Recife. Foto de Tarcizo Leite de Vasconcelos
Um dos meus trabalhos profissionais é executar a edição de livros para terceiros. Tenho, como parte do ofício, o cuidado de recomendar aos novatos não dispensar a ajuda de um técnico para as orientações primárias a fim de que se obedeça as regras editoriais.
Conversei há poucos dias com Tarcízio Leite de Vasconcelos e Severino Souto, dois excelentes artistas da fotografia, sobre como se procede à feitura de um livro, porque há certas artimanhas nem sempre observadas pelas gráficas.
E para melhor entendimento, falo em prol daqueles que precisam divulgar suas obras. Já tive dificuldades ao mandar imprimir meu primeiro livro: Um estigma cultural – impresso como Edição do Autor, em 1983. Ou seja, eu era um neófito cheio de sonhos, desejoso de ver seu trabalho circular e ter alguma remuneração. Banquei tudo mas não me senti realizado, Deixei de cumprir certas normas, por desconhecimento.
Cabe-me, agora, orientar os que estão desejando ver seus trabalhos ampliados, chegando às livrarias, obtendo remuneração, ultrapassando divisas de estado e fronteiras de país.
A ação se inicia com a primeira leitura do que os escritores e as escritoras preparam e os fotógrafos selecionam. Geralmente u’a maçaroca com mais de 100 páginas. Menos do que isso, dizia Gilberto Freyre: “É uma caderneta!”.
Deve o editor ter o entendimento do que se trata. Se um livro de fotografias, só de texto ou as duas coisas. Mas não é assunto dos clientes. A eles cabe entregar a maçaroca de letras e imagens impressas.
Cabe-me, de início, atenção com a parte gráfica e ortográfica. Para isto preciso me concentrar alguns dias no emaranhado de números, letras, sinais, espaços, fotos, legendas, gráficos, datas, parágrafos, entrelinhas, apóstrofos, parêntesis, cortinas de títulos, término de capítulos e notas de pé de página.
Durante a leitura preciso que meus olhos façam papel semelhante à lupa de um ourives, que identifica bem escondidinho o espaço que correu entre palavras, a vírgula que se transformou em ponto e vírgula, os travessões, as abreviaturas e os acentos, detalhes que desafiam escritores e supervisores.
Entrevistei, há anos, Nely Carvalho, Editora de Textos dos jornais da Tv Globo Nordeste e tive uma aula sobre a procura de erros e omissões. Fiquei ainda mais atento. A entrevista transformada em aula, melhorou muito o texto do livro de minha autoria: Dr. Romero Carvalho – Um homem e sua história.
Seguindo com as definições, sugiro serem observadas as seguintes normas editoriais: a descrição do Expediente, aquela página que se localiza no verso da Folha de Rosto, onde se indica a propriedade do livro, os técnicos participantes, o Direito Autoral das fotos e recortes, as ressalvas, as datas, os nomes completos, as abreviaturas de identidades, o endereço dos autores, etcetera.
E tem mais, nesse verdadeiro trabalho de garimpo, a parte inicial das folhas devem ter trato de identificação muito cuidadosa. Um alerta para as tipografias: a exigência de se integrar no livro a Folha de Guarda, aquela página em branco, muito necessária, pois é ali que ocorrem as oferendas com autógrafos.
Em seguida, as páginas com homenagens, conceitos e agradecimentos. Depois o sumário (ou índice), e as seguintes com o Prefácio, a Introdução e outras “guloseimas”.
Em seguida, ao Técnico em Edição, vem a orientação sobre os Registros Legais: o ISBN (International Standard Book Number), que em português se entende por: Número Internacional Padronizado para Livros, sendo este a defesa do copyright, que é outra coisinha pouco conhecida.
Eis, agora, um alerta importante: se não for publicado o copyright, que geralmente aparece na parte superior da página do Expediente de qualquer obra, é se eximir do Direito de Exclusividade concedido ao autor.
O copyright existe para controlar o uso e a reprodução da criação intelectual. No Brasil, a proteção aos direitos autorais é garantida pela Lei nº 9.610/98, conhecida como Lei dos Direitos Autorais, que visa proteger obras artísticas, literárias, e científicas, conferindo ao autor os direitos morais e patrimoniais.
Falamos sobre best-seller, um termo inglês, frequentemente usado em português, que se refere a um livro, produto ou qualquer outro item que alcançou grande sucesso comercial, figurando em listas de mais vendidos. E quem não obedece às normas nunca sentirá o gosto de ter seu trabalho reconhecido como notável.
Outra coisa importante: o Depósito Legal de um livro, que é a obrigação legal de enviar um ou mais exemplares de qualquer obra publicada no país para um órgão específico, geralmente a Biblioteca Nacional, com o objetivo de preservar o patrimônio cultural e a memória bibliográfica. Este trâmite é gratuito, mas a sua não realização pode acarretar multas e impedir o acesso a financiamentos públicos para a obra.
O Depósito Legal é definido pelo envio obrigatório de no mínimo um exemplar de todas as publicações produzidas em território nacional, por qualquer meio.
Planejadas e executadas estas partes principais deve-se definir as capas – sempre produzidas por arte finalista competente – a exigência de orelhas, onde se deverá publicar uma foto do autor e breve legenda, o posfácio, o colofão e a arte da 4a. capa.
E se os caros leitores – candidatos a ver suas obras como best-seller – deixarem a cargo de amadores a produção editorial de seu livro, correndo tudo “na banguela”, seu trabalho se tornará desconhecido da cultura do País e do estrangeiro.
Como se vê, além da obra oferecida do leitor em si, um livro é um produto cheio de artimanhas.
