JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

Há coisas que são tão imorais que jamais deveriam subir das resenhas de mesas de bar, para as páginas de um livro. No entanto, muitas vezes, tais coisas são tão engraçadas que não devem jamais serem promovidas somente entre os copos de bebidas alcóolicas e os petiscos, à mesa de um bar.

Pois bem…

O coveiro daquela pequena cidade do interior nordestino tanto sentia prazer em enfiar a pá na terra, quanto em sentir um par de testículos batendo-lhe por trás.

Homenzarrão, forte, branco, de pouquíssimo estudo, de raríssimas venhas no trato, comilão e beberrão… e era quando bebia muito mais que comia, que baixava nele aquele desejo estranho de sentar na pá e se transformar em cova humana. Um homem feito todo em um único buraco.

Escolhia alguém e o chamava sempre com a mesma cantada: “se você for corajoso e quiser enterrar seu vivo em minha cova, já ‘tou pronto!”, dizia entre o sorriso amarelado de dois dentes superiores lhe faltando na frente.

Poucos vestiam a mortalha para essa coragem. Mas, de vez em quando, alguém se arriscava em troca de umas pás de alguns tostões.

O vaqueiro tinha chegado à fazenda não fazia uma semana. Mas, no dia da feira da cidade – assim como todos os outros funcionários do patrão – como era tradição, foi se divertir após as primeiras tarefas serem muito cedo cumpridas: a ordenha, a separação do gado, o encurralamento e outras obrigações; soltou o cavalo no curral de pasto, despiu-se dos trajes de couro, as perneiras, guarda-peito e gibão, pendurando tudo em tornos de madeira fixados na parede mal rebocada do alpendre do armazém ao lado do curral. Seguiu com as botas e o chapéu de couro, combinados com um conjunto surrado de mescla azulada. Subiu assim na carroceria do velho “Fê-Nê-Mê” com outros empregados da fazenda.

Fez a viagem toda com o rosto voltado para o que ia se distanciando. Ficou calado o tempo inteiro, olhando a caatinga ficando para trás, entre a poeira levantada pelo caminhão. Não participou de conversa alguma, mantida sob as falas gritadas sobre o barulho do motor do carro. Era homem sisudo, de poucas palavras, de difícil convívio até.

Levou pouco dinheiro no bolso. Poucos dias haviam sido trabalhados.

Mas o quê o coveiro do início de minha narrativa, tem a ver com o vaqueiro?

Bom. Na cidade, sem muita noção de espaço e organização social, o segundo deu de achar justamente o primeiro já meio embriagado, sentado à entrada do bar do centro. No coreto da pracinha principal.

O coveiro com as pálpebras já meio abaixadas, interessou-se de imediato pelo elemento novo na cidade, quando o viu entrar no ambiente e pedir, ainda de pé ante o balcão, uma chamada de cachaça.

Acompanhou o desconhecido tirando uma cédula do bolso, colocando-a sobre o balcão. Viu o velho bodegueiro pôr o copo com uma pancada seca sobre o móvel de amdeira bruta, abrir a garrafa e despejar o líquido no copo. Continuou sem tirar a vista quando o vaqueiro puxou o chapéu de couro para as costas, segurou o copo, elevou-o acima da cabeça, balbuciou algo e despejou um pouco da cachaça no chão. Depois, com um movimento da cabeça para trás, abriu a boca e jogou o resto do conteúdo no copo para dentro da garganta.

– Ei! – gritou o coveiro. – Venha aqui pra minha mesa e num se preocupe com a despesa.

O vaqueiro estudou o homem, relutou um instante. Mas, seguiu em busca do chamado.

Caminhou de encontro ao coveiro, puxou uma cadeira, apertou sua mão e sentou-se ainda agarrado ao desconhecido.

– Brega. Vaqueiro do Dr. Raimundo Saldanha – e completou com um puxão de braço: – Prazer!

– Cogão. Coveiro da prefeitura. Satisfação toda minha – respondeu o outro.

Ficaram amigos na hora, seguindo o modelo daquelas amizades recém adquiridas em mesas de bar. Das que, parece, haver conhecimento de décadas. Pois bem, beberam e comeram à vontade durante o dia inteiro. Os assuntos da prosa correram desde a lida no campo, passando por futebol, política, Reino Eterno e assombração.

– Num gosto de jogo de bola – respondeu em certo ponto o vaqueiro.

– Num tenho medo de alma d’outro mundo – completou o coveiro noutro ponto.

E seguiram se conhecendo. Cogão muito falante e Brega, sisudo, respondendo praticamente através de monossílabos. Sem contar que o vaqueiro ficava meio encabulado quando coveiro lhe segurava a coxa, quase atingido seu “entre-pernas”.

Às vinte e duas horas em ponto Brega se assustou quando ouviu a hora sendo dita pelo dono do bar. Hora de fechar.

– Me lasquei! O carro da fazenda já voltou – reclamou em voz alta.

– Num se preocupe, amigo Brega. Tu dorme lá em casa, e amanhã logo cedo vou deixar tu de moto, antes mesmo do sol se abrir.

– Ôxe! E por que não vai agora – inquiriu o vaqueiro franzindo a testa?

– Não guio moto quando bebo – Cogão deu a desculpa.

Dizer que era uma casa… assim, uma casa mesmo, onde morava Cogão em sua solidão, é faltar um pouco com a verdade.

O imóvel era um quarto, sala, banheiro e cozinha, disponibilizado pela prefeitura dentro do cemitério municipal. Ambientes apertados, dividindo móveis antigos e ferramentas de trabalho. Tinha uma porta na frente dando para a rua, e outra nos fundos para acesso ao campo santo. Era uma espécie de continuação da capelinha; sem, no entanto, possuir qualquer acesso ao pequeno altar de vão único onde a imagem de Santo Expedito recebia de frente os visitantes.

Entraram na casa trôpegos, um atrás do outro.

Cogão puxou uma cordinha e a luz de vinte e cinco velas iluminou o ambiente.

Brega foi se deixando arriar na única cadeira da sala, apoiando os cotovelos na mesa e circulando o olhar pela pequena sala, questionando-se onde dormiria.

Cogão desabotoou os dois botões do peito e tirou a camisa por cima da cabeça, sem se preocupar com a companhia.

– Pode tirar a roupa, Brega – autorizou. – Fique à vontade que a casa é pequena, mas agora é tua também – falou afastando uma cortinha de cordas plásticas que separava o quarto da sala. Entrou no quarto às costas de Brega.

O vaqueiro se encurvou e soltou os pés das botas, sentindo-se aliviado. Recostou-se na cadeira. Fechou os olhos, sentiu o mundo dar uma girada.

Cogão se aproximou por trás. Descansou a mão no ombro de Brega e soltou a cantada:

– Se você for corajoso e quiser enterrar seu vivo em minha cova, já ‘tou pronto!

– É o quê, macho? – perguntou Brega abrindo os olhos e se voltando.

Cogão estava completamente nu. Com um sorriso estranho no rosto. O espaço aberto na gengiva de cima sendo preenchido pela língua em movimentos rápidos.

O coveiro se explicou explicitamente.

– Tu num quer me comer não?

– Oxente, e tu ‘tá me estranhando, macho?

– Taí! Vai bem querer dizer que tu num notou que eu quero tua picareta cavando minha terra?!

O vaqueiro deu um pulo. Ficou de pé e encarou o coveiro. Ficaram se encarando em silêncio. Num instante Brega sentiu um calor estranho nas partes de baixo. Não passou um minuto e…

– Pois, te ajeita, baitola, que tu vai ter o que tu quer.

Cogão afastou a cadeira se debruçou sobre a mesa, abriu as pernas e empinou-se para trás, no momento que Brega abria os botões da calça.

Uma tentativa, duas, três… na sexta investida, Cogão relaxou e sentiu a pá de Brega lhe cavando as carnes. Brega ajeitou-se, chegou-se mais e forçou tudo. Sentiu a virilha encostar nas nádegas moles de Cogão. Movimentou-se umas três vezes para frente e para trás.

– Ai – gritou o coveiro.

– Que foi? – perguntou Brega.

– Pare aí. Me deu vontade de peidar.

– Então arrote! Porque aqui está tudo “intupido” – respondeu o vaqueiro, cavando a terra do coveiro em movimentos mais acelerados.

É cada uma que eu ouço por aí. Algumas deveriam ficar, sim, enterradas sobre o plástico de alguma mesa de bar.

3 pensou em “O ARROTO

    • Isso é lá desmantelo, hômi!
      Desmantelo é pá socada na cova da nação brasileira.
      Você me entende, que eu sei.

      • kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!! Tens razão, meu poeta… Tens razão.
        E tem mais: estamos indo direto para o fundo do poço e sem nenhuma perspectiva de mudanças.
        Esses vadios vieram mesmo com sede de destruição.
        Uma horda saída do inferno.

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