MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

Você já ouviu falar de John Halder?

Talvez citar só o nome não seja suficiente para você se lembrar. Vamos a mais algumas pistas: professor universitário, casado, pai de um casal de filhos e com a mãe idosa e doente morando em sua casa. Seu lar era um tanto caótico, pela natural agitação das crianças somada à doença da mãe. A esposa Helen parecia ter problemas psicológicos, tocando piano de maneira compulsiva na sala.

Mas John Halder lidava resignadamente com esse caos, sem demonstrar irritação ou agressividade com sua família. E ainda conseguiu escrever um romance que mudaria sua vida.

Bem, quem conhece o filme Um Homem Bom – título original Good – já sabe que estou falando de seu personagem principal, interpretado por Viggo Mortensen: um professor universitário alemão, que vive na Alemanha dos anos 1930, justamente quando o Partido Nazista chega ao poder.

No decorrer da narrativa, dois personagens terão grande importância nos acontecimentos que se seguem: a aluna Anne Hartmann e o amigo Maurice Israel Glückstein, um psiquiatra judeu que lutou na Primeira Grande Guerra ao lado de John.

Revendo o filme recentemente, estive refletindo sobre a razão pela qual regimes autoritários buscam maneiras de obter legitimidade popular. E sobre pessoas que não necessariamente comungam com as tendências autoritárias do regime, mas acabam contribuindo com essa legitimação.

O fenômeno é velho conhecido dos cientistas sociais e políticos: a força pode ser suficiente para impor uma decisão; mas dificilmente é capaz de sustentar, sozinha, um sistema de poder. É preciso que alguém explique por que determinadas medidas são necessárias. Que alguém lhes dê uma fundamentação racional. Que pessoas respeitáveis as considerem aceitáveis. Que instituições as incorporem ao seu funcionamento cotidiano. E, sobretudo, que aqueles que poderiam levantar objeções encontrem boas razões para não fazê-lo.

É aí que homens como John Halder se tornam importantes.

No enredo de Um Homem Bom, Halder não é um militante. Não participou da construção do regime. Sequer demonstra entusiasmo por sua ideologia. É um professor de literatura preocupado com as aulas, os livros, a família e seus problemas domésticos.

Mas escreveu um romance. Nele, tratou da eutanásia a partir de um drama que conhecia de perto: o sofrimento provocado pela doença de sua própria mãe. O livro chama a atenção de integrantes do governo, interessados em utilizar aquelas ideias para objetivos muito diferentes daqueles que haviam levado o professor a escrevê-lo.

O intelectual descobre, então, algo bastante sedutor: o poder o considera importante.

Halder é ouvido. É consultado. Suas ideias interessam. Pessoas importantes sabem quem ele é.

Talvez comece aí um dos mecanismos mais eficientes de cooptação intelectual. Não é necessário exigir de alguém que renuncie imediatamente às próprias convicções. Pode ser suficiente convencê-lo de que, finalmente, suas ideias estão sendo levadas a sério.

Depois vêm os passos seguintes. Uma aproximação. Um convite. Uma função. A filiação a uma associação ou a um partido. Cada concessão, examinada isoladamente, parece pequena. O problema é que a posição a partir da qual se avalia a concessão seguinte já não é a mesma.

Na trama do filme, John Halder, a cada passo, continua querendo ser um homem bom. Essa talvez seja a característica mais inquietante do personagem. Ele não acorda certa manhã e decide abandonar seus valores. Ao contrário, procura continuamente demonstrar a si mesmo que suas escolhas continuam compatíveis com eles.

Mas há outro traço da sua personalidade que parece influenciar diretamente os acontecimentos que se seguem. Uma característica frequentemente encontrada em pessoas consideradas boas: a dificuldade de dizer “não”.

Cada vez que John é chamado a dar um passo que não estava em seus planos, ele hesita… mas cede. Ou avança, o que dá no mesmo.

Isso se revela não apenas em sua trajetória em relação ao Partido Nacional-Socialista, mas também no envolvimento com sua aluna Anne. É ela quem se aproxima, toma a iniciativa e até “rouba” dele o primeiro beijo.

Rapidamente, o relacionamento evolui e ele se divorcia de Helen. Já casado com Anne, ele confessa ao amigo Maurice que não sabe exatamente o que o levou a mudar de vida dessa maneira.

Maurice não se surpreende com a confissão. O fato que lhe causa surpresa é saber da adesão do amigo ao Partido. E Maurice não esconde a decepção. Chega a dizer que gostaria de ouvir que John pelo menos aderira àquilo por interesse. Que John não acreditava naquilo. Que continuava sendo, no fundo, o mesmo homem.

Mas Halder responde: “Não importa se concordo com eles. O fato é que estão no poder! Pelo menos estou fazendo algo. Se nós queremos mudar alguma coisa, colocá-los na direção certa, não podemos ficar à margem.”

A justificativa é extraordinária.

Já não se trata simplesmente de dizer: estou cedendo porque preciso proteger minha carreira.

A concessão transforma-se em participação responsável. A adesão passa a ser apresentada a si mesmo, não como abandono dos próprios princípios, mas quase como consequência deles. Afinal, se as pessoas razoáveis deixarem o poder exclusivamente nas mãos dos radicais, quem poderá moderá-los?

E assim se constrói um raciocínio particularmente eficiente: alguém pode colaborar com um sistema sem precisar reconhecer para si mesmo que está colaborando com aquilo que há de errado nele.

Pode até imaginar que sua presença o torna melhor.

Há nisso uma questão que ultrapassa em muito a trajetória individual de John Halder: sistemas autoritários não são construídos apenas por fanáticos.

Fanáticos podem ocupar as ruas, fazer discursos, perseguir adversários e executar ordens. Mas, para que determinadas práticas adquiram aparência de normalidade, outras pessoas são necessárias.

Professores podem fornecer conceitos. Intelectuais podem oferecer justificações. Juristas podem construir interpretações. Instituições podem estabelecer procedimentos. Pessoas respeitáveis podem emprestar sua própria respeitabilidade àquilo que, apresentado de outra maneira, talvez provocasse resistência.

E sempre haverá jornalistas, comentaristas e outros formadores de opinião dispostos a fazer sua parte na propagação disso tudo.

Nem todos precisam acreditar.

Alguns podem aderir por convicção. Outros, por interesse. Outros porque têm medo das consequências de ficar de fora. E haverá aqueles que realmente acreditarão que sua presença dentro do sistema poderá evitar excessos.

Há ainda os que simplesmente se calam. A omissão também tem utilidade institucional.

Para que uma ordem se deteriore, não é necessário que todos apoiem cada uma de suas decisões. Talvez nem seja necessário que a maioria o faça entusiasticamente. Pode bastar que aqueles capazes de oferecer resistência encontrem razões suficientes para permanecer em silêncio.

Alguns terão dúvidas, mas considerarão que ainda não chegou o momento de romper. Alguns perceberão excessos, mas acreditarão que poderão corrigi-los por dentro. Outros concluirão que o custo pessoal da resistência é alto demais.

E provavelmente muitos continuarão se considerando boas pessoas.

O sistema, por sua vez, sabe recompensar quem permanece dentro dele.

Em outra passagem particularmente interessante do filme, Halder vai a uma estação ferroviária comprar uma passagem para Paris. Pretende entregá-la a Maurice, permitindo que o amigo deixe a Alemanha.

Há uma fila.

Halder entra nela como qualquer outra pessoa, até ser reconhecido por um integrante do Partido. Imediatamente é retirado da fila e conduzido ao guichê.

A explicação é direta, crua, uma mistura de arrogância com deboche: “Você faz parte da elite. Não precisa ficar em filas!”

A cena dura pouco, mas contém quase todo o mecanismo. O mesmo sistema que torna a vida de Maurice progressivamente impossível torna a vida de Halder progressivamente mais fácil.

Um perde direitos. O outro ganha privilégios.

Um começa a descobrir que lugares antes acessíveis já não estão disponíveis. O outro descobre que portas antes fechadas agora se abrem.

Aproximar-se do poder produz benefícios. Afastar-se dele começa a produzir custos.

Em determinado momento, já não estamos apenas diante da escolha entre concordar ou discordar. Estamos diante da escolha entre pertencer ou ficar de fora.

Mas há um problema com as pequenas concessões: enquanto estamos fazendo cada uma delas, é difícil perceber a distância total percorrida; até que alguma coisa nos obrigue a olhar.

A partir daqui, preciso revelar uma das cenas mais importantes do filme.

Na noite de 9 para 10 de novembro de 1938, quando centenas de sinagogas, lojas e casas de judeus foram destruídas, no brutal evento que ficaria conhecido como a Noite dos Cristais, Halder finalmente percebe a dimensão do perigo que cerca seu amigo Maurice.

E resolve ajudá-lo.

Ao comunicar sua intenção à esposa Anne, ela não inicia uma discussão política. Não apresenta argumentos. Não procura convencê-lo de coisa alguma. Apenas aponta para o espelho: “Olhe para você, John! Olhe para você!”

Durante boa parte da história, ele havia conseguido explicar a si mesmo quem era: um professor que escrevera um romance sobre o sofrimento da mãe.

Era o amigo de Maurice.

Era o homem que não necessariamente concordava com os nazistas.

Era alguém que aceitara participar do Partido Nazista porque talvez fosse possível mudar as coisas por dentro.

Era, afinal, um homem bom. Um homem que agora era confrontado com a sua imagem no espelho.

Argumentos permitem outros argumentos. O espelho não argumenta.

Halder olha para sua própria imagem. E vê um capitão da SS.

E isso nos põe diante de uma pergunta extremamente incômoda: em que momento John Halder deixou de ser apenas um homem bom, tentando conviver com o sistema, e passou a fazer parte dele?

A única resposta que me ocorre é que talvez não tenha havido esse momento.

Talvez tenha havido apenas uma sucessão de pequenos momentos, todos suficientemente justificáveis quando considerados isoladamente. Até que já não havia caminho de volta.

Um comentário em “O ESPELHO DE JOHN HALDER

  1. Pois é Exa. Não sei era vossa intenção, mas não consigo ler este texto sem traçar um paralelo mental com a situação de nosso país. Vivemos um momento grave; de degradação ética sem precedentes.

    Quantos da elite política, judicial ou administrativa aderiram por ação ou omissão ao atual estado de coisas? Quantos “do povo”passaram a tolerar desmando os mais absurdos em troca de uma migalha.

    Meu Deus, eu havia me esquecido deste filme. John Halder vive aqui!

    Obrigado, MM, por nos trazer sta análise. Espero que ainda haja volta.

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