MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

Há países em crise. Há países em decadência. E há países que entraram num estado mais sofisticado — e mais perigoso — de colapso: a paralisia moral e institucional. O Brasil habita exatamente esse território nebuloso, onde nada explode de vez, mas tudo apodrece lentamente. Não se trata mais de corrupção episódica, nem de incompetência pontual. Trata-se de algo estrutural: o país perdeu a capacidade de decidir. Decide-se apenas o discurso. A realidade fica em suspensão, como um paciente entubado mantido vivo por protocolos que ninguém mais acredita, mas que ninguém ousa desligar.

Vivemos numa nação em que crimes extremos se repetem com regularidade estatística, e ainda assim são tratados como “casos isolados”. Onde monstros são libertados em nome de teses abstratas, e vítimas reais são convertidas em rodapé de reportagem. Onde a palavra “ressocialização” virou um mantra mágico, repetido para evitar o constrangimento de admitir que há indivíduos que romperam irreversivelmente o pacto civilizatório.

O Brasil não é um país humanista.

É um país retórico. Aqui, confunde-se humanidade com permissividade, compaixão com negligência, e direitos humanos com direitos do agressor — enquanto os direitos do cidadão comum são terceirizados à sorte, à fé ou ao acaso. O Estado brasileiro age como um médico que se recusa a diagnosticar tumores porque “a palavra câncer é muito forte”. Prefere chamar de “lesão social complexa”, enquanto o paciente morre com elegância semântica. O mais perturbador não é a existência do criminoso. Toda sociedade os tem. O escândalo está no sistema que insiste em fingir surpresa.

Quando um estuprador reincide, o Estado pede desculpas. Quando um assassino mata de novo, o Estado abre sindicância. Quando inocentes morrem, o Estado promete “apurar responsabilidades”. Mas ninguém responde por nada.

Porque a irresponsabilidade, no Brasil, é colegiada. Juízes decidem “com base na lei”, legisladores culpam “a interpretação”, o Executivo fala em “políticas públicas futuras”, e a sociedade assiste anestesiada, como quem vê uma série macabra que já perdeu o impacto — mas continua assistindo por inércia.

Não é que falte lei. Falta coragem moral para dizer o óbvio: Nem todo criminoso é recuperável; Nem toda teoria sobrevive ao teste da realidade; Nem toda decisão “humanitária” é, de fato, humana. O Brasil se tornou especialista em transferir risco. Risco do sistema para a vítima. Risco do criminoso para a sociedade. Risco da falha institucional para o cidadão comum. Isso não é civilização. Isso é covardia organizada. Enquanto isso, cria-se uma elite discursiva que vive num país abstrato — um Brasil conceitual, limpo, teórico — onde tudo se resolve com palavras cuidadosamente escolhidas. Já o Brasil real sangra, enterra seus mortos e aprende, muito cedo, que justiça é um luxo instável.

A paralisia moral se revela quando ninguém mais sabe o que é inaceitável. Quando tudo é relativizado. Quando toda crítica é “radical”. Quando toda indignação é “exagerada”. Quando exigir proteção vira “autoritarismo”. E assim seguimos: um país que não pune de verdade, não recupera de verdade e não protege de verdade. Um país suspenso entre o medo de parecer duro e o pânico de parecer permissivo — optando, no fim, pela opção mais confortável: não decidir nada.Mas há um custo. Sempre há. O custo é pago por crianças, idosos, mulheres, trabalhadores comuns — gente sem assessoria jurídica, sem microfone, sem narrativa. Gente real, em carne, osso e medo. A pergunta já não é “quem governa”. A pergunta é: quem tem coragem de romper essa paralisia? Porque um país que não consegue proteger seus inocentes já começou a falhar como civilização, ainda que continue funcionando como burocracia. E talvez o mais devastador de tudo seja isto: o Brasil não está em colapso. Está acomodado ao colapso.

E não há estado mais perigoso do que aquele em que o absurdo se torna rotina — e a barbárie aprende a usar gravata, carimbo e linguagem técnica.

4 pensou em “O BRASIL VIVE UMA ESPÉCIE DE PARALISIA MORAL E INSTITUCIONAL

    • João, engraçado que só agora percebi que o meu texto está, digamos assim, alinhado com a postagem do que está acontecendo na suprema bosta federal. Ali o escárnio rola solto.
      Para terminar, é uma verecúndia aquilo ali ainda ser uma “instituição”.

      • Caro Maurino, no STF está um clima de barata voa.

        O Sistema viu que criou um corvo que agora lhe quer os olhos.

        Querem se livrar dos problemas.

        Vai custar caro.

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