
Sem nada a fazer e com a mão sob o queixo em um dia de sol pouco – mas nem por isso menos belo, resolvi ligar para Adão. Sem uma das costelas, ele continuava no Paraíso, à sombra de uma frondosa tamarineira (pés de maçã, por aquelas bandas, o síndico de barbas brancas e longas mandou arrancar, disse-me ele).
Eva não estava: tinha ido buscar Caim, Abel e Seth no Grupo Escolar. Fora convocada pela diretora por conta de constantes brigas entre os dois irmãos mais velhos.
Na conversa com Adão, falei-lhe de nossas praias, dos belos e altos coqueiros, dos montes e vales e principalmente de nossos rios, Capibaribe e Beberibe, que se unem para formar o Atlântico. Comentei sobre a alva estrela que fulge e não finda quando não está o sol iluminando o infinito, fazendo a glória da Terra brilhar!
Ele a tudo ouvia, calado. Acho que avaliava o quanto aqui era melhor que aquele paraíso dele, sem graça, monótono, povoado por serpentes. Devia estar imaginando o quanto fora enganado quando lhe disseram ser ali o Paraíso.
Fez-se então o calar. Nada além do mais profundo e sepulcral silêncio, só quebrado depois de persistentes e intermináveis dez segundos, quando Adão indagou:
– Só belezas naturais? E os heróis do seu lugar?
Calei, enxuguei a lágrima que teimava em adubar o chão, e falei-lhe de nossos bravos guerreiros. Contei-lhe da valentia de muitos, dentre eles Frei Caneca, Vigário Tenório, Domingos José Martins, Cruz Cabugá e Barros Lima, o Leão Coroado. Tantos heróis para louvar e ele, deu-me dó, a registrar um herói apenas e, ainda assim, que deixou de sê-lo quando um dia o expulsou de casa apenas por não ter resistido ao sabor de uma maçã vermelha.
Ao fundo, escutava-se Evocação, de Nélson Ferreira. Desliguei o som: lembrei que no Paraíso de Adão não existia Frevo e não era do meu feitio humilhar os semelhantes.
A certa altura da conversa, Adão pediu licença para desligar o telefone pois precisava atender ao enfermeiro que chegara para aplicar-lhe o soro antiofídico que lhe fora receitado pelo médico do SUS celestial.
A conversa durou pouco mais de meia hora, mas custou quase nada: afinal, ligações locais, de paraíso para paraíso, hoje são quase de graça.
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(O presente texto compõe o livro OLÁ, COMO VAI?, deste colunista, no aguardo de uma Editora interessada na publicação. Alguém sugere?).
Texto de Xico é mesmo algo celestial. Abraços lisboetas, amigo querido.