JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O mar azul de Garrafão

Ali pras bandas da Pacatuba, município situado entre Fortaleza e o povoado Queimadas, pertencente a Pacajus, João Ambrósio, agricultor meeiro que vivia nas terras de João Albano, latifundiário por herança, dono de quase todas as terras desses dois lugares.

Mas, quem não vivesse ali, chegasse e perguntasse por João Ambrósio, jamais encontraria. Principalmente das gerações de hoje.

Pois, menino já grande, saindo da infância para a adolescência, João Garrafão ostentava inocência naqueles quase dois metros de altura. Seria bom jogador de Basquete na NBA ou de Voleibol em qualquer paragem. João parecia ter nascido grande. Menino, obediente aos pais, duas vezes por semana João se deslocava até a bodega de Seu Messias para comprar meia garrafa de querosene – o pai preferia acender o candeeiro que, de noite, iluminava a frente da casa e parte de todo o quintal, muito mais que qualquer lamparina.

Pois, com trabalho imenso para preparar a montaria que usava na tarefa determinada pela mãe Argemira, João levava para a bodega do Messias uma garrafa enorme, antes usada por espumante nas comemorações natalinas da casa de João Albano. Uma garrafa que comportava cerca de 5 litros de espumante. Um exagero de garrafa. A meninada traquinas da mesma faixa etária não demorou muito para achar um apelido adequado para o então João Ambrósio: “João Garrafão”.

Anos se passaram. João casou e construiu família. Mas, João Garrafão não era chegado a passeios – talvez isso explique ter tantos filhos com Adalgisa, sua esposa querida – preferindo a labuta da roça e o chiqueiramento dos caprinos, ovinos e bovinos que criava, também como meeiro. João Garrafão vivia para o trabalho e para a família, que era um dos seus encantos.

Mas, como não há mal que dure para sempre, nem bem que nunca acabe, eis que certo dia João Garrafão recebeu a visita de um parente, que fazia anos mudara para a capital e até viajara para o exterior, antes conhecendo as praias do Rio de Janeiro. Carlos Alberto, o nome do parente.

Após dias curtindo as maravilhas (e enfrentando as dificuldades) da roça, Carlos Alberto convidou João Garrafão para “desanuviar” um pouco daquele trabalho contínuo e pesado da roça e passar alguns dias na capital. Garrafão aceitou, mas sugeriu levar a mulher Adalgisa consigo. Carlos Alberto concordou, e prepararam a viagem, antes, deixando tudo pronto em casa para que os filhos não enfrentassem problemas.

Numa noite, em conversa na “latada” da frente da casa, João Garrafão confidenciou a Carlos Alberto, que, ele e Adalgisa desejavam muito conhecer o mar. É, o mar. Esse mundão d´água que nos delicia nos fins de semana, cuja exposição ao sol nos dá um bronzeado.

Carlos Alberto garantiu que, conhecer o mar seria o presente que ele ofereceria ao casal de parentes.

O dia da viagem chegou. Tudo pronto. Tudo arrumado. Os filhos foram devidamente avisados, recebendo recomendação para a alimentação das cabras e bodes, carneiros e ovelhas e bois e vacas. O leite deveria ser retirado toda manhã na ordenha corriqueira, e enviado para o destino certo (uma fábrica artesanal de queijos, como de costume pertencente a João Albano).

Carro preparado. Bagagem pronta, e a viagem (na realidade, nada mais que uma semana de férias para “desanuviar” o stress de cada dia naquelas brenhas). E, lá se foram.

– Fiquem com Deus! Não esqueça as recomendações, disse João Garrafão ao filho mais velho. Até a volta.

– Vá e volte com Deus, disse o filho.

Mar verde e diferente do azul que João Garrafão conhecera

Carlos Alberto sabia de cor e salteado que estava realizando um dos sonhos do parente João Garrafão e de Adalgisa. Levá-los a conhecer o mar pela primeira vez, era investir na felicidade do parente, envolvido somente com o trabalho na roça, que, inúmeras vezes lhe recebera com tanto cuidado e carinho. Não custaria nada, agora, tentar retribuir. E foi isso que Carlos Alberto fez, num dia que não havia tantos banhistas na praia.

Todos foram à praia.

Após estacionar o carro, Carlos Alberto recomendou que o casal ficasse descalço para sentir a energia que era a liberdade de pisar na areia daquele mundão. Dito e feito. Carlos Alberto segurou as mãos do casal e caminhou lentamente pela areia a caminho do mar, exatamente na hora da arrebentação.

Carlos Alberto olhou para João Garrafão e Adalgisa e nada mais viu que não um êxtase transformado em silêncio total. As lágrimas de alegria e admiração rolavam dos olhos daquele homem rude, pouco letrado, mas muito perspicaz.
– Deus do céu! Balbuciou João Garrafão, falando para si em agradecimento à Deus, por momento tão significativo para ele, que, antes, só conhecia as águas e a vazante do Mundaú, o açude que ajuda na agricultura em Pacatuba.

O silêncio continuou e a companhia do êxtase se configurou numa frase de João Garrafão:

– Obrigado meu Deus, por tamanha alegria! Disse João Garrafão em agradecimento ao Criador.

– E o mar é azul, que coisa linda!

Extasiado com o que vira, João Garrafão se deu conta que precisava voltar para Pacatuba e continuar cuidando da roça, dos filhos e das criações que dividia apenas o lucro com João Albano.

Na volta, e já em casa, João Garrafão pegou uma caneca com água da quartinha e sentou num cambito colocado ali na latada para facilitar a arrumação da montaria, quando precisasse. Sentado, sentiu a presença do filho mais velho que queria “prestar conta” dos acontecimentos durante sua ausência e da mãe. Mas, quem falou primeiro foi João Garrafão:

– Filho, eu vi o mar! Que coisa linda, e é muita água. Água salgada e a beleza maior está na cor. O mar é azul! Agora, aqui, com essa caneca na mão, olho e vejo que a água não tem cor. Chamam de incolor. Mas, Carlos Alberto me disse que, ali é azul, mas em outros lugares é verde. Deve ser outra beleza. E ele garantiu que também existe o mar vermelho. Será verdade? O que vi e comprovei era azul. Com certeza é coisa de Deus. Fico imaginando a felicidade de Jesus Cristo caminhando sobre as águas. Aquele mundão azul!

Mar com água vermelha como garantiu Carlos Alberto

4 pensou em “O MAR!

  1. Zé Ramos não é apenas um poeta, é um anjo de luz que transforma nosso domingo chuvoso em um dia de sol e alegria. Obrigado amigo!!!!

    • Marcos, conterrâneo querido: o sol é para todos! A alegria, também! Que façamos por merecer ver quantas vezes quisermos, a beleza de qualquer cor de mar!

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