Guilherme Fiuza

O ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira
O Itamaraty emitiu uma nota mencionando o risco de ação militar dos EUA no Brasil. O alerta foi motivado pela decisão do governo norte-americano de classificar oficialmente facções criminosas brasileiras como terroristas. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, precedentes de atitudes intervencionistas da administração Trump no continente justificam a preocupação.
A Secretaria de Estado dos EUA respondeu à nota do Itamaraty. As autoridades da política externa norte-americana consideraram “absurda” a premissa de intervenção militar no Brasil. E foram além: disseram que esse tipo de posicionamento (alegação de ameaça à soberania) frequentemente é uma tentativa de desviar as atenções da opinião pública — e costuma beneficiar as ações de grupos violentos.
Com sua retórica habitualmente voltada para miragens “progressistas”, o grupo político liderado por Lula se acostumou a jogar nos adversários “conservadores” o estigma do nacionalismo “xenófobo”. Há muito tempo, esse grupo se habituou a dar uma surfada no chamado “globalismo”, bancando o cosmopolita.
Tem sido assim no mundo todo. A demagogia migratória — que hoje está na base das novas políticas de censura — alimenta o fisiologismo “progressista” em tudo quanto é canto. E, naturalmente, o discurso da benevolência com a imigração desordenada embute, entre outros aspectos indesejáveis, a negligência com o crime — como estamos assistindo no debate sobre a tipificação das facções brasileiras como terroristas.
O PT vinha marcando posição nesse filão — e só se via a presença do velho nacionalismo em seu discurso para “defender” a Petrobras e demais estatais como patrimônio “do povo”. As coincidências da vida fizeram com que essas empresas fossem gravemente lesadas durante administrações petistas. Fora isso, o time de Lula vinha apresentando sempre um sotaque internacionalista. Até porque fundações bem abastadas vêm, há um bom tempo, premiando a demagogia sem fronteiras através de suas pautas supostamente humanitárias.
A consolidação de Donald Trump como personagem central na política mundial mudou alguns parâmetros do oportunismo. Como o atual presidente dos EUA age fortemente contra o complexo propagandístico que dominou a imprensa tradicional, “notícias” tratando-o como o vilão do planeta proliferam diariamente por todos os continentes. Até segmentos mais equilibrados do jornalismo cultivam a cara de nojo quando o assunto é Trump. Esse poderoso universo de repúdio automático ao ocupante da Casa Branca se tornou um ativo para os franco-atiradores.
Assim surgiu, 25 anos após o “Lulinha paz e amor”, o “Lula patriota”. A retórica petista explorou todos os ataques possíveis à presença do verde-amarelo na política, às manifestações de rua com lemas patrióticos e à figura do patriota como um bobo manipulado por totalitários. Agora surge tranquilamente com o discurso da soberania contra os “traidores da pátria”.
E parece ter êxito, a julgar pelo comportamento do candidato mais cotado da oposição até aqui, Flávio Bolsonaro — que decidiu pedir ao governo americano para não aplicar tarifas punitivas ao Brasil. As tarifas são uma resposta ao que os EUA consideram práticas desleais — incluindo complacência com a corrupção exposta pela Lava Jato. O prejuízo político da taxação seria, portanto, inteiramente direcionado ao governo Lula.
Mas a oposição parece preferir tentar provar que não é traidora da pátria. Até prova em contrário, o bizarro discurso da invasão estadunidense colou.