XICO COM X, BIZERRA COM I

O portão permanecia aberto, mas o cachorro teimoso não se atrevia a sair. O trânsito era intenso e Tupã, esse o seu nome, tinha medo dos automóveis malucos que não respeitavam os cães. Isto e sua fidelidade a Zé o impediam de sair. Mas era junho e ele já estava nervoso com o foguetório que assolou sua rua naquele período, agoniando animais, velhos e até crianças não acostumadas com tanta zoada nos ares.

Mas era São João e as bombas faziam parte da festa, tanto quanto as fogueiras e as comidas de milho. Falta faziam os silenciosos peidos de véia e traques de massa dos meus São Joões antigos. Não bastasse a zoada toda, eis que surge, não se sabe de onde, uma música da mais reles qualidade, de abjeta categoria, interpretada por autodenominados universitários que nunca tiveram assentadas suas bundas numa Universidade e por Sertanejos que sequer suspeitam para que lado fica o Sertão.

Foi demais. Muita zoada para ouvidos tão sensíveis. Tupã não resistiu, aproveitou o portão aberto e, aí sim, saiu. Desviou dos automóveis malucos e foi-se esconder num lugar longe, sem bombas e sem música ruim. Sábio Tupã. Não à toa o cachorro é considerado o mais inteligente dos animais. Mais, até, que alguns humanos que soltam bombas e sujam os ouvidos com o que há de pior na ‘trilha sonora’ do São João de hoje. Nessa noite Zé não dormiu, com aquele barulho todo e, principalmente, com saudade de Tupã, seu fiel cão.

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  1. Afinal, mestre Xico, o tal do Tupã foi-se de vez? Ou já voltou? Escrevi essa frase e lembrei de Emilio de Menezes. Morreu um amigo dos dois, conhecido como Enchada. E Emílio mandou telegrama a seu confrade Machado de Assis, presidente da Academia Brasileira de Letras, – “ Machado, enchada foi-se “ .

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