DEU NO JORNAL

Madeleine Lacsko

Janja e Lula publicaram nas redes sociais um vídeo de Páscoa fazendo um churrasco de paca. Não vou nem entrar na seara de não falar de Jesus no principal feriado cristão ou da ausência de família na cena. Fico apenas na paca. Como explicar a escolha? No melhor cenário possível, é a versão tupiniquim do “comam brioches” de Maria Antonieta. A paca é uma carne caríssima mostrada a um país de famílias endividadas para quem Lula prometeu a picanha que jamais entregou. Na pior das hipóteses, poderia ser um crime ambiental.

A legislação brasileira trata animais silvestres de forma bem restrita e proíbe caça, captura e comercialização sem autorização. A Lei de Crimes Ambientais prevê detenção de seis meses a um ano e multa para quem utiliza espécie silvestre sem a devida permissão. A única saída jurídica é a origem comprovadamente regular, por meio de criadouros licenciados e registrados. No vídeo, essa origem da paca não foi especificada. Depois, nos comentários, Janja disse que a carne de paca teria vindo de produtor legalizado. Não apareceram até agora a nota fiscal da compra, o documento de origem do produtor legalizado e nem mesmo um produtor que assuma o fornecimento. Ficou por isso mesmo.

Suponhamos que apareçam os documentos que garantem a legalidade do churrasco de paca. Mesmo nessa hipótese mais favorável existe desgaste político no episódio. Exibiu-se uma carne de luxo para um país onde a promessa de campanha foi picanha na mesa. A picanha não chegou na mesa do povo, mas chegou carne rara na mesa do presidente.

Luisa Mell se meteu na história. Disse que assistiu ao vídeo várias vezes para ter certeza do que estava ouvindo. Perguntou “qual o objetivo dessa porcaria, Janja?” e classificou o episódio como uma “irresponsabilidade inacreditável”. O ponto levantado por ela não se resumiu à legalidade. Mesmo que a carne de paca tenha vindo de criadouro autorizado, é absurdo expor o consumo de paca como cena simpática de feriado em um país que convive com tráfico de animais e fiscalização precária. O gesto que banaliza uma cadeia delicada e dá verniz doméstico a um consumo que, pela própria escassez de criadores legalizados, continua sendo elitista, raro e cercado de ambiguidades.

Houve denúncias ao Ibama, ao Ministério Público Federal e à Procuradoria-Geral da República. O caso chegou ao Congresso. O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, pediu ao Ministério do Meio Ambiente apuração da origem do animal e eventual aplicação de sanções. O Ibama não se pronunciou. Estamos mais uma vez diante do ritual brasileiro da seletividade.

Muita gente lembrou do caso da capivara Filó, em 2023. O influenciador Agenor Tupinambá foi multado em R$ 17 mil, obrigado a entregar o animal e a retirar conteúdos das redes sociais. O próprio Ibama publicou nota dizendo que ele fora autuado por diversos crimes ambientais, entre eles abuso contra capivara e manutenção em cativeiro para obtenção de vantagem financeira. Agenor não comeu a capivara, cuidou dela.

A pergunta inevitável é o que aconteceria se Michelle fizesse churrasco de paca para Jair Bolsonaro. Tenho algumas apostas. O Ibama chegaria segundos depois da postagem do vídeo, antes mesmo de comerem o churrasco. Luisa Mell não estaria sozinha. Artistas gravariam videozinhos emocionados falando da família da paca, da crueldade, da irresponsabilidade ambiental. A militância faria uma hashtag em defesa das pacas.

Especialistas seriam convocados para explicar que a espécie tem baixa taxa reprodutiva. Influenciadores progressistas chamariam o episódio de pedagogia fascista do abate. A imprensa nacional sairia em peregrinação cívica atrás do criadouro, da licença, do CPF do tratador, da guia de transporte, do fiscal que assinou, da avó da paca e, se preciso, do mapa astral do bicho. O consumo de um animal silvestre viraria retrato do bolsonarismo profundo, metáfora da brutalidade nacional e prova cabal de que a extrema direita quer devorar até os pobres bebês pacas, tão fofos e indefesos.

O episódio da paca interessa menos pelo cardápio do que pelo teste institucional que ele oferece. A lei é a mesma, os órgãos são os mesmos, a imprensa é a mesma, os artistas são os mesmos, a militância é a mesma. A diferença aparece no zelo, na urgência e no apetite para fiscalizar. Continua sempre atual a frase emblemática de Danilo Gentili, dita em uma entrevista comigo anos atrás: “Não é o que faz, é quem faz”.

7 pensou em “O QUE ACONTECERIA SE MICHELLE FIZESSE CHURRASCO DE PACA PARA BOLSONARO?

  1. ”’ Não vou nem entrar na seara de NÃO FALAR DE JESUS no principal feriado cristão ou da A.U.S.Ê.N.C.I.A DE FAMÍLIA na cena. ”’
    .
    Religião, pràquê ?
    só pensam em DEUS e em SEU FILHO ‘pensando’ em dividendos eleitoreiros !
    deboche verdadeiro !
    FAMÍLIA ?
    qual? têm uma? de VERAS? onde? quando? como?

  2. Essa Madeilene que escreve acima é aquela moça que, em 2019 afirmava que existia um gabinete do ódio dentro do governo Bolsonaro. Ela, junto do tal de Luciano Ayan, o Frota e a Joyce forçaram o STF a abrir o tal inquérito das Fake News, que proporcionaram todo o poder dado aos ministros, a soltura do Descondenado e as consequências que hoje sofremos.

    “Foi por uma boa causa” diria a rapariga.

    Pois é.

    • “Foi por uma boa causa”, dizem elas.
      Diz a Lacsko: “Estamos pagando a conta de ter colocado em posição de liderança uma série de pessoas que não têm a menor vocação para liderar”.
      La Física Cuántica celebra su día mundial: el 14 de abril se designó como la jornada elegida a raíz de la Constante de Planck. E os alunos brasileiros não fazem a mínima ideia do que se trata, afinal, sala de aula brasileira é, em uma grande parcela, espaço para aprender socialismo, petismo e progressismo…

    • Que eu me lembre, é a terceira vez que a Madeleine aparece aqui no JBF e é a terceira vez que o João repete o mesmo ad hominem (ad feminam, no caso).

      Será ele descendente dos Bourbon espanhóis, que, como dizia Valle-Inclán, “nunca aprendem nada mas também nunca esquecem nada”?

  3. Nem é preciso pensar muito; tem precedente. Não me refiro ao ridículo caso da baleia. No início do seu governo, o Presidente Bolsonaro foi a um pesque-pague e pescou um tambacu (eu acho) de 18 k. O site UOL noticiou o fato em tom de horror e indignação com a morte do peixe. Parecia um homicídio. Não me lembro de ter visto algo parecido no caso da paca (que aliás é deliciosa; já comi na beira do Araguaia… ) Alguns são mais iguais …

  4. O traste de Garanhuns, mancomunado com outros iguais, acha que pode tudo. Na Páscoa comeu paca, um animal silvestre, mas ele gosta mesmo é de robalo.

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