MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Encontrei o blog de um sujeito que trabalha no banco central dos Estados Unidos, o FED. Numa postagem, ele disse o seguinte:

“A política de juros baixos do FED aumenta ou diminui a inflação? Você deve achar que os economistas têm uma resposta simples para essa pergunta simples, mas nós não temos. Como de costume, a resposta é ´depende´”.

Eu também acho estranho que economistas não tenham respostas simples para certas coisas. Eu estava pesquisando sobre a situação na Turquia, que segundo as notícias vem seguindo um conceito econômico chamado neo-fischerismo, derivado de uma tal Equação de Fischer. Como já aconteceu outras vezes, eu custei a acreditar no que estava lendo.

O que o neo-fischerismo diz é algo muito comum em várias “escolas” de economia: achar que uma fórmula matemática pode alterar a realidade. No caso, a equação de Fischer diz que r = i – p (onde p é o índice de preços), e o neo-fischerismo diz que então p = i – r. Isso é matematicamente exato, mas na prática, significa dizer que causa e consequência podem ser trocadas. É como dizer “Se a mulher que engravida engorda, então engordar faz a mulher ficar grávida” (tentei achar uma metáfora melhor, mas não consegui).

O que está acontecendo na Turquia é que o presidente Recep Erdogan demitiu o presidente do Banco Central, que vinha aumentando os juros, e mandou baixá-los na marra, acreditando (ou fingindo acreditar) que isso é bom para a economia. Desde a demissão e o corte nos juros, a moeda da Turquia desvalorizou mais de 50% e a inflação passou dos 20%. Erdogan já anunciou que os juros vão baixar mais.

Quando um governo gasta mais do que ganha (e praticamente todos fazem isso), o dinheiro que falta só pode vir de três lugares: aumento de impostos, empréstimos, ou impressão de mais dinheiro. Na Turquia, como aqui, já não há muito espaço para mais impostos, então sobram os outros dois. Mas se o governo baixa os juros, menos gente vai querer emprestar para ele. O caminho que sobra é fabricar dinheiro: Desde janeiro de 2020, a base monetária na Turquia aumentou 129%, ou seja, mais do que dobrou. Este aumento de dinheiro vai parar nos bancos, e é usado para conceder empréstimos: no mesmo período, o crédito já cresceu 54%. Aumento de crédito causa, em um primeiro momento, aumento de consumo e consequentemente aumento de preços. Num segundo momento, as pessoas percebem que têm dívidas para pagar e o consumo despenca, no que é chamado de “estouro de bolha”. Outra consequência da impressão de dinheiro é a desvalorização da moeda, o que encarece todos os bens importados e todos os exportados, pressionando ainda mais a inflação. Com a moeda caindo e os juros baixos, os investidores levam seu dinheiro para fora do país, e o câmbio despenca mais ainda. (Lembram da “realimentação positiva” que eu falei duas semanas atrás?)

E o que o Ferrero Rocher, aquele bombom caro, tem a ver com isso? É que ele é recheado com creme de avelã, e a Turquia representa mais de 60% da produção mundial de avelã. Mas com a bagunça na economia, e o aumento da inflação e do dólar, os custos subiram e a produção de avelã da Turquia está despencando, ameaçando a produção do bombom (e de Nutella, aquele creme que também é feito de avelã). Economistas e políticos vivem repetindo que moeda desvalorizada é bom e aumenta as exportações, só que mais uma vez a realidade insiste em desmentir estes “especialistas”.

Se os sábios conselheiros do presidente turco conhecessem um país chamado Brasil, poderiam ver facilmente as consequências de tudo o que eles estão tentando fazer. O Brasil, como eles, abaixou irresponsavelmente os juros e imprimiu dinheiro. Consequências: moeda desvaloriza, inflação sobe, as pessoas correm para gastar o dinheiro antes que ele derreta, o aumento do consumo pressiona ainda mais os preços, até que a bolha estoura e a inflação vira estagflação; para completar, o tal benefício às exportações causado pela moeda fraca não aparece.

Isso já deve ter acontecido centenas ou milhares de vezes na história do mundo, mas continua sendo tentado. Parece que em algum lugar do mundo existe uma fábrica que produz “economistas amestrados”, que são incapazes de enxergar a realidade e repetem sem parar tudo que os políticos gostam de ouvir. Para mim, pobre pitaqueiro, não parece ser tão complicado. Aí eu me lembro de uma expressão que um dos meus autores favoritos sobre economia costuma usar: “isso é tão simples, que é preciso ser um intelectual com doutorado para não entender”.

8 pensou em “O NEO-FISCHERISMO E O FERRERO ROCHER

  1. Por isto mesmo que eu acho muito bem-vinda a autonomia do Banco Central: pode-se ter uma política de estado (e não de governo) em relação à moeda e ao seu preço: o juro.

    Quanto à inflação, temos no caso do Brasil um componente extra: todo aquele dinheiro que foi pago sob a forma de auxílio emergencial, no primeiro momento ele “desaparece” das mãos do beneficiário, sob a forma de bens de consumo, mas ele não desaparece do sistema econômico/financeiro, vai para a mão do varejista, daí para o atacadista, daí para o fabricante, daí para o fornecedor de insumos e quase todo se transforma em renda e salários, recomeçando o ciclo. Sem um aumento correspondente da capacidade de produção (que não pode acontecer a curto prazo) joga gasolina na fogueira da inflação.

    • Sem dúvida, Osnaldo, mas lembrando que não adianta ter uma lei garantindo a autonomia do BC se na prática ele faz aquilo que o governo quer.

      Um BC independente de verdade deveria se recusar a expandir a base monetária acima do crescimento da economia, e se necessário aumentar os juros, para cumprir sua função básica que é defender o valor da moeda. Nosso BC tem feito exatamente o contrário.

      • …na prática ele faz aquilo que o governo quer.

        Ora,meus caros, não sejamos inocentes… no Brasil os homens públicos e privados se reuniram em um imenso e fraterno clube dos amigos dos amigos.

        Daí a grita gigantesca contra o atual governo, pois o tal Bolsonaro (com todos os defeitos que tem; e são muitos) entrou no jogo e não aceita as regras impostas, causando prejuzo imenso aos donos do poder no Brasil em tudo que é esfera (desde a mídia, passando por uma infinidade de outros setores até chegar ao parlamento).

        E o que isso ocasiona? O tal JAIR é alvejado todos os dias por arma de tudo que é calibre, na famosa caça ao pato de quermesse de interior.

        E quando raiar 2022 tudo que é cachorro louco, de tudo que é canto, partirá com tudo para cima do tal sujeito.

        Só o fato do cabra ainda estar entre os viventes já é de causar espanto.

  2. Muito bom o texto do Marcelo, sempre atual e alerta. Parabéns pelo comentário do Osnaldo, sobre a importância do banco central nas economias. Na Turquia, como mencionado no artigo, não tem mais banco central, quem manda é Erdogan, ele decide tudo. E olha que ele é incomparavelmente mais inteligente do que Bolsonaro, o que não é difícil. Como pode alguém administrar seus negócios num país onde em 01/11 o Dólar valia 9,60 Liras, em 17/12 custava 17,00 e hoje, nesse momento vale 11,36????? Como faz?
    Só vou acrescentar que a inflação atual é um fenômeno global, consequência da paralização das cadeias de produção em 2020 e que o mundo ainda está se reorganizando. Aqui o fenômeno tem o agravante da desorientação provocada pelo nosso Desgoverno.
    Essa troca civilizada de ideias ajuda na compreensão do mundo real. O Mundo Maravilhoso da Bolsolândia não existe.
    Só tenho uma preocupação, na reunião do G20 o único chefe de estado que trocou duas ou três “palavras” com Bolsonaro foi Erdogan. Se eles combinaram alguma coisa, não vai dar certo.

    Bom Natal para todos.

    • Na semana passada, o dólar chegou a valer 18 liras. Aí o governo vendeu um bilhão de dólares de suas reservas, e anunciou que iria começar a controlar o câmbio. O dólar caiu para a faixa das 12 liras.

      Se manter o câmbio flutuante no lugar certo já é difícil, manter no lugar errado é caríssimo, e as reservas turcas não são lá muito grandes. Com certeza não vai dar certo.

      • Qual o preço justo?
        Imagino um turco que não faz parte da Corrente Erdogan, que está vendo o tirano reduzir cada vez mais a possibilidade de mudança de governo, que está se desfazendo de todos os ativos turcos, que pretende remeter seu patrimônio e se mudar para Marte. Para esse sujeito pagar 18 Liras por um Dólar, no desespero, pode ser um alivio. Já um importador que vende equipamentos de medicina em Istambul, se desespera por ver que seu negócio pode ficar inviável. Nessa hora o exportador que tem Dólar dá o preço.
        O preço justo é onde compradores e vendedores se encontram e aceitam fazer o negócio. O componente emoção pode até não ser decisivo, geralmente é, mas está presente nos negócios, sempre. Não dá para ser tão preciso no mundo dos negócios e esperar que um modelo matemático vai determinar o preço justo.
        Quando o governo quer determinar o preço de tudo, acontece como na Argentina que oficialmente o Dólar vale 100 Pesos, mas você não consegue comprar por menos de 200

        Está igual a temperatura aqui em Paty, ontem 35, hoje 24. Nem a natureza está dando conta de reduzir a volatilidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *