Pouca gente desconfia que o esporte onde se chuta uma bola redonda e o esporte onde se carrega ou se arremessa uma bola oval têm a mesma origem. Mas o conceito de dois times tentando levar um objeto para o campo inimigo, em uma metáfora dos campos de batalha, já existia na Grécia antiga, com o nome de Episkyros. De lá foi para Roma, com o nome de Harpastum. Na Idade Média, o jogo conservou sua popularidade nas Ilhas Britânicas, onde era jogado nas ruas. Uma lei de 1363 já falava em “hand ball” (bola de mão) e “foot ball” (bola de pé). O conceito era sempre o de “invadir” o terreno adversário, com a bola sendo o símbolo dessa “conquista”. As regras variavam segundo o costume de cada lugar.
Em 1845, um colégio na cidade de Rugby criou um campeonato interno com regras escritas, que rapidamente se espalharam por outros colégios da Inglaterra. Os jogos baseados nesse regulamento passaram a ser chamados “Rugby football”, ou “Futebol de Rugby”. Em 1895 surgiu a primeira liga, formada por 21 clubes. Com isso, o rugby tornou-se o primeiro esporte a ter jogadores profissionais, que recebiam dinheiro para jogar. Antes disso, o esporte já era praticado nos colégios e universidades dos EUA, onde recebeu modificações que levariam ao moderno football (chamado em português de futebol americano).
As primeiras restrições ao uso das mãos surgiram com a criação da Football Association em Cambridge, em 1863: era permitido segurar a bola com as mãos, mas não carregá-la. Nos anos seguintes, as regras foram mudando rapidamente até se tornarem um esporte bastante diferente do rugby. Por seguir as regras da Football Association, esse esporte passou a ser chamado “Association Football”, ou “futebol da Associação”. Com o tempo, foi abreviado para “Soc Football” e finalmente “soccer”. A FIFA, atualmente a entidade máxima do futebol, foi fundada em 1904.
Nos tempos modernos, é interessante notar o quanto o football e o futebol refletem os costumes e a sociedade dos países que os praticam. Para não ficar muito extenso, vamos nos restringir a Brasil e EUA:
Nos EUA, berço da livre iniciativa, o football profissional é sinônimo de NFL. Trata-se de uma liga formada por 32 times, e cada time tem um dono. O objetivo da liga é claro: vender um produto de entretenimento para obter lucro. A liga é dona de si mesma, faz suas próprias regras e controla a comercialização de seus produtos. A liga sabe que se o público não gostar, não compra, e portanto se esforça em oferecer um “bom produto”. Se alguém quiser fazer concorrência para a NFL e criar outra liga, é só começar – aliás, existem outras ligas, mas tão menores que muita gente nem sabe que elas existem. Trata-se, em resumo, de um claro exemplo de livre mercado.
No Brasil, o futebol segue uma lógica diferente, do mesmo jeito que o restante: os times pertencem a clubes, e cada clube é administrado de um jeito. Embora sejam eles que “fazem o jogo acontecer”, quem manda e faz as regras é uma confederação nacional complementada por 27 federações estaduais, e esta confederação obedece a um órgão mundial chamado FIFA. Os torcedores, de modo geral, não têm a menor idéia de como funcionam as tais federações, quem as dirige, e de que forma são escolhidos seus dirigentes. Da mesma forma que no mundo real, simplesmente se aceita que existem os que mandam e os que obedecem. Vale lembrar que se um grupo de pessoas quiser montar um campeonato alternativo, não pode, a menos que seja autorizado pela federação. Isso, aliás, não é só para o futebol: qualquer esporte no Brasil só pode acontecer sob os auspícios da respectiva confederação e das 27 federações estaduais, ainda que algumas nem existam.
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Nos EUA, um dono de time de football daria boas gargalhadas se lhe pedissem para seus jogadores jogarem de graça para alguém.
No Brasil, e no resto do mundo do futebol, é normal que o time que banca os jogadores tenha que cedê-los de graça para jogar nas seleções. As seleções participam de copas e torneios que são organizados pelas confederações e pela FIFA em um modelo em que o lucro é delas e a despesa é dos outros. Da mesma forma que no “mundo real”, é considerado normal que os “donos do poder” vivam às custas do trabalho alheio.
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No football, as regras são claras e extremamente minuciosas. Se em um jogo acontece algo que é visto como indesejável ou anti-esportivo, muito provavelmente será criada uma regra específica para essa situação. A idéia é que os times devem se guiar pelo “espírito esportivo”, e não procurar se beneficiar de brechas no regulamento.
No futebol, embora existam regras objetivas, prevalece a idéia de que sempre deve haver um recurso para impôr uma decisão “subjetiva”. No mundo real as leis costumam usar a expressão “a critério da autoridade competente”. No futebol, diz-se que é uma “questão de interpretação”. Como exemplo, o árbitro pode mostrar um cartão amarelo ou um vermelho, baseando-se unicamente em seu critério pessoal, e sabendo que essa decisão pode influenciar bastante no resultado do jogo. Claro que esses casos são discutidos por horas e horas nas famosas “mesas redondas” dos canais esportivos, mas na prática o poder do árbitro prevalece e raramente é questionado pelos “poderes superiores”.
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No football, após uma falta, os juízes (são 7) conversam entre si, consultam o vídeo se necessário e chegam a um consenso. Então o juiz principal vai até o centro do campo, liga o microfone e explica através dos alto-falantes do estádio o que aconteceu. O jogo recomeça.
No nosso futebol, após uma falta, o juiz (único) é imediatamente cercado por jogadores de ambos os times e inicia-se um bate-boca, com todos falando ao mesmo tempo. O juiz anda para trás e é seguido pelos jogadores que continuam falando (nós, do público, não podemos ouvir). Após algum tempo a “reunião” acaba, a falta é cobrada, e o jogo prossegue. Em alguns casos, a critério exclusivo do juiz e sem nenhuma prova factual, um jogador recebe o famoso “cartão por reclamação”.
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No football, existe um relógio regressivo que marca os quinze minutos de cada um dos quatro “tempos” do jogo. Cada tempo acaba exatamente quando o relógio chega a zero.
No futebol, cada tempo dura 45 minutos e mais um “acréscimo”. Cada tempo acaba exatamente quando o juiz quiser.
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Os times da NFL jogam cinco meses por ano (setembro a janeiro) e o calendário é definido pela própria liga. As redes de TV concorrem entre si para comprar os direitos de transmissão, gerando uma receita de dez bilhões de dólares por ano. Praticamente não existem jogos sem estádio lotado (o recorde é do Green Bay Packers, que esgotou todos os ingressos em todos os seus jogos em casa desde 1959).
No futebol, o calendário é definido pelas federações e pela CBF, que parece mais atenta aos interesses das redes de TV que aos dos clubes. São disputados quatro campeonatos ao mesmo tempo e alguns clubes jogam duas vezes por semana durante meses. Jogos com estádios praticamente vazios são comuns. Mas no Brasil certamente não é só no futebol que coisas absurdas prejudicam a maioria para beneficiar alguns poucos.
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Nos EUA, assistir a um jogo é considerado “entretenimento”. As pessoas vão ao estádio (que têm enormes estacionamentos), bebem cerveja, comem cachorro-quente, comemoram os gols e voltam para casa felizes (em caso de vitória) ou tristes (em caso de derrota), mas sem achar que o resultado tenha alterado a vida de alguém.
No Brasil, jogo de futebol parece uma declaração de guerra: torcedores são acompanhados pela polícia e ruas próximas ao estádio são fechadas. Em jogos “importantes”, a rotina pós-jogo inclui brigas coletivas, depredações variadas e torcedores presos.
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Nos EUA, os torcedores geralmente vêem com bons olhos um jogo pacífico, sem polêmicas e com uma arbitragem justa e imparcial.
No futebol daqui, o torcedor acredita com toda convicção que o seu time nunca comete uma falta sequer, e que se o juiz marcar alguma é ladrão. Acredita também que é obrigação do bandeirinha nunca marcar impedimento para o seu time, mas sempre marcar para o time adversário. Mesmo ser ver, sabe que se foi contra o seu time, não foi pênalti, mas se foi a favor, então foi. Repete sempre que “ganhar roubado é mais gostoso” e acha que o juiz têm obrigação moral de sempre errar a favor do seu time. De modo geral, o brasileiro usa este mesmo modo de pensar quando se trata de políticos e de eleições.
Bom dia, belo artigo que reforça meu argumento de nunca pisar num estádio
Também nunca fui.
Detalhe: Todo mundo diz que o gol “é o grande momento do futebol”, mas se você for estudar as regras, verá que a maioria foi feita para evitar esse “grande momento” (barreira, impedimento, etc)! Outra coisa: Ninguém me tira da cabeça que esse é um jogo de “cartas marcadas”, com resultados combinados! Portanto, como diz meu xará acima, não piso num estádio nem que a vaca tussa!
Só o fato da TV escolher quais jogos transmite e pagar valores diferentes para cada clube já acaba com qualquer tentativa de credibilidade.
O meu guru está com a pena cada dia mais afiada.
SIMPLESMENTE SUBLIME!
São seus olhos, mestre.
E por falar em futebol, que aqui na terrinha, já anda mal das pernas, a nova moda das bets(loterias), vão acabar de matar o “moribundo” e enterrar de vez a prática esportiva. São tantas falcatruas entre jogadores, arbítros e outros a serem descobertas que o esporte vai cair totalmente no descrédito. Aguardemos.
Eu ainda estou “em choque” com a idéia de uma casa de apostas aceitar a aposta de que um jogador vai receber cartão amarelo ou não. É absurdo demais para minha cabeça.
Prezado Marcelo Bertoluci
Excelente o seu artigo.
Faço apenas um adendo. Já presenciei há tempos nas antigas lan houses em São Paulo a molecada fazendo apostas nesses sites (que atualmente são patrocinadores de quase todos os clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro, de jogadores dos principais clubes e da seleção nacional e também de jornalistas e radialistas esportivos, influencers, blogueiros, etc). Como diria o Mestre Berto: puta que pariu!
A molecada (menores de idade mesmo, pqp!) aluga cartões de crédito de colegas mais velhos para jogar! A coisa está tão disseminada entre eles que é considerado normal apostar em cartões amarelos, vermelhos, faltas, escanteios e até laterais, já que atualmente o futebol brasileiro está tão ultrapassado que é difícil acontecer resultados com gols.
Eu avisava o dono da loja sobre o fenômeno mas o cara geralmente lavava as mãos e dava de ombros, alegando que o problema não era dele… Ou melhor, acho que todos eles se perguntados hoje diriam que não sabem de nada, adotando o bordão vigente.
Atualmente, em que quase todos tem celulares, imagine se alguém vai conseguir impedir um moleque de fazer apostas….
Marcon, essa questão das apostas é uma pequena parte de um problema bem maior: o costume de nossa sociedade de dizer que tudo pode, desde que seja escondido.
O presidente Dutra fechou os cassinos com uma canetada no fim dos anos 40 (quase um século). Alguém acredita que o jogo deixou de existir? Não, ele apenas foi “reservado” para os amigos e parentes daqueles que estão no poder. Existe, e ninguém quer que deixe de existir. Só quer se seja oficialmente proibido e feito por baixo dos panos.
É o mesmo caso das drogas, supostamente proibidas mas que são livremente consumidas em toda parte.
È o mesmo caso do aborto, supostamente proibido mas que acontece todo dia.
É o mesmo caso das casas de prostituição, supostamente proibidas mas amplamente frequentadas.
É o mesmo caso do adultério, supostamente proibido mas praticado com gosto por tanta gente.
Machado de Assis já ironizou: “o que mantém a sociedade funcionando não são os valores éticos e morais, mas sim a hipocrisia.”
Excelente!
Já registro que, pela regra inexistente para casos tais e amplamente usada pelos supremos de plantão, deixa de ser excelente, ainda que o seja, se os supremos de plantão disserem que não é. 🙃🤭🤣
Obrigado, Nonato.
Deixando claro que não conheço o Nonato, nunca o vi pessoalmente e que escrevo essa resposta achando que não estou falando com o Nonato.