Todos têm acompanhado, com estarrecimento, o que vem acontecendo nos debates políticos no Brasil. Entende-se o clima de desespero, quando o cidadão se sente impotente diante de um sistema podre e carcomido. No afã de promover uma mudança por meio das eleições, muitos colocam como única prioridade a derrota de Lula e seu PT, o que é, sem dúvida, o desejo de todo brasileiro decente. Não obstante, esse objetivo vem turvando a razão de muitos e impedindo qualquer tipo de diálogo construtivo.
Confunde-se o papel de cada um, com uma cobrança de que veículos independentes de comunicação se tornem somente máquinas de propaganda para determinado candidato. Não é papel da mídia o de defender político “até debaixo d’água”. Se houver qualquer tipo de questionamento acerca de um potencial escândalo “do lado de cá”, logo surge o rótulo de “traidor” ou “vendido”, quiçá “petista”. É como se jornalistas tivessem que abandonar qualquer senso crítico e virar apenas relações públicas de um candidato, fazendo vista grossa para todos os seus defeitos e malfeitos.
Não se pode ter político de estimação na mídia. Não há qualquer razoabilidade em tomar partido cegamente, pois o “partido” de jornalistas independentes é o Brasil. E jamais um jornalista sério pode transigir com corrupção. São valores básicos que vêm sendo esquecidos e ignorados por aqueles que exigem uma postura de militância em vez de opinião séria.
Os canais independentes não são a reunião de um grupo de militantes. Jornalistas de verdade não têm a pretensão de “tornar o mundo melhor”. Muito menos seguindo parâmetros equivocados, uma visão particular. Não somos seres superiores, supremos, iluminados. Não somos “consertadores” do mundo, educadores, tutores, que sabem o que é melhor para todas as pessoas, para o país, para o planeta.
Abominamos a arrogância, a soberba, a prepotência. Uma pessoa inteligente é, necessariamente, uma pessoa humilde. Quem não é humilde vai sempre distorcer a realidade, já que ignora as referências corretas, já que enxerga tudo como deseja, já que adota “verdades próprias”. A função do jornalista não é bancar Deus. Portanto, um jornalista vaidoso, que não tem humildade, ele deixa de ser jornalista, ele se anula, ele se destrói.
Como explica Lacombe, um jornalista que tem, de antemão, a resposta para tudo, sem precisar perguntar, sem precisar promover o debate, abrindo mão da curiosidade e da desconfiança, não é jornalista. Aquele que se opõe ao mundo real, às experiências já vividas não é um jornalista. Aquele que se entrega a ilusões, a mentiras, a utopias é alguém que aceita ser enganado e, para piorar, que aceita enganar os outros.
Os jornalistas independentes não se acham mais importantes do que as informações, do que o conteúdo que entregam. A notícia será sempre a estrela. Temos a humildade necessária para questionar, questionar muito, nos entregar avidamente aos fatos, não nos deixar pautar por nada que não seja a busca pela verdade. Jornalista que se deixa pautar não pelos critérios profissionais, mas por interesses políticos, corporativistas, mercadológicos ou financeiros deixou de fazer jornalismo.
Lacombe lembrou bem, no Programa 4por4 de domingo, o caso envolvendo o laptop de Hunter Biden, filho do ex-presidente Joe Biden. A mídia tentou abafar o caso pois considerava o objetivo de derrotar Donald Trump mais importante. Não só fracassou em seu intuito, como matou o jornalismo no processo. Não se manipula informações dessa forma impunemente, e não se muda a realidade metendo a cara na areia como um avestruz.
Daí a importância desses veículos rejeitarem qualquer verba pública ou partidária. São os assinantes, o público, a audiência quem paga a conta, em busca de informação verdadeira e análise honesta. Defendemos a liberdade de expressão, de manifestação, de imprensa. Defendemos, principalmente, as liberdades individuais. Sabemos o que é crítica, o que é opinião e queremos sempre defender o debate. Não somos infalíveis, é claro. Entendemos a nossa responsabilidade e, se erramos, devemos de alguma forma fazer as correções necessárias e nos retratar.
Um jornalismo que tem uma causa, que é militante, é refém de si mesmo. O interesse de um jornalista deve ser sempre divulgar fatos, contar histórias reais, da forma mais clara, mais objetiva e mais atraente e cativante possível. Se isso for substituído pelo objetivo de eleger um candidato X ou Y, deixamos de fazer jornalismo para virar cabo eleitoral de político, o que é simplesmente absurdo e imoral. Cada jornalista pode ter sua preferência, claro, e inclusive externá-la ao público, mas sempre com o compromisso de analisar os fatos, doa a quem doer. Jornalista não “passa pano”.
Os veículos sérios e independentes, como a Gazeta do Povo, fazem e farão sempre jornalismo profissional, num ambiente de liberdade, com respeito aos fatos, às leis, a princípios éticos e morais, com responsabilidade, transparência e honestidade intelectual. É isso que cada um de vocês pode esperar e cobrar de nós, sempre. Sem esse esforço constante de buscar a verdade, e não um mero resultado eleitoral, troca-se o foco no longo prazo por uma visão míope e prejudicial ao verdadeiro jornalismo. Não contem conosco para fazer mera militância partidária ou defender político até embaixo d’água. Contem conosco para sempre dizermos o que realmente pensamos, pois esse é nosso compromisso com nosso público qualificado, que merece nosso respeito.