Guilherme Fiuza

A proposta de uma punição letal contra um opositor passou quase sem reação. Para o presidente, o custo foi baixo
Lula disse que o senador Flávio Bolsonaro merece ser enforcado como traidor da pátria. Não foi uma gafe — como alegou o presidente quando disse que traficantes são vítimas dos usuários de drogas. Na ocasião, houve uma espécie de desmentido — ou seja, a versão oficial foi de que não era sua intenção dizer aquilo.
Muitos dizem que não faz diferença. Que se trata, no mínimo, de um ato falho — ou seja, alguém expressar sem querer aquilo que realmente acha. E a fala fica ali, registrada em vídeo e repetida inúmeras vezes em diversas mídias, “testemunhando” o que realmente foi dito. De qualquer forma, faz muita diferença quando há um desmentido ou uma alegação de mal-entendido.
Dessa vez, ao que se saiba, não houve nada disso. Nenhuma atenuante surgiu no radar; nem mesmo uma dessas “fontes próximas” procurou mitigar o ataque, alegando qualquer coisa, até mesmo um momento de destempero. Nada. Segundo Lula, Flávio Bolsonaro merece a forca. E ponto final.
Nesse aspecto, as coisas estão estranhas, bem estranhas mesmo, em torno dessa fala do presidente da República sobre seu (até aqui) principal concorrente eleitoral.
Cada época tem o seu contexto — que determina a dimensão do ato agressivo. Quase três décadas atrás, por exemplo, o ex-governador Leonel Brizola declarou que o então presidente Fernando Henrique Cardoso deveria ser “metralhado”. O país tinha acabado de passar pela maxidesvalorização do real após a crise da Rússia, e o nascente segundo mandato de FHC no Planalto estava sob ataque de todos os lados.
Brizola era um retórico — um político habituado a usar linguagem figurativa, licenças poéticas e diversas expressões espirituosas que caíram na boca do povo. E, depois de fazer barba, cabelo e bigode na política com o Plano Real, adquirindo força inclusive suficiente para colocar a reeleição na Constituição — a tempo de se beneficiar da mudança —, FHC estava no alvo. Qualquer vereador, naquele momento, tinha o seu petardo na agulha contra o presidente.
Mesmo com a conjuntura acima descrita, que de certa forma atenuava (ou pelo menos contextualizava) o ataque de Brizola, a declaração leviana do ex-governador teve ampla repercussão — e recebeu ampla rejeição na sociedade. Fernando Henrique tinha por hábito não passar recibo, não reclamar do noticiário e não judicializar seus conflitos. Mas os tempos eram outros.
Hoje existe a hipersuscetibilidade geral. Existe a indústria dos ofendidos. E existe a alegação de combate ao “discurso de ódio” para cercear a crítica — mesmo aquela que não seja mero exercício do ato de odiar. Ou seja: hoje todos estão pisando em ovos para se expressar publicamente, para dirigir uma reação pertinente a alguma autoridade ou instituição, porque se normalizou a demonização da crítica. Frequentemente, no estranho padrão atual, criticar é afrontar a democracia…
E enforcar? O que seria?
Nada. Pelo menos a julgar pela suavidade com que a declaração de Lula foi assimilada pela sociedade. O presidente da República declarou, furiosamente, aos palavrões, quase aos berros, que seu principal concorrente eleitoral merece ser punido com a forca. Será que voltamos para 1999?
Mesmo em 1999, a tirada mórbida de Brizola pareceria um afago perto da declaração pensada e calculadamente proferida por Lula. O presidente chegou, inclusive, a conclamar os brasileiros a “meditarem” sobre o que ele estava dizendo.
A sociedade, o Estado e as forças de coerção, tão rigorosos com qualquer adjetivo mais azedo, deixaram passar essa. A proposição de um ato de violência contra um opositor, revestida pela ideia de punição com uma medida letal que não está na lei, saiu bem barata para o presidente. Pelo menos até aqui, pode-se dizer que a “regulação” das mentes tem suas exceções especialíssimas.