VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

Zezinho, doze anos, como sempre faz, pula da rede ainda de madrugada, veste sua bermuda velha, seu casaco surrado, e calça um conga antigo e macio, retirado do lixo. É hora de ir cumprir sua devoção.

Totalmente em jejum, sai de casa, batendo o queixo de frio, mesmo tendo enrolado ao pescoço um lenço, que sua mãe sempre lhe põe, para proteger-lhe a garganta. Sabe que tem de andar ligeiro, para encontrar espaço, onde cumprirá sua tarefa diária. Como companhia, leva um cajado e quatro sacos plásticos, dos grandes.

O lenço amarrado ao pescoço também servirá para cobrir seu nariz e sua boca, e atenuar o mau cheiro vindo da podridão contida no monturo. Lá dentro, há gases, micróbios, bactérias e outros tipos de coisas putrefatas, que agridem o organismo humano.

Esse lenço que sua mãe amarra ao seu pescoço pertencia ao seu pai. Desde que ele morreu, o menino usa, sentindo-se o homem da casa. A mãe e suas duas irmãs pequenas não tem condições de enfrentar o monturo, na luta pela sobrevivência.

A mulher, entretanto, lhe recomenda que, ao chegar a esse local insalubre, proteja os olhos e o nariz, e não respire o ar putrefato que ele exala.

Depois de andar quase uma hora, Zezinho chega ao monturo e percebe que está atrasado. Quase não há espaço para ele. Não pode “fuçar” à vontade, para procurar alguma coisa aproveitável, seja alimento, roupa ou algo diferente.

Dezenas de meninos chegaram antes dele e já “fuçaram” o que tinha de melhor, como alimentos mais frescos e ainda aproveitáveis. Os melhores restos, que ainda poderiam ser comidos, já haviam sido resgatados. Mesmo assim, Zezinho cobre o rosto com o lenço, mete os pés no monturo e, com seu cajado, espanta os urubus.

É uma cena horripilante, cruel e degradante, comum entre os pobres do nosso país, onde a distância entre eles e os ricos aumenta cada vez mais.

Enquanto crianças famintas disputam, no monturo, restos de comida estragada para saciar a fome, nos palácios, a lagosta e o caviar, acompanhados de vinhos importados, de altas marcas, sobram do bico de outro tipo de urubus, numa cena revoltante, que agride a realidade brasileira.

São Urubus que riem da desgraça do povo, que pisoteiam nos caixões dos mortos pela COVID-19 e se divertem com isso, amordaçando pessoas de bem, e colocando na rua o bloco dos “Kanalhas”, com suas alegorias vermelhas.

8 pensou em “O MONTURO

  1. Violante,

    Parabéns pela oportuna crônica sobre o local onde o lixo é depositado – monturo. Já tive oportunidade de conhecer um lixão, e vi as pessoas procurarem comida como descrito no seu corajoso texto. É triste ver a disputa entre esses pobres com os urubus por alimentos muitas vezes contaminados ou em estados de degradação.
    É difícil fazer uma análise de uma situação tão degradante, então, compartilho um poema de Tiago de Mello que traduz em versos um problema que ainda persiste nos dias de hoje no nosse país:

    Mão do lixo

    A mão que eu cato o lixo
    Não é a mão com que eu devia ter.
    Não tenho para ganhar
    Na mesa da minha casa
    O pão bom de cada dia.
    Como não tenho, aqui estou.
    Catando lixo dos outros,
    O resto que vira lixo.
    Não faz mal se ficou sujo,
    Se os urubus beliscaram,
    Se ratos roeram pedaços,
    Mesmo estragado me serve,
    Porque fome não tem luxo.
    A mão com que cato o lixo
    Não é a que eu devia ter.
    Mas a mão que a gente tem
    É feita pela nação.
    Quando como coisa podre
    Depois me torço de dor
    Fico pensando: tomara
    Que esta dor um dia doa
    Nos que tem tanto, mas tanto,
    Que transformam pão em lixo
    Com meus dedos no monturo
    Sinto-me lixo também.
    Não pareço, mas sou criança.
    Por isso enquanto procuro
    Restos de vida no chão,
    Uma fome diferente,
    Quem sabe é o pão da esperança
    Esquenta meu coração:
    Que um dia criança nenhuma
    Seja mão serva do lixo.

    Desejo um final de semana pleno de paz, saúde e felicidade

    Aristeu

  2. Obrigada pelo gratificante comentário, prezado Aristeu!

    Não podemos tapar o sol com a peneira, nem ignorar a herança maldita recebida pelo Presidente Bolsonaro.

    Sou fã do poeta Thiago de Mello. Obrigada por ter compartilhado comigo o oportuno poema “Mão do Lixo, da autoria dele. Retrata a pura realidade..

    Para você também, meus votos de um final de semana cheio de paz, saúde e felicidade!

  3. Minha cara Violante. comovente esta história do Zezinho, que procura no monturo o sustento para o seu dia-a-dia.

    Depois de mais de 30 anos de governos de esquerda não era mais para termos Zezinhos nem monturos ao ar livre, mas a realidade continua a mesma.

    A mudança não será fácil e vem pela educação dos zezinhos.

    Beijo, querida e bom fds.

  4. Obrigada pelo comentário gentil, prezado João Francisco!

    A realidade brasileira é muito triste, no que se refere ao distanciamento que existe entre o rico e o pobre.
    Enquanto a extrema pobreza disputa com os urubus, comidas jogadas no monturo, outros tipos de
    urubus fazem turismo às custas do dinheiro da nação.
    Concordo com você, quando diz:
    “Depois de mais de 30 anos de governos de esquerda não era mais para termos Zezinhos nem monturos ao ar livre, mas a realidade continua a mesma.”

    Somente um novo “milagre brasileiro” será capaz de solucionar os atuais problemas. do nosso País.

    Beijo, querido amigo, e um feliz final de semana para você também!.

  5. Minha cara Violante, você descreveu a vida como ela é em todo o território deste injusto pais. Se tivéssemos político realmente interessados no bem estar do povo, não teríamos a vergonha de presenciar tanto horrores perante os céus. Um pais tão privilegiado pela natureza, como o nosso, não merece ver filhos seus, tendo que ir a monturos em busca de sustento.

  6. Obrigada pela gentileza do comentário, prezado Paulo Terracota!

    A extrema desigualdade social que existe no nosso País só será extinta, quando desaparecerem, até a quinta geração, os maus políticos, que, abertamente, atravancam o desenvolvimento e o progresso.
    Enquanto, no Brasil, seres humanos disputam com os urubus, gêneros alimentícios estragados e jogados no monturo, os maus políticos viajam mundo afora, às custas da Nação, denegrindo e procurando prejudicar o Governo.
    É uma vergonha!!!

    Bom final de semana!

  7. Queridíssima Violante Pimentel, a Dama das Crônicas do JBF.

    Lendo sua comovente crônica sobre a luta desesperada do Zezinho em busca de resto de comida do lixo para sobreviver, me lembrei de uma crônica real minha publicada aqui no JBF, elogiada pela estimada colunista, sobre a luta da Senhora Maria Sucateira catando latinha para arranjar dinheiro para pagar advogados para tentar tirar seu netinho mala da prisão, antes que os traficantes o matassem a sangue frio.

    Infelizmente informo a estimada amiga que, apesar dos esforços de Dona Maria Sucateira, os dois advogados que “abraçaram” a causa do seu netinho só fizeram “comer” o dinheiro das latinhas que Dona Maria encontrava no lixo, saindo de madrugada e voltando às 8 horas, e deixaram o espaço livro para o netinho dele morrer com três balaços gravados do peito como no Oeste de Sergio Leone, onde a lei que imperava ela a lei do revólver.

    Obrigado, querida pela maravilhosa crônica, onde a dignidade sobrepõe à miséria pelo lirismo da descrição.

  8. Querido cronista Cícero Tavares:

    Obrigada pelo gratificante comentário! Suas palavras me soaram como um grito solidário e de protesto contra as injustiças sociais.

    Como dizia o ex-Presidente Jânio Quadros:

    “No mundo, há dois tipos de pessoas: As que comem e não trabalham; e aquelas que trabalham e não comem. Se essa premissa fosse verdadeira, Deus teria feito as primeiras sem braços e as segundas sem boca.” É a pura verdade.

    A degradação humana aumenta cada vez mais, diante da corja de maus políticos e usurpadores da Democracia. Que venha um milagre Brasileiro!

    Muito comovente e revoltante, o final da história de Dona Maria Sucateira, cuja vida se resumia a catar latinhas e vender, para conseguir pagar advogados e tentar tirar seu neto da prisão, “antes que os traficantes o matassem a sangue frio.”
    ,
    Foi vergonhoso, o papel dos dois advogados, que “abraçaram” essa causa, e só fizeram “comer o dinheiro”, conseguido pela sofrida senhora, o que resultou na morte do jovem com três balaços no peito, “como no Oeste de Sergio Leone, onde a lei que imperava ela a lei do revólver.”
    Lamentável desfecho!

    Grande abraço, amigo, e uma ótima semana!

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