ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

Hoje fui novamente ao meu médico psiquiatra – médico de gente doida, em caeté popular -, ajustar medicamentos, conversar fiado e ser aconselhado por um profissional que tem idade para ser meu filho. Mas deixa isso para lá. Eu, e minha fiel escudeira, a Renata, afiliada de nossa confraria também foi, afinal, até o médico a gente partilha.

E, jogando conversa fora, observando o movimento da rua e fazendo maledicências que só cabem dentro do carro fui vendo a quantidade de venezuelanos nas ruas de Campo Grande. Em cada esquina, semáforo, ou cruzamento, há aquela placa com os dizeres “Sou venezuelano e estou com fome!”. Visto isso, não dei de ombro, mas desestimulo quem quer que seja a dar qualquer óbolo (gostou, Violante?). E tenho minhas razões e vou mais além: a minha total oposição ao programa do governo federal chamado Acolhimento.

Esse programa é, basicamente, abrir as fronteiras para que venezuelanos que estão fugindo da ditadura comunista do Maduro possam entrar, e aqui recebem apoio, relocação para outros centros urbanos, moradia e emprego. Aqui, na gloriosa Campo Grande, o governo municipal também lançou uma campanha de desestímulo a esmola, ao mesmo tempo em que oferece, via secretaria de assistência social, moradia, encaminhamento para emprego, roupas, roupa de cama e alojamento até a família se estabilizar.

Alguém pode pensar que eu sou de coração duro, um caeté insensível. Tudo bem… sou canibal. Gosto do Sardinha ao ponto, mas até para um canibal há limites. E, um desses limites se chama história. E explico, ao pequeno curumim que está sentado à beira da fogueira, ao meu lado, esperando o antebraço do Sardinha ficar pronto.

Lembro-me nos anos entre 1996 e 1998 quando o coronel tapado de Caracas que atendia pelo nome de Hugo Chavez tentou dar um golpe de Estado, foi preso, depois se convenceu que só poderia destruir a democracia, se estivesse dentro das entranhas desse processo. E, assim o fez. Com seus plebiscitos, consultas revogatórias, eleições até para o guarda de trânsito, foi roendo a democracia venezuelana, até ela ruir completamente.

Porém, o problema não era Chavez, mas sim quem o apoiava: Eram estudantes universitários, professores universitários, advogados, a imprensa em sua quase totalidade, os burgueses com vergonha e com remorso de serem ricos, mas que nunca trabalharam para conquistar essa riqueza, só receberam dos pais, os funcionários públicos daquele país quase todos seduzidos pelo canto de sereia, do dito “socialismo do século XXI”, todos os sindicatos com viés esquerdistas – que belo oxímoro -, parte significativa da hierarquia católica daquele país, professores da Educação Básica, doutrinados naquelas universidades que formavam militantes, mas deixaram de formar uma elite intelectual.

Pois bem…. quem a gente vê nas ruas do Brasil? Exatamente aqueles que faziam protesto a favor do chavismo, aqueles que apoiavam Hugo Chavez e sua loucura de socialismo do século XXI. Recentemente fui abastecer meu Poizé (assim chamo meu carro) e quem me atendeu foi um frentista venezuelano. Puxei conversa e fiquei sabendo que lá, no país dele, era engenheiro de petróleo e trabalhava na PDVSA – a Petrobrás da Venezuela -, tinha um salário e um padrão de vida invejável para a maioria da população, cheio de benesses. Sindicalista, apoiou o chavismo, até a hora em que a realidade o atropelou.

E, nas minhas andanças aqui pela gloriosa Campo Grande, já conheci professores universitários venezuelanos trabalhando como garçom, frentista. Já encontrei advogados, engenheiros, economistas venezuelanos trabalhando como pintores, serventes de pedreiro, encanadores, garis. Nenhuma dessas profissões é indigna quando exercidas com ética, seriedade e senso de dever. Todo dinheiro ganho com o fruto de seu trabalho é decente, limpo e glorioso. Mas, o que me incomoda é saber como essas pessoas estão fugindo de suas próprias histórias e da história do próprio país que eles ajudaram a escrever,

A onda de refugiados não é formada por pobres e miseráveis lá da Venezuela. Esses não tem para onde ir. Sua miséria é a prisão perfeita da vontade, da mente, da liberdade. Não. Esses que hoje estão chegando ao Brasil, e também na Colômbia, são exatamente aqueles profissionais e estudantes que, no passado levantaram a bandeira do chavismo, e lutaram pelo tirano. Conheço um jornalista, que trabalha como funcionário de mercado, aqui do bairro. Ele me contou que a redação do jornal dele era a mais militante por Chavez, na Venezuela, inclusive publicando somente notícias favoráveis. Hoje, esse mesmo jornalista pragueja Chavez e o deseja no “malebouge”, lá depois dos sete círculos infernais de Dante.

Em outras palavras, os venezuelanos fizeram todas as cagadas possíveis no país deles. Quando a coisa ficou feia, fugiram. Aqueles que podiam, naturalmente, já que um atravessador cobra até dois mil dólares para trazer eles próximos à fronteira do Brasil. E, dois mil dólares é coisa que nenhum pobre, seja de lá, ou de cá tenha. Ninguém foge à sua história, eu sempre digo isso. Os venezuelanos estão aprendendo da maneira mais dura possível, que defender o indefensável tem consequências. O que me incomoda é a visão de crianças esquálidas, quase esqueletos humanos com uma pele por sobre o corpo. Isso me dói na alma.

No entanto, sou da posição de que, você tem que ser responsável pelos seus atos e pelas suas escolhas. E, fica um recado para Pindorama e para aqueles que estão namorando com o totalitarismo e com a volta do petismo: ninguém foge à sua história. Com a América Latina quase toda nas mãos dos esquerdistas só sobraram o Paraguai e o Uruguai, mas acredito que, tal qual eu, eles não estão dispostos a receber, como onda de refugiado aqueles que, deliberadamente colocaram o lobo para tomar conta do redil.

Ninguém foge à sua história. Professores, sindicatos, profissionais liberais, estudantes. Essa é uma lição ao vivo que o socialismo está dando a todos, Deixar ser seduzido, ou não só depende de abrir a janela do carro, quando estiverem nas ruas e ler, com atenção aqueles cartazes garatujados, muitas vezes com um pedaço de carvão: Sou venezuelano e tenho fome! Essa é a lição que a história da Venezuela está dando ao povo dela. Essa é a lição que a Venezuela está dando a nós, brasileiros, em 2022.

4 pensou em “O HOMEM E A HISTÓRIA

  1. Parabéns pela perfeição do texto, “O HOMEM E A HISTÓRIA”, prezado Roque Nunes!

    Você é um homem feliz, por ter uma fiel escudeira como Renata, que até o médico partilha com você.
    Não só gostei, mas adorei, você ter se lembrado de mim, ao falar em “óbolo”…rsrs. Também adorei seu gesto de “não dar de ombro” para o clamor da fome, embora “desestimule quem quer que seja a dar qualquer óbolo “, aos “acolhidos”. e explica suas razões..

    Respeito o seu ponto de vista, ao se posicionar totalmente contra o programa do governo federal chamado “Acolhimento”.

    Sobre a “Operação Acolhida”, criada em 2018 pelo governo federal, de acordo com agências da ONU, o número de venezuelanos que deixou o país ultrapassa 5 milhões de pessoas e o Brasil seria o quinto destino procurado por eles. Essa Operação visa garantir o atendimento humanitário aos refugiados e migrantes venezuelanos em Roraima, principal porta de entrada da Venezuela no Brasil..

    Uma grande força-tarefa humanitária executada e coordenada pelo Governo Federal com o apoio de entes federativos, agências da ONU, organismos internacionais, organizações da sociedade civil e entidades privadas, totalizando mais de 100 parceiros, a Operação oferece assistência emergencial aos refugiados e migrantes venezuelanos que entram no Brasil pela fronteira com Roraima.

    Na verdade, se o Brasil tivesse as condições que parece ter, os acolhidos não estariam expondo sua fome nos sinais de trânsito, explorando a caridade pública.

    Grande abraço!

  2. A crônica do compadre Roque serve de alerta aqueles que se deixam seduzir pelo “New” canto da sereia.
    O véio da HAVAN é que tem várias histórias e conhece muitos empresários venezuelanos que, “encantados” com o Bolivarianismo, apostaram na douração da pílula placebo e, até hoje, amargam imensamente o passo em falso, dado. Os prevenidos e “vacinados” contra o socialismo, venderam tudo e foram surfar em outras ondas do Caribe. Os cegos pela ideologia, penam até hoje, com suas bandeiras riscadas a carvão, pedindo ajuda nas esquinas e sinais de transito.

    A distribuição igualitária da miséria foi instalada com sucesso.

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