VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

Fazer o bem sem olhar a quem, é bíblico. Mas se a caridade for propagada, passa a ser exibicionismo.

“Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á.” (Sermão da Montanha – MT 5.1-2)

Ajudar alguém, eventualmente, é uma coisa. Mas assumir os problemas dos outros, é outra. Há pessoas que não passam sem ter problemas. E quando não tem, arranjam. Depois, querem que os outros resolvam.
Ninguém tem obrigação de assumir os problemas de ninguém. É aí que está a diferença entre ser bom e ser “bombom.”

Os invejosos não pensam nas pedras que você encontrou pelos caminhos até chegar onde chegou. Nem na dor que você sentiu, ao machucar seus pés nas pedras. Nem nas lágrimas que você derramou, ao ver seus sonhos desfeitos.

Pois bem.

Seu Jorge, dono de uma pequena fazenda, e sua esposa Efigênia moravam numa cidade do interior nordestino. O casal tinha dois filhos. Muito caridosos, marido e mulher combinavam em tudo e viviam em harmonia. A casa deles estava sempre de portas abertas aos necessitados, como se não tivessem chaves nem tramelas.

Era comum, ao amanhecer o dia, pessoas famintas se encontrarem à sua porta, pedindo o café da manhã. Na hora do almoço, a cena se repetia. Os pobres ficavam na calçada, à espera de comida. O casal não negava um prato de alimento a ninguém, ou uma ajuda em dinheiro, para um remédio ou outra coisa necessária.

Com o passar do tempo, oportunistas passaram a se aproveitar da bondade do casal. Na hora das refeições, sempre chegavam alguns desconhecidos, com conversa mole, praticamente se convidando para almoçar ou jantar. Pediam até dormida.

Até pessoas empregadas, mas sem escrúpulos, tentavam tirar proveito do casal, usando de ardil para conseguir dinheiro “emprestado”, o que terminava em calote.

Com a hospitalidade típica do nordestino, o casal tinha prazer em hospedar, em sua casa, pessoas amigas e parentes.

O fazendeiro ajudava aos necessitados, sem alarde e, simplesmente, pelo espírito de caridade. Não era político nem cabo eleitoral.

Entretanto, pessoas sovinas e invejosas, que dão adeus de mão fechada, e são incapazes de dar uma esmola, achavam pouco o que ele fazia e instigavam os pobres para que lhe pedissem muito mais. Diziam que o fazendeiro era muito rico e devia ajudar ainda mais.

Isso chegou aos ouvidos do casal, que ficou indignado com a maldade humana.

Depois de uma conversa confidencial com o padre da Paróquia, pedindo orientação de como deveria agir para se livrar dos aproveitadores, o casal ouviu este conselho:

– Ajudar às pessoas necessitadas é exercer a caridade. Vocês são verdadeiros cristãos. Dar comida a quem não tem condições de se manter, é uma gesto sublime. Mas não se deixem explorar por pessoas más, verdadeiros golpistas.

O homem tem obrigação de ser bom. Mas não tem obrigação de ser “bombom”. Quem se faz de mel, as abelhas comem.

21 pensou em “O BOM E O “BOMBOM”

  1. Ah, meu bombonzinho…

    Como (ops, Sancho; você não come ninguém) é delicioso percorrer seu texto como se percorre uma estrada quando se está sem sem pressa ou o corpo de uma bela mulher.

    São CENAS DO CAMINHO que estendes graciosamente a cada sexta-feira pela estrada fubânica para degustação de quem tem ótimo paladar.

    Ah, e as antológicas frases de sua lavra?
    Eis a musa maior do JBF em todo o seu esplendor criativo: “O homem tem obrigação de ser bom. Mas não tem obrigação de ser “bombom”. Quem se faz de mel, as abelhas comem”.

    • Querido Sancho: Obrigada pelo carinho de suas palavras!

      É estimulante receber elogios de uma pessoa do seu nível, dono de uma inteligência genial, e um ser humano adorável.
      Lembrei-me do livro “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera (1983). Você me lembra um dos personagens.

      Grande abraço, e um maravilhoso final de semana!

      • Certamente me comparas a Tomas, um apaixonado pela leveza da vida, intelectual e admirador de mulheres, (principalmente pelos detalhes que as tornam singulares).

        “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera é certamente daqueles livros que terminamos de ler querendo correr à livraria a complar toda a obra do autor.

        Quanto à “inteligência genial” que relatas, fica por conta de sua imensa boa vontade com relação a Sancho.

        Grande abraço e um maravilhoso final de semana à musa maior de nossa maravilhosa gazeta!

        • Violante,
          A passagem que mais gosto no livro: “Aquele que deseja continuamente ‘elevar-se’ deve esperar um dia pela vertigem. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas porque sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados.”

          • Querido Sancho:

            Você é superlativamente inteligente!!!

            Fiquei feliz, por você mesmo identificar o personagem do livro “A insustentável Leveza do Ser” que me lembra você.
            A passagem que você citou, é a mais forte e verdadeira! É, também, a que mais me toca.

            Grande abraço! Um final de semana cheio de alegria, saúde e Paz!

  2. Violante,

    A sua crônica aborda um assunto muito importante esclarecendo o que é fazer o bem e não ser utilizado por pessoas mal intencionadas. No geral, os seres humanos têm a tendência de ajudar e dar uma “forcinha” para mudar e “melhorar” as outras pessoas e suas vidas.
    Até certo ponto, esta prática pode ser saudável e, quem sabe, altruísta por desejar o melhor para os outros. Porém também pode ser prejudicial em casos extremos, tanto para quem pratica como para quem recebe a ajuda. O ideal é ter lucidez para diferenciar quem realmente necessita de ajuda e quem deseja tirar proveito da pessoa que faz o bem aos necessitados, ou seja, não se deixar enganar por pessoas inescrupulosas que desejam dar o golpe. Gostei demais da conta do seu texto. Aproveito esse espaço democrático do Jornal da Besta Fubana para compartilhar um poema do meu baú de versos com a prezada amiga:

    FAZER O BEM

    A prática de fazer o bem,
    Ajuda quem faz também.
    Não seleciona a quem
    Para não ficar refém,
    Nem discriminar ninguém,
    Sem ofender quem nada tem.
    Seguindo Jesus de Belém
    E ir firme para o além.

    Desejo um final de semana pleno de paz, saúde e alegria

    Aristeu

    • Obrigada, prezado Aristeu, pelo comentário gentil e por compartilhar comigo o belo poema de sua autoria, “FAZER O BEM”. Gostei imensamente.

      Enquanto há pobres que pedem ajuda por extrema necessidade, há vigaristas de plantão, que tem emprego, mas não hesitam em aplicar golpes em pessoas de boa fé. Daí, o cuidado que se deve ter, para não se deixar explorar.
      Está provado que “quem se faz de mel, as abelhas comem.”

      Um final de semana cheio de paz, saúde e alegria, para você também!

  3. Parabéns, estimada Violante, por mais uma bela história. Sempre gostei deste provérbio (dizem ser italiano): “Faze-te de mel e as moscas te comerão”. Excelente! Aprendi com o grande Dostoiévski que uma coisa é a sensibilidade e outra coisa é a sensibilice. A sensibilidade eleva o ser humano, ao passo que a sensibilice o estraga. Hoje você nos deleita com ensinamentos filosóficos análogos ao do Dostoiévski, e nos adverte sobre a tênue diferença entre ser bom (sensibilidade dostoievskiana) e ser bombom (sensibilice dostoievskiana). Parabéns, Violante! Continue a nos contemplar com suas belas crônicas. Um forte abraço desde Fortaleza. Boaventura.

    • Obrigada pela gentileza do comentário, prezado Boaventura!

      Este provérbio “Faze-te de mel e as moscas te comerão”, é muito verdadeiro. É a pura sabedoria popular.

      A obra de Dostoievski possui um caráter psicológico determinante, que pode ser considerado um reflexo da sua alma sofrida.
      A sensibilidade nos leva a acreditar e a nos emocionar, diante das queixas que ouvimos de alguém.

      Realmente, “a sensibilidade eleva o ser humano, ao passo que a sensibilice o estraga.”

      Por isso, repisamos que o homem deve ser bom e não bombom, pois quem se faz de mel, as abelhas comem.

      Grande abraço, e um excelente final de semana!

      • Obrigado, Violante! Aproveito o ensejo para pedir-lhe a republicação de uma antiga crônica sua a respeito da letra da música A Banda, do Chico Buarque. Salvo engano, uma funcionária de uma repartição cantarolou uma parte dessa música, então no apogeu do sucesso, para um velho estafeta da repartição, em tom de escárnio: “O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou…”. Porém o velho respondeu à altura, completando a estrofe que, por coincidência, a achincalhava também. É isso? De antemão, Obrigado!

          • Prezado Boaventura:

            A minha crônica “A Banda” foi republicada hoje, em sua homenagem, no JBF.

            Um abraço e um excelente domingo!

            • Obrigado, caríssima Violante, por atender ao meu pedido de republicação desta sua espirituosa crônica “A Banda”.
              Agradeço também ao caro Editor Berto pela republicação.
              Obrigado! Um forte abraço. Boaventura.

    • Obrigada pelo comentário gentil, prezado Paulo Terracota!

      Fiquei feliz com suas palavras.

      Grande abraço, e um final de semana com muita saúde e Paz!!

  4. Presados Boaventura e Yolanda.

    Esses comentários de hoje, comprovam o que eu tenho sentido em todos os anos
    em que estou conectado com este grande JBF. É raro encontrar em um Jornal na
    Internet tal qualidade filosófica e literária nesta grandeza. Imaginem que depois de tantos anos lendo o JBF, só agora encontrei leitores declarados do magno
    Dostoyevski , um dos maiores gênios da literatura mundial de todos os tempos.
    Seus livros foram feitos para serem lidos, relidos, pensados e estudados de
    modo a compreender o nosso comportamento interno e também àquele externo que mostramos ao mundo. O autor consegue que sintamos de imediato as suas
    frustrações e desenganos causados pelas injustiças daqueles que se julgam
    os juizes do nosso comportamento social. Parece até que estamos vivenciando uma nova era Dostoyeskiana no nosso mundo atual, principalmente neste
    Brasil violado, estuprado sem qualquer esperança de normalidade jurídica.

  5. Obrigado, d. Matt! Em verdade, sou dostoievskiano. Assiste-lhe razão, Dostoiévski é um mago. Ademais, é um dos maiores conhecedores das nuances da natureza humana. Sempre acreditei em Deus (quando falo em Deus não me refiro aquela figura antropomórfica que fica lá no céu, punindo ou premiando o comportamento humano – sou espiritualista), e depois de conhecer o príncipe Michkin, plasmado por Dostoiévski em sua grande obra “O Idiota”, minha fé em Deus (Força espiritual que criou e move o mundo de forma harmoniosa), tornou-se transcendentalmente inabalável.

    • O principe O IDIOTA é uma das maiores criações do grande
      Dostoiévski, É um ser de uma sensibilidade tão elevada que
      não percebe as maldades e ironias dos seus semelhantes.
      Já o li e reli inúmeras vezes. O seu maior livro, na minha concepçao
      de leitor, é ” Recordações da casa dos mortos ” quando ele narra as in justiças de uma prisão ilegal , estúpida e arbitrária ,
      ( Isto foi ontem ? No passado siberiano ? ) ou está acontecendo
      agora ? . O passado sempre se repete, mas o ser humano continua se revoltando contra as arbitrariedades. Um dia vamos vencer, não é possível carregar essas correntes pesadas para sempre.
      Meu Caro, também sou espiritualista, e Deus para mim é de
      uma transcendência inimaginável e está além da minha diminuta
      lógica humana. Mas eu creio. Por isso sei que existe e que posso
      contar com ele.

  6. Prezado d.Matt:

    Obrigada pelo generoso comentário!

    Muitas pessoas podem se identificar com os escritos do genial Dostoievski, até os dias atuais, pois eles trazem significados ao nosso interior. Seus personagens, em sua maioria, estão sempre questionando a validade da moral e seus atos percorrem uma linha tênue entre o bem e o mal.

    A profundidade sentimental que encontramos na sua obra “Crime e Castigo”, somente um espírito extremamente sensível às relações humanas é capaz de entender.
    Sem dúvida, Dostoievski foi um dos maiores escritores da literatura russa e mundial.

    Concordo com você, quando diz que “o autor consegue que sintamos de imediato as suas
    frustrações e desenganos causados pelas injustiças daqueles que se julgam
    os juizes do nosso comportamento social. Parece até que estamos vivenciando uma nova era Dostoyeskiana no nosso mundo atual, principalmente neste Brasil violado, estuprado sem qualquer esperança de normalidade jurídica”.

    “Humilhados e Ofendidos”, título do romance escrito por Dostoievski em 1859, após ficar quatro anos preso na Sibéria, por motivos políticos, ilustra o que ele passou em seus dias de prisioneiro. Diariamente, ofendidos em seus direitos e humilhados pelas circunstâncias da vida, as personagens do romance são uma reunião de pessoas pisoteadas pela sociedade, por mais trabalhadores e honestos que sejam.

    Qualquer semelhança com o momento atual, é mera coincidência.

    Grande abraço, e um final de semana com muita saúde e Paz!

  7. O enganador é um simulador barato. Simula um estado de carência e compaixão para obter vantagens. É uma criatura sem caráter…sem escrúpulos.
    Hoje em dia estes “espertinhos” podem ser acusados de praticar Estelionato Sentimental (ou emocional), um notório exemplo ocorre quando o simulador se utiliza da boa-fé, estima ou confiança visando vantagens à custa do outro: doação, dinheiro, alimento, guarida, quitação de dívidas, etc. Fazendo o indevido uso da boa vontade alheia.

    . Até o próprio Cristo, já “sacava” os gaiatos de antão. . “Mas o próprio Jesus não acreditava neles, pois conhecia a todos, e não precisava de que alguém lhe desse testemunho a respeito do homem, pois ele bem sabia o que havia no homem”.

    Sorte dos aproveitadores de Sr. Jorge e D. Eugênica que, à época, não havia a definição de estelionato em nossas leis. Hoje, podiam ser enquadrados no art. 171 do código penal brasileiro.

    Quem se prejudica são os verdadeiros necessitados da compaixão alheia.

    Bela crônica, Violante!

    • Obrigada pelo excelente comentário, prezado Marcos André!

      Vivemos à mercê de pessoas inescrupulosas e golpistas. Com os tempos modernos, os golpes vem até pelo celular e redes sociais.

      Você está certo, quando diz: ” Até o próprio Cristo, já “sacava” os gaiatos de antão. . “Mas o próprio Jesus não acreditava neles, pois conhecia a todos, e não precisava de que alguém lhe desse testemunho a respeito do homem, pois ele bem sabia o que havia no homem ”.

      Portanto, sempre existiram aproveitadores e golpistas.
      Mesmo com a vigência do Art. 171 do código penal brasileiro, os contraventores estão soltos e se multiplicam a cada dia.

      Ainda bem que Seu Jorge e esposa foram orientados pelo padre da Paróquia, a afastar da sua porta os exploradores, ficando a ajuda restrita aos verdadeiramente necessitados.

      Bom domingo!

Deixe uma resposta