DEU NO JORNAL

Alan Ghani

O PIB cresce, mas segue o eterno voo de galinha: avanço sustentado por estímulos fiscais, inflação, juros altos e mais endividamento das famílias

O PIB brasileiro avançou 1,1% no primeiro trimestre de 2026 na comparação com o trimestre anterior, segundo dados divulgados pelo IBGE em 29 de maio. Pelo lado da oferta, o desempenho foi puxado principalmente pela agropecuária (2,0%), indústria (1,0%) e, em menor escala, serviços (0,5%). Pela ótica da demanda, houve expansão do consumo (1,0%), do investimento das empresas (3,5%) e dos gastos do governo (0,4%), além de queda das exportações (-1,7%) e aumento das importações (4,4%).

Embora o resultado tenha sido acima do consenso de mercado (1,0%), não há nada o que comemorar, principalmente porque a dinâmica do crescimento continua baseada em estímulos fiscais com claras consequências negativas para a sociedade.

Não se trata de um crescimento sustentável calcado na elevação da produtividade. Pelo contrário, o aumento do PIB decorre de políticas econômicas populistas para estimular a produção em um curto período de tempo, às custas de condenar a nação ao atraso no médio e longo prazo

Desde a sua eleição, Lula tem anabolizado o crescimento do PIB com crédito subsidiado e desonerações fiscais seletivas para estimular o consumo a qualquer custo, mesmo que o resultado seja mais inflação, juros mais elevados e endividamento das famílias.

Se, de um lado, o país poderá crescer acima de 2% neste ano e a taxa de desemprego está em 5,8%, do outro, a expectativa de inflação para 2026 está acima de 5,00%, e há 80,4% de famílias endividadas, de acordo com pesquisa da CNC. Numa ponderação entre custo e benefício, será que as vantagens de um crescimento próximo de 2% e de um mercado de trabalho mais aquecido superam os efeitos colaterais gerados pelo populismo eleitoral para alcançar esses resultados?

A resposta é, evidentemente, não. Primeiro, porque o benefício do crescimento de 2% é muito pequeno para um país emergente. De acordo com o FMI, os países emergentes crescem, em média, 4,2%.

Segundo, porque os custos desse crescimento superam os benefícios. O crescimento anabolizado significa estimular a demanda acima do PIB potencial do país, com reflexos inflacionários. O que adianta uma reduzida taxa de desemprego se o poder de compra da população está diminuindo por conta da elevação do custo de vida?

Além disso, a inflação provoca elevação nas taxas de juros. Os juros mais elevados criam obstáculos para as pessoas saírem do endividamento. Não à toa, há 83,3 milhões de brasileiros inadimplentes, de acordo com dados do Serasa.

Outro ponto é que os juros mais elevados diminuem o investimento das empresas. O Brasil apresenta uma taxa de investimento muito pequena perto da média dos países emergentes. Nesse nível de investimento, é impossível sair de uma economia emergente para uma desenvolvida com redução significativa da pobreza.

A raiz desse eterno voo de galinha, e de nos contentarmos com o crescimento de 2% a 3% como se fosse algo espetacular, é o gigantesco tamanho do Estado brasileiro, que drena recursos do setor privado para o financiamento estatal e torna o custo de capital historicamente oneroso. Mas, na lógica populista do lulopetismo, o que interessa mesmo é criar a narrativa de que o país cresce como águia, quando, na realidade, voa como galinha.

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