VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

Como toda cidade do interior nordestino, Nova-Cruz (RN) tinha seus tipos folclóricos, como o bêbado, o jogador contumaz de carteado, o mentiroso nato, o gaiato, o pidão caloteiro, que não pagava nem promessa a santo, o cachaceiro, o corno confesso mas apaixonado, conhecido como corno manso, e o viciado em jogo do bicho.

Certo dia, Seu Anísio, o entregador de pão em Nova-Cruz (RN), que, todas as tardes, com um enorme cesto na cabeça, fazia a entrega de pão quente de porta em porta, inclusive na casa da minha avó paterna, Dona Júlia, acertou no jogo do bicho. A notícia se espalhou…

Eu era menina e todas as tardes aguardava com ansiedade a chegada do pão, abicorando, com a certeza de que a minha avó iria me dar um pão doce, como sempre fazia. Eu adorava esse pão doce, bem diferente dos pães doces sofisticados de hoje, que só tem boniteza.

Pois bem. Seu Anísio, o entregador de pão, gostava de fazer uma fezinha no jogo do bicho, coisa pouca, no grupo e na milhar. Raramente acertava, mas quando isso acontecia, a alegria era grande. O melhor do jogo é ganhar.

Pela primeira vez, seu Anísio arriscou jogar uma nota graúda de 20 cruzeiros, pois o palpite foi forte e ele tinha certeza de que iria acertar. Depois de passar a noite sonhando com muito pão espalhado pela rua, Seu Anísio pulou da rede logo cedo e se organizou para “arriscar na sorte”. Sentia que o universo iria conspirar a seu favor.

Acertou no TIGRE, no grupo e na milhar. Para ele, que só jogava alguns trocados, foi um dinheiro bom, que lhe garantiu a feira do mês.

Todos os seus conhecidos quiseram saber quem lhe deu o palpite. Reticente, ele, aos poucos, contou que o palpite veio de um sonho que ele teve na noite anterior.

Contou que havia sonhado que a rua onde morava estava cheia de pão, espalhado pelo chão. Era pão que não acabava mais. Como pão é feito com farinha de trigo, Seu Anísio interpretou que o bicho seria tigre, ou “trigue”, como ele chamava.

Tratou logo de ir jogar no grupo e na milhar. Decidiu que naquele dia o bicho seria tigre, ou “trigue”, como ele chamava. E arriscou todas as moedas que tinha em casa no “TRIGUE”.

Um amigo lhe perguntou de onde ele tirou esse palpite. A resposta foi rápida:

– Ora, homem de Deus, eu sonhei a noite toda com a minha rua cheia de pão, espalhado pelo chão. Era pão que não acabava mais. Como o pão é feito de farinha de “trigre”, o bicho tinha que ser “Trigre”. Aí joguei no “trigre, 22”..

A notícia se espalhou e todos os dias, pela manhã, chegava alguém batendo palmas em sua casa, pedindo-lhe palpite para jogar no bicho.

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