores.

Com o suor escorrendo pelo sovaco e pescoço ensebados, homens e mulheres se grudavam, e alguns casais envolvidos, continuavam dançando sem perceber que o frege terminara. Sanfona, fole, pandeiro, triângulo e um bumbo furado, que servia apenas como cenário, pois não emitia qualquer som.

Nas manhãs de domingo, a feirinha comunitária. Macaxeira, farinha seca, rapadura, galinha da terra, peru, carne de boi, de porco e de bode. Fumo, cachaça e até comprimidos para qualquer meizinha.

De tarde, o local se transformava com a chegada do rádio Transglobe à bateria, para a transmissão do jogo no Maracanã ou Pacaembu nas vozes inconfundíveis de Jorge Cury, Doalcei Bueno de Camargo ou Fiori Gigliotti e ainda Waldir Amaral. Na Rádio Assunção Cearense, as vozes de Ivan Lima, José Santana, Jurandir Mitoso e alguns anos depois, de Paulino Rocha e Gomes Farias.

Na segunda-feira começava tudo de novo:

Coçar frieira na beirada da rede. Subir na árvore para fazer uma necessidade fisiológica tentando fugir dos porcos e das galinhas. Tomar banho nu no açude, jogando “galinha d´água”. Beber água fresca da quartinha. Surrão. Caganeira de chicote. Bicho de pé. Balançar na rede, tocando o pé na parede para escutar o ranger do armador. Pirão de farinha seca. Beber caldo no prato sem colher. Cheirar rapé e ao espirrar, dizer: “Armaria”. Cachimbo de barro. Amarrar sabugo de milho no pescoço do cachorro. Assoviar pra provocar o glu-glu do peru. Esperar o cântico do vem-vem e botar o angu para a graúna.

Matar a cobra e mostrar o pau.

Pescar no açude com anzol de alfinete. Caçar e pegar “mané-mago” (libélula) nas árvores. Atiçar cachorro vira-latas pra pegar teiú no mato. Passar creolina para matar bicho no lombo do cavalo. Acender a lamparina e andar feito alma com a dita cuja no meio da noite.

Deitar na sombra da catingueira. Cortar unhas das mãos e dos pés com canivete. Peidar dentro d´água na hora do banho no açude. Cangalha. Cambito. Chicote. Chifre pra aboio. Caranguejo uçá. Rapadura melada. Alfenim. Batida de cana. Manteiga de garrafa.

Leite mugido. Chiqueirar cabras e bodes. Camaleão. Rola-bosta. Cobra de duas cabeças. Besouro mangangá. Cavalo-do-cão. Sibite. Graúna. Bem-te-vi. Potó. Muçum de açude e de lagoa.

Debulhar milho e feijão. Plantar maniva. Raposa. Capote. Cabaça d´água. Terrina para água dos animais. Sal em pedra. Torrar café no alguidá. Mão-de-pilão. Pano de coar água no pote. Panariço. Gurgumio. Cajuína. Assar castanha no caco. Espinho de bananeira. Moita de mofumbo. Caminho d´água. Sabão Pavão. Óleo Pajeú. Grude na colher. Ferro à carvão para passar roupa. Anil e goma para camisa de cambraia de linho.

Viver. Cantar. Passar o anel. Brincar de manjô. Pião. Caçar passarinhos. Comer jumentinha. Montar a cavalo e campear o boi. Galo de campina. Alpargatas. Trempes. Pão sovado. Voo rasante da coruja. Rasga mortalha. Calango a galope. Cantoria. Cordel de mimeógrafo. Papel de embrulho. Lápis na orelha. Manteiga à retalho. Caderno de fiados. Bicada pra tomar banho e cusparada no pé do balcão. A “do Santo” na bicada. Tira-gosto de cajá umbu. Sirigüela inchada. Arapuca pra pegar sabiá. Foice. Pedra de amolar machado. Cabaça d´água. Beber água na caneca no mesmo cantinho que a velha babona bebia.

Era a vida da roça e do Senadinho do Angico. Continua sendo inté hoje!

8 pensou em “O SENADINHO DO ANGICO

    • Beni: a gente “veve” nele, travestido de outra fantasia – que só muda no carnaval, quando pomos no rosto a máscara negra. Não nos iludamos, jamais. Tudo vem de nós. Tudo nós que fazemos. Tudo nós que somos os responsáveis. E tudo começa dentro de nossas casas – mas, preferimos culpar outras pessoas.

  1. Sinceridade : gostaria que o pessoal da roça (todos ) tivessem fartura em suas mesas , água a vontade , energia elétrica com tudo que ela trás e move , enfim uma vida mais digna e menos sofrida . Mas que em troca preservassem a cultura própria de cada lugar , a beleza ( que todo lugar tem ) e o respeito , sem o qual nada disto seria possível. Vivi uma parte do descrito , em apenas quatro meses no sertão da Bahia . Experiência incrivelmente maravilhosa que nunca mais pude fazer . Saudades !. Beleza de texto !.

    • Joaquim: posso garantir à você que, mesmo na região nordeste, as coisas e os valores mudam de um Estado para outro. Se no Maranhão preferimos mariscos, peixes, crustáceos e afins, ao lado, no Piauí, preferem caprinos. Os hábitos culturais da diversão, também vivem momentos diferentes. Sem essa de a NASA precisa nos estudar. Não. Nós que precisamos nos conhecer, transmitir aos nossos descendentes, ainda que por osmose, para melhorar nossa riqueza de conhecimentos.

  2. Zé e sua maravilhosa poesia sem rima…

    Viver. Cantar. Passar o anel… Ops, Sancho não brinca desse negócio, pois anel é algo a não se passar para ninguém…kkkkkkkkkkkkkkk

    Quanto ao cenário fantástico, muito diferente do Sul por onde sempre viveu Sancho, não me furto a comentar que o Quixote Véi di Guerra me proporcionou, de passagem pelas estradas, muito do cenário descrito, vislumbrado como um quadro a se formar diante do para-brisa do caminhão.

    Para quem não conhece, quando subimos o mapa, já encontramos paisagens idênticas, ainda no SUDESTE, ao chegar ao norte de MG, entrando no NORDESTE ao subir a BA, ´percorrendo todo o chão nordestino, de “angico a angico ou similares”, mudando um pouco a paisagem quando chegamos aos estados do Norte.

    Abraço imenso, imenso Zé…

  3. Que texto espetacular. Retrato do meu lindo e querido nordeste.
    Viajei muito por vários estados da região, nos anos 70 a 90…
    Muitas saudades. Conheci muita gente boa, muita gente legal.
    Parabéns!!

    • Patriota: obrigado amigo. Não tenho ídolo político. Nunca tive. O meu ídolo maior é Deus e, depois dele, o Brasil. Seja do interior de Santa Catarina, da beirada do Rio Juruá no Amazonas, da orla marítima da Bahia ou Ceará ou ainda, de cada cidade do Mato Grosso. No Exército, onde servi ao meu país como soldado, aprendi que o Brasil é um só, independentemente de quem esteja no comando. Vamos que vamos, hoje com Bolsonaro, mas amanhã seja com quem Deus quiser.

Deixe uma resposta