Existem civilizações que sucumbem à espada. Outras, ao fogo. Algumas são esmagadas pela fome, pela peste ou pela invasão estrangeira. O Brasil, contudo, parece ter escolhido um método mais sofisticado de autoflagelação: ser administrado por uma aristocracia do ócio e supervisionado por uma confraria de beócios convencidos de sua própria genialidade. Não é uma tragédia explosiva. É pior. É uma decomposição lenta.
Uma putrefação institucional conduzida por homens e mulheres que falam sem parar e realizam quase nada; que produzem montanhas de palavras para justificar grãos de resultados; que transformaram a burocracia numa religião e a ineficiência num modelo de negócios. Há séculos, filósofos advertiam que a ignorância é perigosa. Estavam parcialmente errados. A ignorância comum é inofensiva. O agricultor que desconhece astronomia continua produzindo alimentos. O pedreiro que nunca estudou filosofia continua erguendo paredes. O motorista que ignora latim continua levando pessoas ao destino.
Perigosa é a ignorância revestida de autoridade. Perigoso é o beócio que descobre uma cadeira de poder. Perigoso é o medíocre que recebe um carimbo. Perigoso é o incapaz que passa a acreditar que sua incapacidade se transformou em virtude apenas porque foi oficialmente reconhecida. A partir desse momento, instala-se uma patologia institucional. O sujeito deixa de buscar a verdade e passa a buscar apenas a preservação da própria importância. Sua missão não é resolver. É permanecer. Sua meta não é servir. É sobreviver. Seu compromisso não é com a realidade. É com a perpetuação da estrutura que o alimenta.
Nasce então a forma mais refinada de parasitismo: aquela que se apresenta como serviço público. Enquanto o cidadão acorda cedo para produzir riqueza, uma parcela da elite burocrática dedica seus dias a produzir obstáculos. Enquanto milhões trabalham para gerar valor, outros trabalham para gerar formulários. Enquanto a sociedade tenta avançar, eles aperfeiçoam a arte de impedir o movimento. Não por maldade. A maldade exige energia. E energia é algo incompatível com o ócio institucional. O que existe é algo muito mais deprimente: a indolência elevada à categoria de método administrativo.
O problema brasileiro não é apenas a corrupção do dinheiro. É a corrupção do tempo. Roubam-se anos. Décadas. Gerações inteiras. Uma obra que deveria durar dois anos consome dez. Uma decisão simples atravessa labirintos processuais capazes de fazer um arqueólogo envelhecer antes de encontrar a saída. Questões óbvias são submetidas a discussões intermináveis entre especialistas que frequentemente demonstram compreender menos a realidade do que o cidadão que aguarda na fila. E a fila, evidentemente, é sempre do outro. Jamais deles.
A beleza do sistema está precisamente em sua capacidade de converter fracasso em formalidade. Quando algo não funciona, cria-se um grupo de trabalho. Quando o grupo falha, cria-se uma comissão. Quando a comissão fracassa, cria-se um observatório. Quando o observatório não observa nada, produz-se um relatório. E quando o relatório comprova aquilo que todos já sabiam desde o início, convoca-se um seminário para discutir as conclusões do relatório que analisou os resultados da comissão criada para estudar o fracasso do grupo de trabalho. A esse espetáculo dá-se o nome de governança. Os antigos alquimistas tentavam transformar chumbo em ouro. Os modernos alquimistas institucionais transformam urgência em protocolo. Transformam simplicidade em procedimento. Transformam bom senso em jurisprudência. Transformam problemas concretos em debates abstratos tão longos que acabam sobrevivendo às pessoas afetadas por eles.
Enquanto isso, o cidadão observa. Observa porque não lhe resta alternativa. Observa o Estado exigir eficiência que ele próprio não pratica. Observa autoridades pregarem responsabilidade que raramente assumem. Observa discursos inflamados sobre igualdade pronunciados por indivíduos protegidos por muralhas de privilégios. Observa sermões sobre sacrifício vindos daqueles que jamais precisaram sacrificar coisa alguma. E talvez seja essa a maior ironia nacional. Os verdadeiros sustentáculos da República raramente aparecem nos retratos oficiais. São os que acordam às cinco da manhã. Os que enfrentam ônibus lotados. Os que abrem pequenos negócios. Os que produzem, ensinam, constroem, dirigem, cultivam, consertam e trabalham. A nação continua existindo não por causa dos seus administradores, mas apesar deles. É um milagre estatístico. Uma anomalia histórica.
Uma demonstração de que a capacidade de resistência do povo brasileiro desafia qualquer modelo matemático conhecido. Porque, se dependesse exclusivamente da lucidez dos ociosos e da competência dos beócios, o país já teria sido transformado há muito tempo em um gigantesco museu dedicado ao estudo do fracasso. Mas há algo ainda mais perturbador. Os ociosos sabem que são inúteis? Os beócios percebem sua ignorância? Provavelmente não. A estupidez raramente reconhece a própria imagem no espelho. Essa é sua característica mais notável. O tolo acredita possuir respostas para tudo. O sábio, ao contrário, desconfia até de suas certezas. Por isso a história costuma ser cruel. Não com os sábios. Com os arrogantes. Porque o tempo possui uma qualidade que tribunais, parlamentos, gabinetes e repartições não possuem: ele não se impressiona com cargos.
O tempo não respeita títulos. O tempo não teme discursos. O tempo apenas observa. E registra. Registra cada oportunidade desperdiçada. Cada reforma adiada. Cada problema empurrado para a próxima geração. Cada mentira transformada em política pública. Cada vaidade travestida de virtude. E quando finalmente a poeira dos séculos baixar sobre os arquivos da nação, talvez reste apenas uma conclusão devastadora: O Brasil nunca foi pobre de recursos. Nunca foi pobre de inteligência. Nunca foi pobre de talento.
Foi, muitas vezes, governado por uma abundância obscena de ócio onde deveria haver trabalho, por uma abundância obscena de beócios onde deveria haver sabedoria e por uma abundância obscena de vaidade onde deveria haver serviço. E nenhum império, nenhuma república e nenhuma instituição sobreviveram indefinidamente quando a mediocridade passou a acreditar que era genialidade e a preguiça passou a se apresentar como virtude.
Caro Maurino.
Só este seu parágrafo de abertura já definiu o pensamento da maioria absoluta dos brasileiros.
Só achei que nossa queda está sendo veloz e não lenta.
Um abração por mais uma aula de “Atualidade Brasileira”.
Carlos Eduardo
Mas há algo ainda mais perturbador. Os ociosos sabem que são inúteis? Os beócios percebem sua ignorância? Provavelmente não. A estupidez raramente reconhece a própria imagem no espelho. Essa é sua característica mais notável.
Ociosos e beócios me conduzem a uma parcela da população que bem exemplifica seu espetacular texto (algo já rotineiro. Tanto tempo Maurino ficou nesta gazeta apenas como eventual comentador e escondia de nós a excelência que agora nos brinda semanalmente). Bom, depois dos confetes, retorno aos beócios e ociosos do fut, que creio não terem sido citados pelo cronista em virtude de seu pouco apreço pelo esporte Bretão.
Sigamos: deixa-me pasma torcidas organizadas que, após uma derrota, uma perda de pênalti (ah, Memphis Depay), uma eliminação de competição, unem-se e vão, de sangue nos olhos, até jogadores, dirigentes e picham, ameaçam, esbravejam, gritam, quebram, agridem, mas nunca testemunhei tais valentões (beócios, ociosos) indo com gana semelhante a prefeitos, governadores e presidentes com as mesmas cobranças por resultados, mesmo quando estes são, usando a gíria do futebol, pernas-de-pau, bagres, perebas, pés de rato, tiriças ou pangarés.
Em tempo, deixo claro, que esta pacífica idosa, em nenhum momento deseja que qualquer autoridade deste país seja agredido fisicamente (agressão nunca foi solução), pois apenas estou exemplificando a bovinidade e incompreensível paciência do brasileiro diante do espetáculo grotesco da corrupção de governantes (municipais, estaduais e federal), sem nenhuma cobrança da sociedade para que sejam tais entes exemplos de honradez competência administrativa e virtuosismo durante os mandatos.
No mais, desejo que o bom Deus se apiede do Brasil e que as urnas outobrinas (votar certo será sempre a melhor solução) nos conduza a dias melhores, a partir de 2027.
Um beijo da véia e uma péssima constatação: o escritor vira escravo do próprio texto, pois sempre o próximo terá que superar o anterior. Sorte nisso, meu querido escritor
Termino deixando um beijão pro portuga Abel Ferreira e para minha amiga Leiloca (Leila Pereira), que conduz o Palestra Itália ao sucesso desde que passou a chamar de seu o verde Porco de Sampa.
Hoje a corintianíssima Matilde exalta o Palmeiras, único de São Paulo que prossegue nas competições da Conmebol.
O meu Corinthians foi eliminado? Claro que não! Apenas desistiu da competição, pois verificou que a sala de troféus está lotada, sem vaga para mais um caneco. E já iniciou as obras para aumentar a sala e começar, em 2027, a ganhar tudo que vem pela frente. kkk
Carlos Eduardo e Matilde, meus nobres, suas palavras me chegam como uma dessas raras gentilezas que não apenas afagam o ego de quem escreve, mas sobretudo o estimulam a continuar. Recebo-as, portanto, com sincera gratidão e com a alegria de descobrir que aquilo que lanço ao papel encontra, do outro lado, olhos atentos e espírito crítico.
Quanto aos nossos estimados “beócios e ociosos”, talvez vocês tenham tocado justamente no ponto mais curioso da questão: há espelhos que, por alguma misteriosa deficiência de fabricação, jamais devolvem ao observador a imagem que deveriam. E talvez seja essa uma das mais curiosas ironias da condição humana.
Brincadeiras à parte, agradeço imensamente o carinho, a generosidade e a leitura tão atenta. Saber que meus textos passaram de uma eventual aparição às companhias semanais é, para mim, uma distinção que recebo com humildade e enorme satisfação.
Muito obrigado por estarem por aqui — e por tornarem este pequeno espaço de palavras ainda mais interessante com a suas presenças.
O banqueiro Daniel Vorcaro – que o amigo Flavio tratava como mermão – chamou Jair Bolsonaro de “beócio” e “idiota” em mensagens de julho de 2024 obtidas em investigações.
Vorcaro, dono do Banco Master, conversava com sua então namorada, Martha Graeff.
Ele reclamava de uma postagem feita por Jair Bolsonaro nas redes sociais.
O ex-presidente comentou uma reportagem sobre gerentes da Caixa Econômica Federal demitidos após barrarem uma operação de R$ 500 milhões envolvendo títulos do Banco Master.
Vorcaro afirmou que Bolsonaro fez a publicação acreditando se tratar de uma crítica ao governo atual, o que gerou uma onda de repercussão indesejada contra o banqueiro.
O vazamento das mensagens de Daniel Vorcaro gerou uma forte crise de bastidores e repercussão política, expondo as conexões e o nível de influência do banqueiro dentro do próprio núcleo bolsonarista e do Centrão.
Vorcaro mencionou no diálogo que “todos os amigos”, incluindo Ciro Nogueira (a quem chamava de grande amigo de vida), ligaram imediatamente para Jair Bolsonaro para tentar fazê-lo apagar a publicação.
A postagem não foi retirada porque, segundo o banqueiro, “não tinha como tirar” após o impacto inicial.
O Brasil é o resultado de uma conjunção de fatores muito peculiares.
Cada país tem sua receita e a do Brasil se resume assim.
Uma plataforma de rocha totalmente estável.
Que não treme e sem buracos para vazar lava.
Um clima que deixa a maioria do povo com muita preguiça.
E aí entra a polêmica controversa da etnia formadora.
Não falo, para não ser indelicado.
Mas mostro duas datas, 1492 e 1500.
Oito anos. É o lapso de tempo que separa o bilionário do mendigo.
Cirúrgico o seu comentário, Laudeir!!!
Exatamente isso.
Para cá, vieram os pelegos, os encarcerados, os roubalhões.
Lá em cima, foram os colonizadores de fato para fundarem uma nação próspera e com outros ideais.
Aqui, os pelegos se locupletam, se dão as mãos e se defendem, numa jogatina espúria; cada um mais imundo que o outro.
Todos, sem exceções, de cu (essa é a palavra e não retiro) sujo.
Ladrões, pulhas, imorais ao extremo. E, citando o nosso saudoso Adônis: “Eles merecem ser impalados com uma estaca grossa que saia até à boca”.
E quanto à sociedade banânica… Ora… que sociedade?? Isso aqui é um bando de gentinha (com exceções, claro) amontoada em um território vagabundo indo a passos largos para o fundo das profundezas.
A culpa é de quem?? Nossa. Brasileiro só nasceu para bater lata, remexer o furico em roda de samba e pagode e encher o cu de cachaça.
Na hora de agir e dar um pé na bunda desses filhos das putas, baixam a cabeça e se vendem por 50 pilas. Ou até mesmo por um mísero ovo.
E não peço desculpas a ninguém pelas ofensas aqui ditas.