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Editorial Gazeta do Povo

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Cartazes com fotos do aiatolá Ali Khamenei, morto em 28 de fevereiro, em uma praça de Teerã

Na manhã deste sábado, Estados Unidos e Israel lançaram um novo ataque conjunto contra o Irã, muito mais pesado que as ações de junho de 2025, contra o programa nuclear iraniano. Desta vez, além de alvos militares, a ofensiva também mirou alvos políticos: foram mortos o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, que governava o país desde 1989; o ministro da Defesa, general Aziz Nasirzadeh; o comandante da Guarda Revolucionária, Mohammed Pakpour; e o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad, um dos mais radicais a ter ocupado o posto e de quem Lula foi muito próximo durante seu segundo mandato. Em retaliação, o Irã tem lançado mísseis e drones contra o território israelense e contra bases norte-americanas em todo o Oriente Médio. Os combates continuam ao longo desta segunda-feira, com a entrada dos terroristas do Hezbollah no conflito.

O aiatolá Khamenei governava com mão de ferro um regime absolutista teocrático, hostil a mulheres e minorias, e que reprimia impiedosamente quaisquer dissidências – como demonstraram, muito recentemente, os milhares de mortos em resposta aos enormes protestos de rua contra o regime. Ao negar a Israel o direito de existir, os aiatolás davam apoio financeiro e logístico a grupos terroristas como o Hamas, o Hezbollah e os houthis iemenitas; pior ainda: buscavam ativamente uma bomba atômica, tendo urânio enriquecido a níveis muito próximos aos necessários para uma arma nuclear (e muito acima do que seria necessário para uso pacífico, como alegava o governo). Não é preciso gostar de Donald Trump para concordar que o mundo está melhor sem Khamenei e seus asseclas.

Por outro lado, mesmo quem apoia a decisão do presidente norte-americano pode e deve se preocupar com o que virá após a eliminação dos principais nomes do regime teocrático xiita. O Irã não é a Venezuela, e Trump não está lidando com ditadores pragmáticos que aceitam fazer o jogo norte-americano para continuar no poder, como é o caso da interina Delcy Rodríguez, mas com fanáticos religiosos que, inclusive, já colocaram em marcha o processo de escolha do sucessor de Khamenei – um dos favoritos é o líder supremo interino, Alireza Arafi.

Dirigindo-se ao povo iraniano, Trump afirmou: “quando terminarmos, assumam o seu governo. Só depende de vocês tomá-lo”. Mas, ao contrário da Venezuela, que tem uma oposição consolidada e nomes com grande apoio popular, o Irã não tem nenhuma força política de respeito que seja contrária ao regime islâmico – até porque só participava dos processos eleitorais a “oposição autorizada” pelos aiatolás –, nem lideranças populares de fora dos círculos do poder religioso. Mesmo Reza Pahlavi, o filho do xá deposto pelos aiatolás em 1979, está longe de ser unanimidade – e o governo de seu pai, embora pareça um paraíso perto da teocracia dos aiatolás, também foi autocrático. Para complicar o quadro, o Irã é muito mais heterogêneo que a Venezuela, inclusive do ponto de vista étnico.

Por isso é muito preocupante que a mudança de regime já tinha saído da lista de prioridades de Trump; em discurso na Casa Branca nesta segunda-feira, o presidente afirmou que os objetivos norte-americanos eram destruir as capacidades de mísseis do Irã, aniquilar a marinha do país, garantir que o Irã não produza uma arma nuclear, e impedir que o Irã arme e financie grupos terroristas fora de suas fronteiras. A não ser que EUA e Israel estejam escondendo o jogo e já tenham tudo acertado para substituir a teocracia por outro regime, há uma chance considerável de que, uma vez “terminado o trabalho”, os iranianos sejam deixados ao Deus dará, com facções se digladiando para governar os destroços, em uma triste repetição de toda a instabilidade que já vimos em outros países do Oriente Médio e do Norte da África.

As repercussões do ataque norte-americano e israelense, no entanto, vão muito além do Oriente Médio. Têm razão os que apontam a progressiva corrosão do Direito Internacional, substituído pela lei do mais forte; no entanto, também será preciso ponderar que esse mesmo Direito Internacional não foi capaz de parar os aiatolás enquanto massacravam seu próprio povo, financiavam o terrorismo internacional e buscavam uma arma nuclear. O mundo ainda não encontrou o local exato onde traçar a tênue linha entre o respeito à soberania das nações e a necessidade de frear regimes assassinos com potencial de desestabilização regional ou mundial.

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